Uma manifestação contra apagões prolongados e escassez de alimentos transformou-se em episódios de violência na madrugada de sábado (14/03/2026) na cidade de Morón, no centro de Cuba, quando manifestantes atacaram um escritório local do Partido Comunista de Cuba (PCC). O protesto, inicialmente pacífico, ocorreu em meio a uma grave crise energética agravada por restrições no fornecimento de petróleo venezuelano, após medidas adotadas pelos Estados Unidos sob o governo do presidente Donald Trump, que ampliaram a pressão econômica sobre a ilha. Vídeos verificados por agências internacionais mostram incêndios e pessoas arremessando pedras contra prédios estatais enquanto gritavam “liberdade”.
Protesto começa pacífico e termina em ataques a prédios públicos
De acordo com informações divulgadas pelo jornal estatal Invasor, a manifestação teve início na noite de sexta-feira (13/03/2026), quando moradores de Morón se reuniram para protestar contra interrupções frequentes no fornecimento de energia elétrica e dificuldades de acesso a alimentos básicos.
Segundo o relato oficial, após um período de diálogo entre manifestantes e autoridades locais, o protesto evoluiu para atos de vandalismo durante a madrugada. Um grupo menor de participantes passou a apedrejar a sede do Comitê Municipal do Partido Comunista e a incendiar móveis retirados da recepção do prédio.
Além da sede partidária, outros estabelecimentos estatais também foram alvo de ataques, incluindo uma farmácia pública e um mercado administrado pelo governo, o que levou forças de segurança a intervir para dispersar a manifestação.
Vídeos divulgados nas redes sociais, posteriormente analisados por jornalistas internacionais, mostram um grande incêndio nas proximidades do prédio do partido e manifestantes gritando palavras de ordem contra o governo. A agência Reuters confirmou a localização das imagens na cidade de Morón, situada a cerca de 400 quilômetros a leste de Havana, na costa norte da ilha, próximo ao polo turístico de Cayo Coco.
Crise energética se agrava com restrições ao petróleo venezuelano
Os protestos ocorrem em meio a uma deterioração significativa das condições econômicas em Cuba, marcada por escassez de combustível, alimentos, medicamentos e eletricidade.
Nos últimos meses, a situação energética tornou-se especialmente crítica após a interrupção de remessas de petróleo provenientes da Venezuela, tradicional aliado político e principal fornecedor de combustível para a ilha.
O governo dos Estados Unidos endureceu a política de pressão contra o regime cubano após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro de 2026. Como parte dessa estratégia, o governo norte-americano anunciou medidas para bloquear o envio de petróleo venezuelano a Cuba e ameaçou impor tarifas a países que comercializem combustível com o país caribenho.
A decisão intensificou as dificuldades logísticas e energéticas da ilha, que depende fortemente de importações para manter o funcionamento de sua infraestrutura elétrica e do transporte público.
Nas últimas semanas, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou em diversas ocasiões que Cuba estaria “à beira do colapso econômico” ou pressionada a negociar um acordo com Washington.
Apagões e escassez afetam serviços públicos e universidades
Os impactos da crise energética têm sido sentidos em diversos setores da sociedade cubana.
Autoridades educacionais anunciaram recentemente a suspensão temporária de aulas presenciais na Universidade de Havana, alegando que a escassez de combustível comprometeu o funcionamento do transporte público e dificultou o deslocamento de professores e estudantes.
A decisão provocou protestos estudantis nas escadarias da universidade, onde grupos de alunos se reuniram para criticar as dificuldades enfrentadas no cotidiano acadêmico e a deterioração das condições econômicas no país.
Além da educação, os apagões frequentes têm afetado hospitais, redes de abastecimento e atividades comerciais, ampliando a insatisfação popular.
Dissidência pública permanece rara em Cuba
Protestos públicos de grande escala são relativamente raros em Cuba, onde o sistema político é dominado pelo Partido Comunista desde a revolução liderada por Fidel Castro em 1959.
A Constituição cubana de 2019 reconhece formalmente o direito de manifestação. Entretanto, a legislação que deveria regulamentar esse direito ainda não foi plenamente implementada, o que cria um cenário jurídico incerto para cidadãos que participam de protestos.
Morón também foi palco de manifestações durante os protestos nacionais de 11 de julho de 2021, considerados os maiores episódios de contestação ao governo cubano desde a revolução.
Na ocasião, milhares de pessoas foram às ruas em diversas cidades da ilha para protestar contra a crise econômica e a escassez de bens essenciais.
Negociações com os Estados Unidos
Em meio à deterioração do cenário econômico, o governo cubano informou recentemente que iniciou conversações com autoridades norte-americanas com o objetivo de buscar alternativas para amenizar os efeitos da crise energética.
Autoridades em Havana argumentam que o agravamento da situação econômica está diretamente ligado ao embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, vigente desde a década de 1960 e reforçado em diferentes momentos por administrações norte-americanas.
Washington, por sua vez, sustenta que as restrições são parte de uma estratégia de pressão para promover mudanças políticas no regime cubano.
Cenários possíveis para a crise cubana
A evolução da crise em Cuba dependerá de fatores econômicos, energéticos e geopolíticos que se interligam no atual cenário internacional.
Entre os cenários mais discutidos por analistas estão:
- Negociação diplomática com os Estados Unidos, que poderia resultar em flexibilização parcial de sanções e reabertura de canais econômicos.
- Ampliação da cooperação com países aliados, como China ou Rússia, para suprir carências energéticas e financeiras.
- Persistência da crise econômica, com agravamento da escassez e aumento de protestos localizados.
- Reformas econômicas internas, com maior abertura ao setor privado e mudanças no modelo de gestão estatal.
Cada uma dessas alternativas depende de fatores políticos internos e da dinâmica das relações internacionais envolvendo a ilha.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.










Deixe um comentário