Governo federal suspende importação de cacau da Costa do Marfim após articulação liderada pela Bahia

Na terça-feira (24/02/2026), o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) publicou o Despacho Decisório nº 456/2026, determinando a suspensão imediata e temporária das importações de amêndoas fermentadas e secas de cacau provenientes da República da Costa do Marfim, principal produtor mundial da commodity. A decisão foi adotada após avaliação de risco fitossanitário associado ao fluxo de grãos provenientes de países vizinhos para o território marfinense, que pode resultar na mistura de amêndoas contaminadas em cargas destinadas ao Brasil. A medida ocorre após articulação institucional liderada pelo Governo da Bahia, em diálogo com o governo federal, representantes do setor produtivo, parlamentares estaduais e federais, além de órgãos técnicos ligados à cadeia do cacau.

Suspensão das importações e risco fitossanitário

A decisão do Ministério da Agricultura baseia-se em preocupações sanitárias relacionadas à possível entrada de pragas e doenças na lavoura cacaueira brasileira. Segundo avaliação técnica, o elevado fluxo de grãos oriundos de países vizinhos para a Costa do Marfim pode gerar mistura de amêndoas nas cargas exportadas, dificultando o controle sanitário das mercadorias que chegam ao Brasil.

Esse cenário elevou o alerta entre autoridades agrícolas e representantes do setor produtivo, sobretudo na Bahia, principal estado produtor de cacau do país, onde a preservação da sanidade das lavouras é considerada elemento central para a estabilidade da cadeia produtiva.

Além do aspecto fitossanitário, a suspensão também possui impacto econômico direto, ao reduzir a oferta externa no mercado nacional. Para produtores brasileiros, especialmente os baianos, a medida pode contribuir para amenizar pressões de preço e reduzir distorções comerciais, em um momento de forte instabilidade no setor.

Articulação institucional liderada pelo Governo da Bahia

A suspensão das importações é resultado de uma ação articulada entre diferentes instâncias de governo e representantes do setor cacaueiro, coordenada pelo Governo da Bahia. O processo envolveu diálogo com o Ministério da Agricultura, parlamentares da Assembleia Legislativa da Bahia, integrantes da bancada federal e lideranças do setor produtivo.

Como parte dessa mobilização, foi criada a Comissão para Discussões Iniciais da Cacauicultura, responsável por organizar a interlocução institucional e apresentar demandas do setor. O grupo também acompanhou o envio de uma missão técnica à África, cuja análise identificou inconsistências nos fluxos de exportação de cacau destinados ao Brasil.

Essas constatações contribuíram para a decisão do Ministério da Agricultura de adotar a suspensão temporária das importações.

Segundo Jeandro Ribeiro, diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) e integrante da comissão, a medida é resultado de um processo de diálogo entre diferentes níveis de governo.

“O que estamos vendo agora é resultado de um trabalho coletivo, coordenado e responsável. O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, liderou essa agenda, reuniu o setor, dialogou com a bancada federal e construiu, junto ao ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, uma resposta concreta”, afirmou.

De acordo com Ribeiro, a decisão demonstra a preocupação das autoridades em preservar a defesa fitossanitária e proteger a renda dos produtores rurais.

Agenda estruturante para a cadeia do cacau

A suspensão das importações integra um conjunto mais amplo de medidas discutidas no âmbito da comissão criada pelo governo baiano para enfrentar a crise na cadeia produtiva do cacau.

Entre os principais temas debatidos estão:

  • Revisão do regime de drawback, utilizado por empresas que importam insumos com isenção tributária para posterior exportação;
  • Ações para coibir distorções de mercado e deságio no preço pago ao produtor;
  • Fortalecimento da fiscalização fitossanitária nas importações;
  • Ampliação da assistência técnica aos produtores;
  • Recomposição da capacidade institucional da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira);
  • Solicitação de um plano nacional de contenção da monilíase, doença que ameaça plantações de cacau na América Latina.

Outro ponto discutido envolve a atuação da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do próprio Ministério da Agricultura na divulgação transparente das estimativas oficiais de safra, consideradas fundamentais para o funcionamento do mercado e para a formação de preços.

De acordo com representantes do setor, a previsibilidade das informações agrícolas é um fator essencial para reduzir volatilidade e garantir maior estabilidade ao mercado cacaueiro.

Impacto para produtores e mercado do cacau

A cacauicultura brasileira, historicamente concentrada na Bahia e no Pará, enfrenta desafios estruturais relacionados a sanidade vegetal, produtividade e volatilidade de preços internacionais.

Nesse contexto, a suspensão das importações de cacau da Costa do Marfim é vista por parte do setor como uma medida de proteção estratégica, capaz de reduzir riscos sanitários e contribuir para a reorganização do mercado interno.

A decisão também reforça o papel das políticas públicas voltadas à defesa sanitária vegetal, consideradas fundamentais para preservar a competitividade da produção nacional em um cenário de forte integração do comércio agrícola global.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading