Quem é Alireza Arafi: trajetória do clérigo que assumiu liderança interina do Irã após morte de Ali Khamenei

Teerã — Domingo, 1º de março de 2026. A morte do líder supremo Ali Khamenei, após ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel, colocou o Irã diante de uma das transições políticas mais delicadas desde a Revolução Islâmica de 1979. Para administrar o período de transição, foi instituído um conselho provisório de liderança — e, no centro dessa estrutura, encontra-se o aiatolá Alireza Arafi.

Religioso de carreira longa e profundamente integrado às instituições clericais do regime, Arafi tornou-se o representante religioso do órgão que governa provisoriamente o país ao lado do presidente Masoud Pezeshkian e do chefe do Judiciário Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i.

Sua trajetória reflete a formação clássica da elite teocrática que dirige a República Islâmica: formação religiosa rigorosa, ascensão institucional gradual e proximidade direta com o líder supremo.

Origens e formação religiosa

Alireza Arafi nasceu em 1959, na cidade de Meybod, localizada na província central de Yazd, no Irã. Ele cresceu em uma família religiosa, ambiente que influenciou decisivamente sua formação intelectual e espiritual.

Ainda jovem, seguiu para Qom, considerado o principal centro de estudos teológicos do islamismo xiita. Ali ingressou nos tradicionais seminários islâmicos, conhecidos como hawzas, onde recebeu formação intensiva em jurisprudência islâmica, filosofia e teologia.

Ao longo dos anos de estudo, Arafi obteve o título de mujtahid, uma qualificação elevada dentro da hierarquia clerical xiita. Esse título concede autoridade para interpretar a lei islâmica — um requisito fundamental para exercer posições religiosas de liderança.

Durante sua formação, estudou com alguns dos principais teólogos do Irã, consolidando uma base intelectual alinhada à tradição da revolução islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.

Ascensão após a consolidação do regime revolucionário

A carreira pública de Arafi ganhou impulso após 1989, ano em que Ali Khamenei assumiu o cargo de líder supremo do Irã. Desde então, o religioso passou a ocupar cargos cada vez mais relevantes na estrutura institucional da República Islâmica.

Um dos primeiros sinais de prestígio ocorreu em 1992, quando, aos 33 anos, foi nomeado líder das orações de sexta-feira em sua cidade natal, Meybod — uma função que, no sistema político iraniano, possui relevância tanto religiosa quanto política.

Ao longo das décadas seguintes, ele acumulou uma série de funções estratégicas:

  • Imã da oração de sexta-feira da cidade de Qom
  • Chefe do sistema nacional de seminários islâmicos do Irã
  • Membro do Conselho dos Guardiões, órgão que revisa leis e controla candidaturas eleitorais
  • Membro da Assembleia de Peritos, responsável por escolher o líder supremo

Esse percurso consolidou Arafi como uma figura profundamente integrada ao aparato institucional do regime.

Influência educacional e expansão da ideologia xiita

Entre 2008 e 2018, Arafi presidiu a Universidade Internacional Al-Mustafa, instituição criada para formar religiosos xiitas estrangeiros e expandir a influência ideológica da República Islâmica no mundo.

O projeto tem forte dimensão geopolítica: estudantes de dezenas de países frequentam a universidade, onde recebem formação religiosa alinhada à visão política do regime iraniano.

Segundo declarações do próprio Arafi, a rede de instituições vinculadas à universidade teria formado dezenas de milhares de estudantes estrangeiros ao longo dos anos. Embora algumas estimativas divulgadas pelo religioso sejam consideradas exageradas por analistas, o projeto representa um dos principais instrumentos de soft power do Irã no campo religioso.

Integração ao núcleo do poder clerical

Nos anos recentes, Arafi foi incorporado ao Conselho dos Guardiões, um dos órgãos mais influentes do sistema político iraniano.

Esse conselho possui duas funções centrais:

  • revisar todas as leis aprovadas pelo Parlamento
  • aprovar ou rejeitar candidaturas em eleições nacionais

Em regimes democráticos, essas funções seriam distribuídas entre tribunais constitucionais e autoridades eleitorais independentes. No Irã, porém, estão concentradas em um órgão dominado por clérigos e juristas ligados ao líder supremo.

Além disso, Arafi tornou-se vice-presidente da Assembleia de Peritos, o corpo clerical responsável por escolher e supervisionar o líder supremo — o posto mais poderoso do país.

O conselho de liderança após a morte de Khamenei

Após a morte de Ali Khamenei, o Irã acionou um mecanismo previsto em sua Constituição: a formação de um conselho provisório de liderança.

O órgão reúne três autoridades:

  • Alireza Arafi, representante religioso
  • Masoud Pezeshkian, presidente da República
  • Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i, chefe do Judiciário

Entre os três, Arafi é o único clérigo de alto escalão, o que lhe confere papel central dentro da lógica teocrática do sistema político iraniano.

Esse conselho deverá governar o país até que a Assembleia de Peritos escolha o novo líder supremo.

Ideologia e visão de mundo

Arafi representa a corrente tradicional do pensamento clerical iraniano. Em seus discursos públicos, costuma sustentar que o islamismo xiita oferece uma alternativa civilizacional ao modelo político e cultural do Ocidente.

Entre os temas recorrentes de suas intervenções estão:

  • críticas ao secularismo e ao liberalismo
  • defesa da centralidade da religião na política
  • valorização da autoridade clerical na organização da sociedade

Ao mesmo tempo, ele se apresenta como defensor do uso de tecnologia e inteligência artificial para ampliar a difusão das instituições religiosas e da mensagem ideológica da República Islâmica.

Essa combinação de conservadorismo doutrinário e pragmatismo tecnológico reflete a estratégia adotada pelo regime iraniano nas últimas décadas.

Um administrador do sistema, não necessariamente um sucessor

Apesar da influência institucional, analistas observam que Arafi não possui uma base política independente fora das estruturas clericais.

Em termos práticos, ele representa mais um gestor do aparato religioso do Estado do que um líder político com forte base popular ou militar.

Essa característica pode ser decisiva no processo de sucessão: sua presença no conselho de liderança garante estabilidade institucional durante a transição, mas não necessariamente o coloca como favorito para ocupar permanentemente o posto de líder supremo.

A sucessão que definirá o futuro do Irã

A escolha do próximo líder supremo caberá à Assembleia de Peritos, composta por clérigos eleitos e profundamente influenciados pelo establishment religioso.

O cargo concentra poderes extraordinários:

  • comando das Forças Armadas
  • controle sobre a Guarda Revolucionária
  • influência sobre o Judiciário
  • autoridade religiosa máxima do país

A decisão determinará a direção estratégica do Irã em um momento de grande tensão regional e internacional.

No centro dessa transição está Alireza Arafi — um clérigo moldado pelo próprio sistema que agora se encarrega de preservar.

*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI e Sputnik.


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