Livro analisa efeitos da Indústria 4.0 e aponta aumento da precarização do trabalho sob domínio de algoritmos

Domingo, 01/03/2026 — A difusão da inteligência artificial, das plataformas digitais e dos sistemas automatizados de produção está no centro do debate contemporâneo sobre trabalho e desenvolvimento. O livro “Capitalismo e Indústria 4.0: consequências para a classe trabalhadora”, organizado por Paula Vidal, Edvânia Ângela de Souza e Maria Liduína de Oliveira e Silva, reúne pesquisas de autores da América Latina e da Europa para examinar os impactos sociais e econômicos da chamada revolução digital. A obra sustenta que as tecnologias associadas à Indústria 4.0 não são neutras e têm sido utilizadas como instrumentos de intensificação da exploração e de ampliação das desigualdades no capitalismo contemporâneo.

O volume parte de análises acadêmicas e pesquisas empíricas para questionar o discurso predominante de que a digitalização representaria, por si só, progresso social e melhoria das condições de trabalho. Segundo os organizadores e colaboradores, o avanço tecnológico tem sido incorporado às estratégias de acumulação de capital, resultando em novas formas de controle, precarização e ampliação das jornadas laborais.

Digitalização e transformação das relações de trabalho

A obra examina como a automação, a inteligência artificial e as plataformas digitais remodelam as relações produtivas. Os autores argumentam que, sob o modelo atual, as inovações tecnológicas têm contribuído para reduzir direitos, fragmentar vínculos trabalhistas e ampliar formas de trabalho informal ou intermitente.

Entre os fenômenos analisados, destacam-se:

  • Uberização do trabalho, com expansão de atividades mediadas por aplicativos;
  • Financeirização da economia digital, que subordina plataformas às lógicas do mercado financeiro;
  • Colonialismo digital, caracterizado pela concentração de dados e tecnologias em grandes empresas globais;
  • Racismo algorítmico, associado a sistemas automatizados que reproduzem desigualdades sociais existentes.

Os estudos apontam que essas transformações intensificam a captura do tempo e dos dados dos trabalhadores, convertendo tecnologia em mecanismo de monitoramento e controle, especialmente em países da periferia do sistema econômico.

Contribuições internacionais e enfoque latino-americano

O livro reúne textos de pesquisadores como Ursula Huws, Ricardo Antunes, Adrián Sotelo Valencia e Dasten Julián-Vejar, que analisam o impacto das plataformas digitais e dos algoritmos no mundo do trabalho.

A perspectiva adotada está ancorada na tradição crítica do pensamento social latino-americano e em interpretações inspiradas no marxismo, que enfatizam as contradições do capitalismo digital. Nesse contexto, a obra examina:

  • O papel das contrarreformas trabalhistas na flexibilização de direitos;
  • A atuação do Estado na regulação das plataformas;
  • A transformação das políticas públicas diante das novas formas de trabalho.

Os autores sustentam que a revolução digital redefine não apenas a produção, mas também os sistemas de proteção social e as formas de organização coletiva.

Serviço Social e políticas públicas no centro do debate

Além da análise estrutural das transformações tecnológicas, o livro dialoga com o campo do Serviço Social, situando a profissão no contexto das mudanças econômicas e sociais. Os textos destacam o impacto das novas formas de trabalho sobre políticas públicas, sistemas de proteção e condições de vida das populações mais vulneráveis.

A obra propõe que o debate sobre tecnologia deve considerar não apenas a eficiência produtiva, mas também os efeitos sociais, políticos e institucionais da digitalização, recolocando o trabalho no centro das discussões sobre desenvolvimento e democracia.

Perfil das organizadoras

As organizadoras da obra possuem trajetória acadêmica vinculada ao Serviço Social e às políticas públicas:

Edvânia Ângela de Souza é professora associada da Unesp-Franca e atua em programas de pós-graduação em Serviço Social, com pesquisas sobre mundo do trabalho e saúde do trabalhador.

Maria Liduína de Oliveira e Silva é docente da Unifesp-Baixada Santista e pró-reitora adjunta de graduação da instituição, com atuação em estudos sobre infância, família e políticas sociais.

Paula Vidal Molina é doutora em Serviço Social pela UFRJ e professora associada da Universidade do Chile, com pesquisas sobre trabalho, políticas sociais e história do marxismo no país.

A Cortez Editora mantém catálogo voltado a áreas como educação, ciências sociais, psicologia e literatura, com forte presença em obras acadêmicas e didáticas.


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