Na quinta-feira (16/04/2026), o Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC) divulgou o estudo “Visão 360º do mercado farmacêutico no Brasil”, que aponta uma transformação estrutural no setor, impulsionada pela digitalização, pelo uso crescente de inteligência artificial e pela mudança no comportamento de médicos, varejistas e consumidores. A análise reúne percepções de diversos agentes da cadeia — incluindo médicos, representantes, executivos da indústria, distribuidores e consumidores digitais — e indica um cenário de transição acelerada, com impactos diretos na competitividade, nas margens e na forma de relacionamento com o cliente.
O estudo destaca que o Brasil permanece entre os maiores mercados farmacêuticos do mundo, com trajetória de expansão sustentada por fatores demográficos e epidemiológicos. O envelhecimento da população, que deve alcançar cerca de 25% de pessoas acima de 60 anos até 2034, amplia a demanda por medicamentos voltados a doenças crônicas e pressiona a cadeia por maior eficiência operacional.
Esse contexto reforça a necessidade de adaptação estrutural, especialmente diante da crescente exigência por soluções integradas, redução de custos e maior capacidade logística. A digitalização surge, nesse cenário, como elemento central para garantir competitividade e escala.
Transformação nas relações com médicos e representantes
Redução das visitas presenciais
Entre os médicos, o estudo revela uma mudança significativa no padrão de interação com a indústria. Profissionais mais experientes ainda valorizam a presença de representantes, sobretudo quando associada à credibilidade da indústria. Já os médicos recém-formados demonstram preferência por plataformas digitais e soluções baseadas em inteligência artificial.
O tempo médio dedicado a visitas de propagandistas gira em torno de 10 minutos, indicando redução de relevância desse modelo tradicional. Há consenso de que as visitas presenciais tendem a diminuir de forma contínua, sobretudo entre as novas gerações.
Novo perfil do representante comercial
A função do representante também passa por reconfiguração. O estudo aponta a transição de um perfil centrado na promoção de produtos para um modelo de consultor estratégico, com foco em soluções integradas e relacionamento qualificado.
Interações presenciais devem se restringir a situações específicas, como lançamentos de produtos ou negociações mais complexas. Ferramentas digitais e inteligência artificial passam a ocupar papel dominante nas estratégias comerciais.
Pressões sobre a indústria e reconfiguração de portfólio
Executivos da indústria farmacêutica apontam compressão de margens como um dos principais desafios, impulsionada pela chamada “cultura do menor preço” e pelo crescimento dos medicamentos genéricos em volume, acompanhado de queda nos preços.
Diante desse cenário, observa-se uma reorientação estratégica:
- Ampliação de investimentos em segmentos de maior valor agregado, como oncologia, biológicos e mercado hospitalar
- Fortalecimento de parcerias com redes organizadas, como associações de farmácias
- Intensificação do uso de tecnologia para eficiência operacional e relacionamento com stakeholders
A digitalização, nesse contexto, deixa de ser diferencial e passa a ser condição essencial para permanência no mercado.
Distribuição e tendência de concentração
O segmento de distribuição apresenta sinais claros de consolidação. Embora ainda responda por cerca de 60% das vendas do setor, enfrenta desafios relacionados a margens reduzidas, elevada competição e complexidade tributária.
A reforma tributária, segundo o estudo, tende a favorecer grandes grupos e pressionar distribuidores regionais, acelerando o processo de concentração. Investimentos em tecnologia e inteligência artificial tornam-se indispensáveis para sobrevivência e ganho de escala.
Varejo farmacêutico: crescimento com fragilidades estruturais
O levantamento junto aos proprietários de farmácias revela um cenário heterogêneo:
- 54% registraram lucro estável ou crescimento
- 46% apontaram queda na rentabilidade
Entre os principais desafios estão:
- Concorrência acirrada
- Custos operacionais elevados
- Pressão sobre margens
- Dificuldades de fluxo de caixa
Um dado relevante é a ausência de planejamento estratégico em grande parte dos estabelecimentos, o que limita o crescimento sustentável. Entre os que adotam planejamento, destacam-se prioridades como:
- Melhor gestão de compras
- Redução de despesas
- Expansão de delivery e serviços
A digitalização é consenso: 93% pretendem ampliar o uso de canais digitais para compras e gestão.
Consumidor digital redefine o varejo
O comportamento do consumidor digital emerge como um dos vetores mais relevantes de transformação. O estudo aponta que 76% das compras online são realizadas via WhatsApp, e não por aplicativos.
As principais razões incluem:
- Facilidade de uso
- Rapidez no atendimento
- Interação direta com atendentes
Aplicativos tradicionais enfrentam críticas relacionadas à lentidão, dificuldade de navegação e necessidade de instalação. Problemas logísticos, como atrasos e inconsistência de estoque, também impactam negativamente a experiência.
O consumidor valoriza, sobretudo:
- Agilidade
- Atendimento personalizado
- Transparência na entrega
- Simplicidade na jornada de compra
Esse comportamento reforça a necessidade de soluções digitais mais integradas e centradas no usuário.
Conclusões do estudo
O estudo do IFEPEC identifica um setor em transformação profunda, orientado por três eixos principais:
- Digitalização e inteligência artificial
- Mudança no comportamento do consumidor
- Pressão competitiva e redução de margens
Para manter relevância, os agentes do mercado precisarão investir em:
- Inovação tecnológica e IA
- Parcerias estratégicas
- Diversificação de portfólio
- Eficiência operacional e logística
- Experiência digital simplificada
A capacidade de adaptação e integração digital será determinante para o posicionamento competitivo nos próximos anos.








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