Na segunda-feira, 02 de fevereiro de 2026, mais de 1 milhão de pessoas são esperadas no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, para a tradicional Festa de Iemanjá, uma das maiores manifestações religiosas e culturais do Brasil. Em meio a flores, oferendas e rituais de fé, a Casa de Iemanjá desponta como ponto central da celebração. O espaço é revestido por mosaicos que dialogam com o sagrado, o mar e os orixás, criados por Ed Ribeiro, artista plástico baiano conhecido internacionalmente como o “pintor dos orixás”, cuja trajetória artística começou de forma tardia e singular, após os 50 anos de idade.
A Casa de Iemanjá e o diálogo entre arte e devoção
A Casa de Iemanjá, localizada no coração do Rio Vermelho, tornou-se um símbolo visual e espiritual da festa do dia 2 de fevereiro. Os mosaicos que revestem sua fachada não cumprem apenas função estética: constituem uma narrativa visual que conecta o espaço urbano ao imaginário religioso afro-brasileiro, ao mar e à ancestralidade. A obra consolidou-se como referência cultural para baianos e visitantes, integrando arte contemporânea e tradição religiosa.
O trabalho de Ed Ribeiro no local foi iniciado em 2007 e concluído no ano seguinte. À época, o artista já experimentava uma técnica própria, mas os mosaicos representaram um ponto de inflexão em sua trajetória, projetando-o para além do circuito local e associando definitivamente seu nome à iconografia dos orixás e à devoção popular.
Uma vida que retorna às origens
Aos 73 anos, Ed Ribeiro vive atualmente em Catu, no interior da Bahia, no mesmo lugar onde nasceu. Após décadas em Salvador e uma temporada em Paris, optou por retornar às origens. No local, construiu uma casa na árvore que abriga seu ateliê e um memorial dedicado a Mãe Stella de Oxóssi, referência maior do candomblé baiano.
O espaço onde vive mistura arte, espiritualidade e natureza. Gansos e pavões convivem livremente no terreno, batizados com nomes que revelam o humor e a sensibilidade do artista, como “Portinari” e “Van Gogh”. O cotidiano reflete uma escolha consciente por um ritmo de vida mais contemplativo, sem romper com a produção artística.
Antes da arte, o empreendedorismo
Pai de três filhos, Ed Ribeiro construiu uma trajetória profissional sólida antes de se tornar artista plástico. Empresário inovador, foi responsável pela criação da primeira casa especializada em acarajé de Salvador, contribuindo para a valorização comercial de um dos maiores símbolos da culinária baiana.
Também criou, na Bahia, o “Socorro do Lar”, serviço pioneiro no estado e precursor do modelo que se popularizaria nacionalmente como “marido de aluguel”. A experiência empresarial marcou sua vida adulta e antecedeu uma mudança profunda de rumo pessoal e profissional.
O início tardio e a descoberta da pintura
No início dos anos 2000, apesar do êxito nos negócios, Ed Ribeiro passou a questionar o próprio estilo de vida. Incentivado pelos filhos, começou a pintar sem formação técnica ou acadêmica. Em 2005, aos 52 anos, concluiu sua primeira obra utilizando uma técnica autoral de derramamento de tinta, desenvolvida de forma intuitiva.
O reconhecimento inicial veio de maneira espontânea. O cantor Carlinhos Brown observou semelhanças entre os mosaicos de Ed Ribeiro e a obra do arquiteto catalão Antoni Gaudí — referência até então desconhecida pelo artista. A comparação reforçou a singularidade da técnica e ajudou a situar sua produção em um diálogo mais amplo com a arte internacional.
Técnica autoral e projeção internacional
A técnica do derramamento de tinta, hoje reconhecida como única no circuito artístico, tornou-se a marca registrada de Ed Ribeiro. Com o tempo, o artista passou a dedicar-se mais intensamente à pintura, reduzindo a produção de mosaicos, sem romper com a simbologia religiosa que permeia sua obra.
A busca por inserção no circuito internacional levou-o a uma temporada em Paris, não para absorver estilos europeus, mas para compreender o funcionamento do mercado e das instituições de arte. Exposições fora do Brasil, reconhecimento internacional e convites institucionais passaram a integrar sua trajetória.
Entre os episódios recentes, destaca-se o convite para um jantar com o presidente francês Emmanuel Macron, ocorrido em novembro de 2025, em Salvador, evidenciando o alcance simbólico e institucional de sua produção artística.
Iemanjá como eixo permanente da obra
Apesar da diversidade temática, a ligação de Ed Ribeiro com Iemanjá permanece central. Uma de suas obras mais recentes é uma tela em homenagem à Rainha do Mar, concluída há menos de um mês. Executada em tons de branco e azul, a pintura dialoga diretamente com o imaginário da festa do 2 de fevereiro e reafirma a dimensão espiritual que atravessa sua produção.
Durante a Festa de Iemanjá, o artista deixa temporariamente a tranquilidade de Catu para acompanhar de perto a celebração no Rio Vermelho. Os mosaicos da Casa de Iemanjá funcionam como testemunho artístico de uma devoção coletiva, renovada anualmente por milhares de fiéis.













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