Nesta segunda-feira (16/02/2026), o bairro do Garcia, em Salvador, voltou a ser tomado pelo som das fanfarras, pelas fantasias coloridas e por cartazes irreverentes durante a tradicional Mudança do Garcia, uma das manifestações mais antigas do Carnaval soteropolitano. O cortejo reuniu moradores, foliões e visitantes em um ambiente de convivência comunitária, crítica social e forte identidade local, preservando a essência histórica de um bloco que nasceu como protesto popular e atravessa gerações.
Criada na década de 1920, a Mudança do Garcia surgiu a partir da iniciativa de moradores que decidiram ocupar as ruas para brincar o Carnaval e, ao mesmo tempo, expressar críticas políticas e sociais. Ao longo das décadas, o bloco consolidou-se como uma manifestação espontânea e democrática, sem cordas ou áreas segregadas, mantendo a tradição do Carnaval de rua.
O cortejo é marcado por elementos clássicos da folia: marchinhas, fanfarras, bonecos, máscaras e cartazes satíricos, que abordam temas políticos e sociais do momento. A criatividade popular é o principal motor da festa, com fantasias e mensagens que se renovam a cada edição.
Morador do bairro há mais de 60 anos, o aposentado Jaguaraci de Jesus destacou o caráter comunitário do evento. Segundo ele, a manifestação mantém um clima de convivência entre vizinhos e amigos, o que garante a tranquilidade do cortejo. Para o morador, a Mudança do Garcia representa uma memória afetiva que acompanha sua vida desde a infância.
Estrutura sem descaracterizar a essência
Na edição de 2026, o bloco contou com o apoio logístico de dois mini trios elétricos, que garantiram a estrutura sonora do cortejo sem alterar o caráter tradicional da manifestação. A proposta foi manter o formato histórico, no qual o trio funciona como um palco móvel que avança lentamente pelas ruas, enquanto o público ocupa o espaço de forma livre.
O vice-governador da Bahia, Geraldo Júnior, acompanhou a saída do bloco e ressaltou a importância de políticas públicas voltadas à preservação das manifestações culturais tradicionais. Segundo ele, a Mudança do Garcia simboliza a força popular e a resistência cultural, sendo exemplo de tradição que deve ser mantida e valorizada.
Espaço de crítica e expressão popular
A Mudança do Garcia mantém a vocação original de manifestação política e social, característica que a diferencia dos grandes circuitos comerciais do Carnaval de Salvador. Sem cordas ou segregação, o bloco transforma as ruas do bairro em um espaço de expressão livre.
A moradora Silvaninha Silva, frequentadora desde a infância, afirmou que o bloco representa um ambiente democrático, onde os participantes podem se manifestar politicamente com tranquilidade. Para ela, a Mudança preserva o espírito coletivo do Carnaval tradicional.
Visitantes também destacaram o caráter simbólico do cortejo. A antropóloga Luci Lombrato, que participou da festa pela primeira vez, ressaltou a presença de protestos e manifestações políticas como elementos centrais da experiência, classificando o bloco como significativo e representativo das lutas populares.










Deixe um comentário