Bahia aposta em cacau irrigado e produção em larga escala para suprir déficit global e reposicionar Brasil na cadeia do chocolate

Domingo, 01/03/2026 — Um projeto agrícola em desenvolvimento no oeste da Bahia pretende reposicionar o Brasil na cadeia global do cacau e contribuir para enfrentar o crescente déficit mundial da matéria-prima do chocolate. Liderada pelo produtor Moisés Schmidt, presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) e proprietário da Schmidt Agrícola, a iniciativa aposta em tecnologia, irrigação e produção em escala industrial para ampliar a oferta da fruta no mercado internacional. O plano prevê a implantação gradual de até 10 mil hectares de cacau, o que poderá transformar a propriedade na maior fazenda do mundo dedicada à cultura.

A proposta surge em um contexto de escassez global de cacau, impulsionada principalmente por quedas de produção em países africanos responsáveis pela maior parte da oferta mundial. Para Schmidt e representantes da indústria, a capacidade tecnológica e produtiva do agronegócio brasileiro coloca o país em posição estratégica para ampliar a produção e contribuir para a estabilidade da cadeia global do chocolate.

Projeto agrícola no Matopiba aposta na escala produtiva

Moisés Schmidt administra, ao lado do irmão David Schmidt, a Schmidt Agrícola, empresa com cerca de 35 mil hectares cultivados no oeste da Bahia. Tradicionalmente voltado para a produção de soja e algodão, o grupo iniciou um processo de diversificação agrícola a partir de 2018, com o cultivo de banana em 300 hectares, parte da qual já é exportada para mercados da Argentina e da Europa.

A entrada no setor cacaueiro ocorreu em 2019, quando a empresa iniciou os primeiros plantios da cultura. Atualmente, o projeto encontra-se em fase piloto, com 400 hectares em implantação, dos quais aproximadamente 70% já estão estabelecidos. A meta de longo prazo é atingir 10 mil hectares plantados, consolidando uma produção em escala raramente observada na cacauicultura mundial.

Segundo Schmidt, o objetivo é desenvolver um modelo produtivo capaz de responder à crescente demanda internacional por cacau. Ele afirma que a escassez global da matéria-prima já provoca discussões na indústria alimentícia sobre possíveis reformulações de produtos à base de chocolate, caso a oferta não aumente.

Indústria alerta para risco de falta de matéria-prima

A preocupação com o abastecimento da cadeia produtiva do cacau também é compartilhada pela indústria. Anna Paula Losi, presidente-executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), afirma que o setor acompanha com atenção a evolução da oferta mundial.

A entidade reúne importantes processadoras instaladas no Brasil, responsáveis pela moagem de aproximadamente 95% da produção nacional, estimada em cerca de 200 mil toneladas de amêndoas por safra. Entre as empresas representadas estão multinacionais como Cargill, Barry Callebaut e Olam Food Ingredients (OFI), além da Indústria Brasileira de Cacau (IBC).

Segundo Losi, o cenário de escassez exige expansão produtiva para evitar impactos mais amplos na indústria. De acordo com a dirigente, o risco de interrupção na produção industrial por falta de matéria-prima é uma possibilidade concreta caso a oferta global não seja ampliada.

Modelo produtivo aposta em irrigação e tecnologia

O projeto conduzido pela Schmidt Agrícola utiliza um modelo de produção diferente do sistema tradicional de cacau cultivado em cabruca, no qual as árvores são plantadas sob a sombra de florestas. No oeste da Bahia, o cultivo ocorre em pleno sol, associado a irrigação tecnificada e manejo agrícola intensivo, estratégia que busca ampliar a produtividade e permitir ganhos de escala.

O investimento inicial é elevado. Na área piloto, o custo estimado é de cerca de R$ 200 mil por hectare, incluindo preparação do solo, implantação de sistemas de irrigação, aquisição de mudas e manejo agrícola nos primeiros anos de cultivo.

Outro desafio enfrentado pelo projeto foi a escassez de mudas de qualidade no mercado. Para superar essa limitação, a empresa estruturou o viveiro BioBrasil, considerado um dos maiores do setor. Atualmente, a unidade produz 3,5 milhões de mudas por ano, com meta de alcançar 10 milhões anuais até 2027.

Demanda global cresce enquanto produção africana enfrenta dificuldades

A expansão da cacauicultura no Brasil ocorre em um momento de forte instabilidade no mercado internacional. De acordo com dados da International Cocoa Organization (ICCO), o consumo mundial gira em torno de 5 milhões de toneladas por ano, com projeções indicando demanda entre 8 e 10 milhões de toneladas até 2050.

Grande parte da produção global está concentrada na África Ocidental, especialmente em Gana e Costa do Marfim, países que juntos respondem por cerca de 60% da oferta mundial. Nos últimos anos, problemas climáticos e sanitários provocaram forte queda na produção regional.

Como consequência, o mercado registrou um déficit global estimado em 480 mil toneladas, contribuindo para a volatilidade dos preços. Em dezembro recente, a cotação internacional do cacau atingiu quase US$ 13 mil por tonelada, antes de recuar para cerca de US$ 8 mil três meses depois.

Durante conferência da World Cocoa Foundation (WCF) realizada em São Paulo, o presidente da entidade, Chris Vincent, destacou o papel potencial do Brasil na reconfiguração da cadeia produtiva. Segundo ele, o país reúne infraestrutura, tecnologia agrícola e capacidade produtiva capazes de contribuir para o equilíbrio do mercado global.

Pesquisa e manejo buscam aumentar produtividade

A Schmidt Agrícola desenvolve o projeto com apoio de instituições de pesquisa e extensão agrícola. Entre os parceiros estão a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), vinculada ao Ministério da Agricultura, além da Embrapa Fruticultura, sediada em Cruz das Almas (BA), e da Embrapa Cerrado, em Brasília.

O sistema produtivo utiliza irrigação por microaspersão, manejo de precisão e mecanização de etapas agrícolas, incluindo pulverização e fertilização. A empresa também trabalha em soluções para viabilizar a mecanização da colheita, um desafio técnico ainda em desenvolvimento na cultura do cacau.

Além da produção intensiva, o modelo incorpora práticas de agrofloresta e cobertura vegetal permanente, com uso de culturas complementares como braquiária e leguminosas, que contribuem para a fertilidade do solo e para a sustentabilidade ambiental da produção.

Produtividade e expansão regional

Os primeiros resultados de produtividade obtidos nas áreas experimentais têm sido considerados promissores. Inicialmente, a empresa estimava produzir cerca de 200 arrobas de amêndoas por hectare, mas as projeções mais recentes indicam potencial para alcançar até 400 arrobas por hectare, equivalentes a aproximadamente 6 toneladas por hectare.

Apesar do avanço técnico, o projeto ainda não atingiu plena rentabilidade, pois parte das áreas está em fase de implantação, caracterizada por altos investimentos iniciais. A expectativa é que a operação alcance equilíbrio econômico nos próximos ciclos produtivos, à medida que as lavouras amadurecem.

O movimento já começa a influenciar a região. Atualmente, cerca de 30 produtores do oeste da Bahia iniciaram investimentos na cultura do cacau, com mais de 700 hectares em implantação, sinalizando a formação de um novo polo produtivo no estado.

*Com informações da Forbes Brasil.


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