Zé Trindade: mais de sete décadas inteiramente dedicadas à música e à memória cultural de Feira de Santana

A trajetória de Zé Trindade, nome artístico de José Trindade dos Santos, confunde-se com a própria história musical de Feira de Santana e de parte significativa do Nordeste brasileiro. Segunda-feira, 22 de dezembro de 2025, marca mais um registro público de uma vida iniciada muito cedo na música, ainda na infância, e mantida com rigor, disciplina e devoção ao longo de mais de sete décadas de atuação ininterrupta. Multi-instrumentista, professor, sanfoneiro e intérprete, Trindade construiu uma carreira sólida, distante dos holofotes fáceis, mas profundamente enraizada na tradição musical e na formação cultural de gerações.

Desde os cinco anos de idade, quando teve contato com uma simples gaita de boca, até os palcos, rádios, grupos musicais e salas de aula universitárias, Zé Trindade consolidou-se como referência de excelência técnica aliada à simplicidade pessoal. Filho do maestro Raul Souza Santos, aprendeu cedo a ler partituras, a respeitar a música como ofício e a tratá-la como projeto de vida, postura rara em um ambiente frequentemente marcado pela informalidade e pelo improviso.

Infância musical e formação precoce

Nascido em Mairi, então conhecida como Monte Alegre, Zé Trindade teve na família o primeiro e decisivo estímulo musical. Ainda criança, demonstrou facilidade incomum para instrumentos de sopro e para a compreensão de partituras, algo que seria aprofundado sob a orientação direta do pai. Aos sete anos, já recebia prêmios em apresentações públicas, o que lhe permitiu adquirir instrumentos de melhor qualidade e avançar tecnicamente.

Aos poucos, passou a se apresentar no serviço de alto-falantes “A Voz do Povo”, instalado no centro da cidade, interpretando sucessos populares de nomes como Nelson Gonçalves, Jorge Veiga e Bob Nelson, conquistando reconhecimento local. Em 1955, durante apresentação no Circo de Zé Bezerra, recebeu um prêmio em dinheiro — cinquenta mil réis — ao interpretar a canção “Julia Sapeca”, sucesso da época, episódio que marca simbolicamente o início de sua trajetória profissional.

Seminário, rádio e consolidação em Feira de Santana

Em 1957, atuando como coroinha da Matriz de Monte Alegre, foi encaminhado ao Seminário Franciscano, inicialmente em João Pessoa e depois no Seminário Mirim da capital paraibana. Nesse período, aprofundou o domínio de instrumentos como piano, violão e sopros, sempre com notável facilidade técnica. O retorno definitivo a Feira de Santana ocorreu em 1960, quando passou a integrar o elenco da Rádio Cultura, então localizada na Rua Professor Geminiano Costa.

Nas emissoras de rádio daquele período, a música ocupava espaço central. Zé Trindade integrou grupos fixos que acompanhavam programas de auditório e atrações musicais, ao lado de instrumentistas como Edinho, João Andrade, Cacau e Toninho, sob apresentação de Dourival Oliveira. Os domingos na Rádio Cultura reuniam auditórios lotados, especialmente nos programas “Brasil de Amanhã”, conduzido por Alcina Dantas, e “Turbilhão de Atrações”, apresentado por Hiberlúcio Souza.

Formação acadêmica e experiência nacional

Em 1962, Zé Trindade mudou-se para São Paulo, onde ingressou na Faculdade de Música da Universidade de São Paulo (USP), formalizando academicamente uma vocação já consolidada na prática. Após concluir a graduação, retornou a Feira de Santana em 1969, trazendo consigo novas referências estéticas e técnicas que contribuíram para a modernização da cena musical local.

De volta à cidade, formou o grupo The Feira Boys e, posteriormente, Os Leopardos, banda que se tornaria uma das mais ativas do período. O grupo participou do Projeto Roda Viva, realizando apresentações regulares no coreto da Praça Bernardino Bahia, além de animar eventos sociais e bailes do extinto Aristocrático e da tradicional Euterpe Feirense. A banda também acompanhou artistas visitantes, reforçando o papel de Zé Trindade como músico de base, fundamental para a cena cultural local.

Convite recusado e opção pela permanência

No auge da visibilidade, Zé Trindade recebeu convite formal da Gravadora Philips, que buscava um nome capaz de disputar espaço com o organista Lafayette, então referência nacional pela CBS. O projeto previa carreira solo e projeção nacional, mas foi recusado por orientação de Adessil Fernandes Guimarães, presidente do Feira Tênis Clube. A decisão selou a opção consciente pela permanência em Feira de Santana, em detrimento de uma carreira fonográfica de maior alcance.

Em 1978, deixou o grupo Os Leopardos e passou a atuar em diversas bandas, ampliando sua circulação por cidades como Brumado, Itabuna e capitais do Nordeste. Uma passagem inicialmente breve por Aracaju transformou-se em 15 anos de trabalho contínuo, período em que se consolidou junto ao público sergipano, antes de retornar definitivamente a Feira de Santana em 2010.

Magistério, forró e devoção à sanfona

De volta à cidade, integrou a banda Bolacha com Tubaína, criada pelo médico Outran Borges, e atuou como professor de música do Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA) durante oito anos. A experiência docente reforçou seu compromisso com a transmissão do conhecimento musical, unindo teoria, prática e disciplina.

Aos 81 anos, Zé Trindade mantém atuação ativa, especialmente com a sanfona, instrumento ao qual dedica atenção especial. Fã dos ritmos nordestinos, lidera um trio de forró autêntico, com triângulo, zabumba e sanfona, utilizando uma Scandelli de 120 baixos. Embora aprecie a MPB romântica, declara como música preferida “Feira da Mangáia”, de Sivuca, síntese de sua identidade musical.

Distante de interesses como futebol ou entretenimentos alheios à música, Trindade mantém relação quase simbiótica com o instrumento: “A sanfona fica colada no meu coração. Parece que somos uma coisa só”, afirma. Dos filhos, apenas Rodrigo demonstra algum interesse pela música, conciliando apresentações eventuais com outra atividade profissional.

Tradição, permanência e legado cultural

A trajetória de Zé Trindade evidencia um modelo de dedicação artística ancorado na formação sólida, no respeito à tradição e na permanência territorial, em contraste com a lógica contemporânea de mobilidade constante e busca imediata por projeção nacional. Sua opção por permanecer em Feira de Santana contribuiu decisivamente para a consolidação de uma cena musical local consistente e tecnicamente qualificada.

O percurso também revela a centralidade das rádios, bandas fixas e espaços públicos na formação cultural do interior brasileiro durante o século XX, elementos hoje enfraquecidos pela fragmentação digital. A ausência de registros fonográficos amplos não diminui o alcance do legado, mas aponta uma lacuna na preservação formal dessa memória musical.

Zé Trindade representa, assim, um patrimônio cultural vivo, cuja história reforça a importância da continuidade, do ensino e da valorização dos mestres locais como pilares da identidade cultural e da transmissão do saber artístico.


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