A trajetória do geógrafo e pesquisador Elias Jabbour se insere em um fenômeno curioso da intelectualidade brasileira contemporânea: o esforço de interpretar o ascenso chinês fora das lentes ideológicas tradicionais do Ocidente. Em vez de repetir categorias herdadas da Guerra Fria — modelo socialista versus economia de mercado — Jabbour tenta decifrar a China como um sistema histórico singular, moldado por planejamento estatal, experimentação institucional e pragmatismo político.
Seu novo livro, Socialismo no Poder: Governança, Classes, Ciência e Projetamento na China, escrito em parceria com o filósofo australiano Roland Boer, aprofunda essa linha de pensamento. A obra pretende explicar como um país que era majoritariamente rural e pobre até os anos 1970 se transformou, em poucas décadas, na segunda maior economia do mundo, com uma base industrial e tecnológica de escala global.
O autor: formação, carreira e inserção institucional
Elias Jabbour construiu sua carreira acadêmica como especialista em economia chinesa e geografia econômica. Ao longo das últimas duas décadas, consolidou-se como um dos principais intérpretes brasileiros do modelo de desenvolvimento da China, publicando artigos, livros e participando de debates públicos sobre industrialização, planejamento estatal e geopolítica.
Sua trajetória combina produção acadêmica e atuação institucional. Jabbour foi consultor da presidência do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), instituição financeira criada pelos países do BRICS e sediada em Xangai. Posteriormente, assumiu a presidência do Instituto Pereira Passos, órgão de planejamento urbano da cidade do Rio de Janeiro.
Esse trânsito entre universidade, instituições públicas e organismos internacionais ajuda a explicar o tom de suas análises: menos ideológico e mais orientado por questões de política econômica, planejamento e desenvolvimento nacional.
A tese central: o socialismo como forma histórica de poder
O novo livro parte de uma ideia fundamental: o socialismo chinês não pode ser compreendido como um modelo teórico abstrato, mas como uma forma histórica concreta, construída a partir da experiência política do Partido Comunista Chinês.
Para Jabbour e Boer, a China criou um sistema híbrido, no qual:
- O Estado mantém o controle estratégico dos setores-chave.
- O mercado funciona como mecanismo de eficiência e inovação.
- A política industrial orienta investimentos e prioridades tecnológicas.
- O planejamento de longo prazo substitui a lógica de curto prazo típica de economias financeiras.
Nesse arranjo, o socialismo não aparece como negação do mercado, mas como um sistema em que o mercado opera sob direção política e estratégica.
A tese, naturalmente, deve ser entendida como interpretação teórica. A própria experiência chinesa é objeto de intensos debates, inclusive dentro do campo acadêmico, e não existe consenso sobre o grau de socialismo ou capitalismo presente no sistema.
O conceito de “economia do projetamento”
Um dos conceitos centrais do pensamento de Jabbour é o de “economia do projetamento”. A ideia parte da observação de que a China organiza seu desenvolvimento por meio de grandes planos estratégicos, que combinam:
- metas industriais
- infraestrutura de larga escala
- avanços científicos
- reorganização urbana
- políticas sociais
Esse método teria permitido ao país realizar transformações de dimensão continental em prazos relativamente curtos.
Um dos exemplos citados é o processo de urbanização. Segundo dados frequentemente mencionados por Jabbour, cerca de 200 milhões de pessoas foram transferidas do campo para cidades em pouco mais de uma década, com acesso a infraestrutura básica e emprego formal.
Outro caso é o sistema ferroviário de alta velocidade, que se expandiu para dezenas de milhares de quilômetros desde 2009, conectando regiões inteiras e reduzindo custos logísticos.
Planejamento tecnológico e a “máquina de previsão”
O livro também enfatiza o papel das tecnologias digitais no planejamento econômico. Jabbour descreve a estrutura chinesa como uma espécie de “máquina de previsão”, capaz de antecipar gargalos e redirecionar investimentos.
Essa capacidade seria fruto da integração entre:
- big data
- inteligência artificial
- redes 5G
- computação avançada
- bancos públicos de investimento
- empresas estatais estratégicas
A ideia central é que o planejamento deixou de ser apenas burocrático e passou a ser tecnologicamente orientado, com base em dados massivos e simulações econômicas.
A comparação com o Brasil: dois caminhos divergentes
Parte importante da obra é dedicada à comparação entre Brasil e China. Jabbour sustenta que, nos anos 1980, os dois países tinham dimensões econômicas comparáveis, mas seguiram trajetórias distintas.
Segundo sua interpretação:
- O Brasil aderiu às políticas de liberalização econômica dos anos 1990.
- A China preservou um Estado forte, com controle sobre setores estratégicos.
O resultado teria sido o aprofundamento da industrialização chinesa e, no caso brasileiro, um processo de desindustrialização e dependência de exportações primárias.
Essa leitura, contudo, é alvo de debates. Há economistas que argumentam que o sucesso chinês também dependeu de abertura gradual ao mercado internacional, investimento estrangeiro e reformas pró-mercado iniciadas no fim dos anos 1970.
O livro no contexto do debate global
O trabalho de Jabbour insere-se em uma discussão mais ampla sobre o declínio relativo das potências ocidentais e a ascensão de novas economias emergentes.
O autor defende que o mundo vive uma transição para a multipolaridade, marcada por:
- disputas comerciais
- reindustrialização nacional
- tensões geopolíticas
- reorganização das cadeias produtivas
Nesse cenário, a China aparece como um dos polos estruturantes da nova ordem internacional, ao lado de outras economias emergentes.
Entre interpretação teórica e realidade empírica
O mérito principal da obra está em tentar formular uma teoria coerente para explicar a experiência chinesa, algo ainda raro na produção acadêmica brasileira. Jabbour propõe conceitos próprios e busca superar os modelos analíticos herdados do século XX.
Ao mesmo tempo, suas teses refletem uma visão claramente desenvolvimentista e estatal, o que naturalmente gera controvérsias. O debate sobre a natureza do sistema chinês — se socialista, capitalista ou híbrido — permanece aberto, tanto na academia quanto nos círculos políticos.
A própria China, com suas contradições internas, desigualdades regionais e tensões sociais, desafia interpretações simplificadas. O país é simultaneamente um Estado forte, uma economia de mercado, uma potência industrial e um sistema político centralizado — uma combinação que não cabe facilmente em categorias tradicionais.
Eis o ponto fascinante: a China parece funcionar como uma espécie de laboratório histórico, onde ideologia, pragmatismo e planejamento convivem num arranjo improvável. É como se Deng Xiaoping tivesse colocado o país dentro de um gigantesco experimento econômico e, em vez de explodir, a máquina começou a produzir arranha-céus, trens de alta velocidade e supercomputadores.
A história, como sempre, recusa simplificações. O sucesso chinês pode ser visto tanto como triunfo do planejamento estatal quanto como resultado de uma longa tradição civilizacional de administração imperial, disciplina social e pragmatismo político. Talvez o segredo esteja menos na ideologia e mais na persistência histórica — um país que, por milênios, pensou em termos de séculos, não de ciclos eleitorais.








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