Filme “Malês” leva ao Festival de Paris a revolta de 1835 e debate sobre escravidão, racismo e memória histórica no Brasil

O filme “Malês”, dirigido por Antônio Pitanga, foi exibido no 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris para uma sala lotada, em apresentação que marcou a estreia da produção na França. A obra revisita o levante dos malês de 1835, em Salvador, considerado o maior movimento de revolta de pessoas escravizadas no século 19 no Brasil.

A exibição reuniu cerca de 400 pessoas e integrou o circuito internacional de divulgação do longa, que aborda a organização de africanos muçulmanos escravizados na Bahia e os desdobramentos da insurreição.

Levante dos malês e reconstrução histórica no cinema

O filme retrata o levante dos malês, ocorrido em 1835, em Salvador, protagonizado por africanos muçulmanos, em sua maioria letrados e falantes de árabe, trazidos de regiões como o norte e o oeste da África e escravizados no Brasil.

Segundo a narrativa apresentada na obra, o movimento teve origem em articulações entre diferentes grupos que compartilhavam práticas religiosas, alfabetização em árabe e redes de comunicação internas.

A repressão ao levante e a destruição de espaços de encontro são retratadas como elementos que antecederam a insurreição armada.

Produção, pesquisa e base histórica do filme

A concepção do filme, segundo o diretor, foi influenciada pela leitura da obra “Rebelião escrava no Brasil”, do historiador João José Reis, que trata do contexto social e político da revolta.

O longa também incorpora elementos da história da Bahia no século 19, destacando o papel de comunidades africanas na formação de redes de resistência.

A produção foi estruturada ao longo de quase três décadas, segundo o diretor, em meio a dificuldades de financiamento e ausência de políticas públicas contínuas para o setor audiovisual.

Apagamento histórico e debate sobre educação

O filme aborda o tema do apagamento da história da escravidão no Brasil, com destaque para a ausência do levante dos malês em conteúdos escolares e universitários.

O diretor afirma que o episódio é tratado como parte marginal da formação histórica nacional, apesar de sua relevância no contexto da escravidão no país.

A obra busca inserir o levante no debate sobre a construção da memória histórica brasileira e sua presença no ensino formal.

Representação da escravidão e colonialismo

A narrativa também discute o processo de escravidão e colonização na África e no Brasil, com foco na fragmentação territorial e cultural provocada pelo colonialismo europeu.

O filme relaciona a formação de fronteiras africanas à reorganização política e cultural do continente no período colonial.

A produção apresenta personagens de diferentes origens africanas, incluindo regiões como Daomé, Benin, Togo, Senegal e povos haúça, além de referências ao candomblé e ao islamismo.

Circulação internacional e debate acadêmico

“Malês” já foi exibido em universidades e eventos internacionais, incluindo instituições nos Estados Unidos como Princeton, Universidade da Pensilvânia e Harvard.

O filme também integrou mostras dedicadas à diáspora africana, com debates sobre revoltas escravas nas Américas e comparações com outros movimentos históricos.

A circulação internacional da obra tem ampliado discussões sobre a presença africana na formação histórica do continente americano.

Narrativa, personagens e construção cinematográfica

O roteiro de “Malês”, desenvolvido em parceria com a roteirista Manuela Dias, estrutura personagens baseados em diferentes tradições religiosas e culturais.

A trama inclui lideranças religiosas islâmicas e figuras ligadas ao candomblé, representadas em articulações políticas e sociais no contexto da escravidão.

O filme também destaca a participação de personagens femininas em processos de organização e resistência.

Debate sobre violência, racismo e presente histórico

A obra conecta o período histórico retratado a discussões sobre violência estrutural e racismo no Brasil contemporâneo.

O filme aborda permanências sociais relacionadas à desigualdade racial e ao tratamento da população negra em diferentes contextos históricos.

A narrativa também discute a relação entre memória, violência institucional e formação social brasileira.

Produção familiar e transmissão de memória

O elenco inclui familiares do diretor, como os atores Camila e Rocco Pitanga, que participam da construção da narrativa cinematográfica.

A obra utiliza a ideia de transmissão oral de memória como elemento central da narrativa, com referências à cultura afro-brasileira e à formação identitária.

O filme articula experiências pessoais do diretor com a história coletiva retratada na produção.

Exibição em Paris e repercussão internacional

A apresentação no Festival de Cinema Brasileiro de Paris integrou a programação de exibições voltadas ao cinema nacional contemporâneo.

O evento reuniu público e profissionais do setor audiovisual em uma sessão dedicada à obra.

A circulação internacional do filme reforça o interesse por narrativas históricas relacionadas à escravidão e à diáspora africana.

*Com informações da RFI.


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