Unesco alerta para lacuna científica sobre absorção de carbono pelos oceanos e risco para políticas climáticas globais

Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) apontou nesta quinta-feira (26/02/2026) que ainda existe uma significativa lacuna científica sobre o funcionamento do principal sumidouro de carbono do planeta: os oceanos. O documento indica que as incertezas sobre a capacidade dos mares de absorver e armazenar dióxido de carbono (CO₂) podem comprometer projeções climáticas e dificultar a formulação de políticas eficazes de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Produzido pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI), o relatório destaca que discrepâncias entre modelos científicos variam entre 10% e 20% nas estimativas globais de absorção de carbono pelos oceanos, podendo ser ainda maiores em determinadas regiões do planeta. Essa diferença evidencia lacunas relevantes na base de dados disponível e na compreensão dos processos biológicos e físicos que regulam o ciclo de carbono marinho.

O estudo ressalta que os oceanos desempenham papel central no equilíbrio climático global, ao absorver uma parcela significativa das emissões de carbono geradas pelas atividades humanas. Entretanto, ainda não está claro como esse mecanismo natural funciona em detalhe nem por quanto tempo ele poderá continuar desempenhando essa função estabilizadora diante do avanço do aquecimento global.

Oceano é um dos principais reguladores do clima global

Segundo o relatório, os oceanos atualmente absorvem cerca de 25% das emissões globais de CO₂, funcionando como um dos principais amortecedores naturais do aquecimento global. Esse processo ocorre por meio de mecanismos físicos e biológicos que permitem ao carbono dissolver-se na água e ser posteriormente armazenado em profundidades oceânicas.

Apesar desse papel central, cientistas apontam que o entendimento sobre esses mecanismos permanece incompleto. A ausência de séries históricas de dados mais extensas e a limitada cobertura de monitoramento oceânico dificultam a elaboração de modelos climáticos mais precisos.

Essa limitação de conhecimento torna-se particularmente relevante em um momento em que governos de diversos países utilizam projeções científicas para planejar políticas climáticas de longo prazo, incluindo metas de redução de emissões e estratégias de adaptação.

Divergências científicas podem alterar projeções climáticas

Os pesquisadores envolvidos no relatório identificaram diferenças substanciais nas estimativas de absorção de carbono entre os modelos científicos atualmente utilizados.

Entre os fatores que explicam essas divergências estão:

  • Escassez de dados de longo prazo sobre o ciclo de carbono oceânico
  • Mudanças na circulação e na temperatura dos oceanos
  • Alterações na composição do plâncton e da vida microbiana marinha
  • Dinâmica de troca de carbono entre atmosfera e regiões costeiras ou polares

Esses elementos influenciam diretamente a capacidade do oceano de capturar e armazenar carbono ao longo do tempo.

Além disso, regiões específicas — especialmente áreas polares e zonas costeiras — apresentam maior grau de incerteza científica, devido à complexidade de seus ecossistemas e à falta de monitoramento contínuo.

Impactos potenciais das mudanças climáticas e da atividade humana

O relatório também aponta que mudanças no aquecimento global podem alterar a dinâmica de absorção de carbono pelos oceanos, criando um ciclo potencialmente agravante para o clima do planeta.

Caso a capacidade natural de absorção diminua no futuro, uma quantidade maior de CO₂ permanecerá na atmosfera, intensificando o efeito estufa e acelerando o aquecimento global.

Outro fator destacado pelos pesquisadores é o impacto de atividades industriais e propostas de engenharia climática, que podem interferir na dinâmica natural dos oceanos.

Entre os exemplos analisados estão intervenções que buscam artificialmente aumentar a captura de carbono marinho, mas cujos efeitos ambientais ainda são amplamente debatidos na comunidade científica.

Cooperação internacional e monitoramento científico

Diante dessas incertezas, a Unesco propõe o fortalecimento da cooperação científica internacional para ampliar o monitoramento do carbono oceânico e aprimorar os modelos climáticos globais.

O diretor-geral da organização, Khaled El-Enany, afirmou que existem “grandes pontos cegos na compreensão científica desse processo, com variações significativas que podem influenciar a forma como governos planejam políticas climáticas”.

O relatório recomenda que os países ampliem redes de observação oceânica e integrem bases de dados globais para melhorar a precisão das previsões climáticas.

O documento também apresenta um roteiro estratégico voltado a:

  • ampliar a coleta de dados oceânicos em escala global
  • integrar diferentes modelos científicos climáticos
  • fortalecer programas internacionais de pesquisa marinha
  • apoiar políticas públicas baseadas em evidências científicas

Relatório reúne especialistas de 23 países

O Relatório Integrado de Pesquisa em Carbono Oceânico foi elaborado por 72 pesquisadores de 23 países, reunindo dados e análises científicas sobre o funcionamento do ciclo de carbono nos mares.

Segundo a Unesco, trata-se da síntese científica mais abrangente já produzida sobre as incertezas associadas ao sumidouro de carbono oceânico, consolidando estudos recentes sobre oceanografia, climatologia e biologia marinha.

O documento busca orientar políticas públicas, estimular cooperação internacional e ampliar o conhecimento científico necessário para enfrentar os desafios climáticos das próximas décadas.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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