Oncologia também é cura: por que o diagnóstico precoce salva vidas | Por Thiago Vieira

Fevereiro marca o mês do combate mundial ao câncer, uma oportunidade não apenas para reforçar a importância da prevenção, mas também para lembrar um objetivo fundamental da oncologia que muitas vezes é esquecido: a cura. Quando se fala em câncer, ainda é comum que as pessoas imaginem pacientes em estado grave ou longas internações. No entanto, a realidade atual é mais otimista — e sustentada por dados científicos.

Estima-se que aproximadamente 60% a 70% dos casos de câncer sejam diagnosticados ainda em estágios localizados ou regionais, quando a doença está restrita ao órgão de origem ou apresenta mínima disseminação. Nesses cenários, o tratamento frequentemente tem intenção curativa. Um exemplo clássico é o câncer de mama diagnosticado enquanto ainda está limitado à mama, sem comprometimento de outros órgãos.

Na prática clínica, isso permite traçar uma estratégia voltada à cura. O tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia ou ambas, e muitas vezes é complementado pela chamada terapia adjuvante — que inclui quimioterapia, hormonioterapia, terapias-alvo ou imunoterapia — com o objetivo de reduzir o risco de recidiva. Após a conclusão do tratamento, inicia-se uma etapa igualmente importante: o seguimento oncológico. As consultas costumam ser periódicas — geralmente a cada três meses no início — momento em que são solicitados exames e realizada uma avaliação clínica cuidadosa para identificar precocemente qualquer sinal de retorno da doença. Com o passar do tempo e na ausência de evidências de recidiva, os intervalos entre as consultas aumentam gradualmente, passando para quatro ou seis meses e, posteriormente, para avaliações anuais.

De forma geral, após cinco anos sem sinais da doença, muitos tumores passam a ser considerados curados do ponto de vista clínico, embora o acompanhamento médico continue sendo parte importante do cuidado em saúde. Mas o que realmente aumenta as chances de cura? Diversos fatores influenciam esse desfecho — como o tipo de câncer, as características biológicas do tumor, a idade do paciente e o acesso ao diagnóstico e aos tratamentos modernos —, porém um dos elementos mais decisivos é a precocidade do diagnóstico.

Quanto mais cedo o câncer é identificado, maiores são as possibilidades de tratamento eficaz e definitivo. Alguns exemplos ilustram bem esse cenário: o câncer de mama, quando diagnosticado em estágio inicial, apresenta taxa de sobrevida em cinco anos superior a 90%; o câncer de próstata tem sobrevida próxima de 98% a 99% nos casos localizados; e o câncer colorretal pode alcançar cerca de 90% de sobrevida quando detectado precocemente. Grande parte desses resultados se deve à existência de programas de rastreamento, capazes de identificar a doença antes mesmo do surgimento de sintomas. É o caso da mamografia para câncer de mama, do exame citopatológico (Papanicolau) para câncer do colo do útero, dos testes de detecção precoce do câncer colorretal e, em populações de alto risco, da tomografia de baixa dose para câncer de pulmão.

Isso não significa que tumores sem rastreamento não possam ser diagnosticados cedo. A atenção aos sinais iniciais do corpo e a investigação médica adequada diante de sintomas persistentes também são ferramentas poderosas para a detecção precoce. Por isso, a mensagem central permanece clara e baseada em evidências: o diagnóstico precoce salva vidas. Mais do que aumentar as chances de tratamento bem-sucedido, ele amplia a possibilidade real de cura — um resultado que a oncologia moderna busca todos os dias. Falar sobre câncer também é falar sobre esperança, ciência e avanços contínuos. Cada vez mais, é falar sobre pessoas que tratam, superam a doença e seguem suas vidas.

*Thiago Vieira, médico oncologista clínico, atua no diagnóstico e tratamento de diversos tipos de câncer. Comprometido com a assistência integral ao paciente oncológico, dedica-se também à educação em saúde e à divulgação científica, com o propósito de tornar a informação médica mais acessível e próxima da comunidade.

*Contato através do e-mail: thiagosanvieira@hotmail.com


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