O navegador e engenheiro Aleixo Belov, de 83 anos, retornou a Salvador após concluir sua sexta volta ao mundo a bordo do veleiro-escola Fraternidade, encerrando uma expedição marcada pela travessia da Passagem Nordeste, na Sibéria, considerada uma das rotas marítimas mais difíceis e perigosas do planeta. A embarcação atracou por volta das 10h, deste sábado (28/02/2026 ), no 2º Distrito Naval da Marinha do Brasil, no bairro do Comércio, onde cerca de 300 pessoas — entre autoridades, familiares, amigos e admiradores — acompanharam a chegada do navegador em uma recepção marcada por aplausos e emoção.
A viagem consolidou mais um capítulo da longa trajetória marítima de Belov, conhecido por suas múltiplas circunavegações e por projetos voltados à formação de jovens navegadores brasileiros. A expedição incluiu a travessia da Passagem Nordeste (Northern Sea Route), corredor marítimo ao longo da costa ártica da Rússia que liga os oceanos Atlântico e Pacífico e que apresenta condições extremas de navegação devido ao gelo intenso, temperaturas severas e mudanças rápidas no clima.
Travessia da Passagem Nordeste marca momento histórico da expedição
A passagem pela rota ártica da Sibéria representa um dos trechos mais desafiadores da navegação mundial. Historicamente coberta por gelo durante grande parte do ano, a Passagem Nordeste exige planejamento rigoroso, embarcações preparadas e experiência náutica avançada.
Ao concluir a travessia aos 83 anos, Belov tornou-se um dos navegadores mais longevos a completar esse percurso em expedição de circum-navegação. Durante a chegada a Salvador, o marinheiro destacou o significado pessoal da jornada.
“Tenho uma paixão profunda pela Bahia e pelo seu mar. Comecei como nadador, mas sempre quis ir além. Conseguimos vencer mais este desafio. Agora pretendo deixar o mar para a juventude”, afirmou o navegador.
Segundo Belov, o encerramento da viagem também abre espaço para novos projetos culturais e editoriais. O navegador declarou que pretende escrever seu último livro e produzir um novo filme, registrando experiências acumuladas ao longo de décadas de navegação.
Recepção em Salvador reúne autoridades, familiares e admiradores
A chegada do Fraternidade ao porto de Salvador mobilizou mais de 300 pessoas, entre representantes da Marinha, amigos próximos e admiradores da trajetória do navegador.
Entre os presentes estava o engenheiro Thelmo Gavazza, de 80 anos, amigo de Belov há cerca de quatro décadas. Ele acompanhou diversas expedições do navegador e destacou a dimensão humana das viagens.
Segundo Gavazza, cada retorno é marcado por sentimentos semelhantes aos das primeiras expedições realizadas nos anos 1970.
“Nossa amizade começou naquela época. Sempre conversávamos sobre o medo e a experiência da navegação. A cada viagem existe o mesmo sentimento: um novo desafio e a ansiedade pelo retorno do amigo”, afirmou.
A recepção simbolizou não apenas o fim de uma viagem, mas também o reconhecimento público de uma trajetória que mistura aventura marítima, educação e difusão da cultura náutica.
Da imigração à engenharia e à navegação oceânica
Durante a recepção em Salvador, Belov relembrou sua chegada ao Brasil ainda criança, como imigrante de guerra, e destacou o papel decisivo que o país teve em sua formação pessoal e profissional.
Segundo ele, o acolhimento recebido no Brasil permitiu que construísse uma carreira tanto na engenharia quanto na navegação oceânica.
“Se você quiser conhecer o mundo, precisa enfrentar outros mares. Comecei navegando aqui e terminei visitando todos os mares do planeta”, declarou.
Belov também ressaltou que toda sua formação acadêmica foi realizada em instituições públicas, incluindo a Universidade Federal da Bahia (UFBA), o que, segundo ele, moldou sua visão de responsabilidade social.
Projetos educacionais e formação de jovens marinheiros
A relação entre educação e navegação tornou-se um eixo central da atuação do navegador ao longo das últimas décadas.
Belov criou iniciativas voltadas à preservação da cultura marítima e à formação de novos navegadores, entre elas:
- Fundação Aleixo Belov
- Museu do Mar Aleixo Belov, em Salvador
- Transformação do veleiro Fraternidade em embarcação-escola
De acordo com o navegador, mais de 70 jovens participaram de expedições marítimas a bordo do Fraternidade, sem custos para os participantes.
“Nenhum aluno pagou um centavo para dar a volta ao mundo. Foi um presente para a juventude brasileira”, afirmou.
Essas iniciativas buscam estimular o interesse pela navegação oceânica e ampliar o acesso de jovens brasileiros à formação marítima.
Bahia como ponto de partida e retorno da trajetória marítima
Ao final da recepção, Belov destacou a ligação afetiva com a Bahia, estado onde construiu sua carreira profissional e iniciou suas primeiras experiências no mar.
Segundo o navegador, Salvador representa não apenas um porto de chegada, mas também o ponto de partida de sua trajetória.
“Eu não nasci aqui, mas foi aqui que cresci, me tornei engenheiro e marinheiro. A energia da Bahia não existe em lugar nenhum”, declarou.
Para admiradores e estudiosos da navegação brasileira, a chegada do Fraternidade representa um momento simbólico na história da exploração marítima nacional, associando a tradição das grandes viagens oceânicas à formação de novas gerações.
A travessia que conecta tradição marítima e educação
A conclusão da sexta circunavegação de Aleixo Belov reforça a presença brasileira em um campo historicamente dominado por navegadores europeus e norte-americanos: a exploração marítima de longa distância e a navegação em rotas polares. A travessia da Passagem Nordeste, em particular, possui relevância técnica e histórica, pois envolve uma rota tradicionalmente associada a expedições científicas e militares.
O feito também revela a singularidade da trajetória de Belov, que combina engenharia, navegação oceânica e formação educacional. Ao transformar o veleiro Fraternidade em embarcação-escola e criar instituições voltadas à cultura marítima, o navegador desloca o foco da aventura individual para a transmissão de conhecimento náutico às novas gerações.
Por fim, a recepção em Salvador evidencia o valor simbólico dessas expedições para a identidade marítima brasileira. Em um país historicamente voltado para o interior continental, iniciativas como as de Belov ajudam a reafirmar a importância estratégica e cultural do mar como espaço de formação, ciência e exploração.








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