O bloco afro Ilê Aiyê, o mais antigo do Brasil, voltou a desfilar pelo Circuito Osmar (Campo Grande) na noite de segunda-feira (16/02/2026), reunindo associados e foliões em uma passagem marcada por elegância, identidade cultural e afirmação da estética negra. O desfile destacou a força simbólica da instituição, considerada uma das principais responsáveis por transformar a percepção do belo na sociedade baiana e por consolidar a presença afro-brasileira no Carnaval de Salvador.
Desfile marcado por identidade e tradição
A segunda passagem do Ilê Aiyê pelo circuito foi acompanhada por um público expressivo, que assistiu a um cortejo marcado por turbantes, maquiagens marcantes e figurinos elaborados, elementos que compõem a estética tradicional do bloco. Homens e mulheres desfilaram com trajes cuidadosamente preparados, reforçando a identidade coletiva e a proposta estética construída ao longo das décadas.
A presença dos associados formou um conjunto visual homogêneo, descrito por participantes como uma expressão de orgulho e pertencimento. O desfile reafirmou o papel do Ilê Aiyê na construção de uma revolução estética e cultural, iniciada na década de 1970, e que segue influenciando o Carnaval e a sociedade brasileira.
Relatos de foliões evidenciaram o impacto emocional do momento. A operadora de processos petroquímicos Elisângela Dantas, moradora do bairro do Matatu, afirmou sentir-se valorizada ao participar do cortejo, destacando o cuidado com a apresentação e o sentimento de pertencimento coletivo.
Herança familiar e identidade cultural
Entre os associados, o desfile também foi marcado por histórias de tradição familiar. O casal Miguel Catarino, morador de Cajazeiras, e Natalie Kelly, de Marechal Rondon, participou da concentração e relatou a importância do bloco em suas trajetórias pessoais.
Miguel afirmou que o Ilê Aiyê representa a herança cultural transmitida por sua família, destacando que a mãe já desfilava no bloco e que outros parentes também participam da instituição. Segundo ele, o desfile simboliza o fortalecimento da identidade negra e o reconhecimento da cultura afro-brasileira.
Para Natalie, o desfile representou a realização de um sonho. Em seu primeiro ano como associada, ela relatou a emoção de participar do cortejo após acompanhar o bloco durante anos pela televisão e por meio da experiência familiar.
Deusa do Ébano simboliza representatividade feminina
Um dos pontos centrais da estética do Ilê Aiyê é a escolha anual da Deusa do Ébano, figura simbólica que representa a beleza e a força da mulher negra. Em 2026, o título foi concedido à estudante de jornalismo Carol Xavier, de 27 anos.
Durante a preparação para a saída tradicional do bloco, realizada no Curuzu, a nova Deusa destacou a importância do papel para a autoestima e a representatividade de mulheres e crianças das comunidades negras. Segundo ela, o posto simboliza a possibilidade de ocupar espaços de destaque e construir novas perspectivas de futuro.
A escolha da Deusa do Ébano é considerada um dos momentos mais emblemáticos do calendário cultural do Ilê Aiyê, reforçando o compromisso da instituição com a valorização da identidade afro-brasileira.
Apoio institucional e políticas culturais
O desfile do Ilê Aiyê integra as ações apoiadas pelo programa Ouro Negro, iniciativa do Governo da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado (Secult-BA), voltada ao financiamento e fortalecimento de blocos afro, afoxés e entidades de matriz africana.
O programa busca assegurar a presença dessas manifestações no Carnaval, preservando tradições culturais e ampliando a visibilidade de expressões afro-brasileiras no principal evento popular do estado.










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