Censo 2022 aponta 16,4 milhões de moradores em favelas no Brasil; Bahia reúne 1,37 milhão e Salvador lidera concentração no estado

Nesta quinta-feira (21/05/2026), dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Brasil tinha 16.390.790 pessoas vivendo em Favelas e Comunidades Urbanas, o equivalente a 8,1% da população nacional. O levantamento identificou 12.348 territórios dessa natureza no país, número superior aos 6.329 registrados em 2010, quando 11.425.644 pessoas viviam nessas áreas. Na Bahia, o recorte estadual ganha relevância por reunir 1.370.262 moradores em favelas e comunidades urbanas, com forte concentração em Salvador e presença expressiva também em Feira de Santana.

Brasil tinha 12.348 favelas e comunidades urbanas em 2022

O Censo 2022 identificou um crescimento expressivo no número de Favelas e Comunidades Urbanas no Brasil. Em 2010, o IBGE havia registrado 6.329 áreas desse tipo; em 2022, o total chegou a 12.348. O instituto, no entanto, ressalta que a comparação deve ser feita com cautela, porque a ampliação do mapeamento também decorre de avanços metodológicos, uso de imagens de satélite, dados georreferenciados e maior conhecimento territorial.

A Rocinha, no Rio de Janeiro, era a favela mais populosa do país, com 72.021 moradores, seguida por Sol Nascente, em Brasília, com 70.908 habitantes; Paraisópolis, em São Paulo, com 58.527 pessoas; e Cidade de Deus/Alfredo Nascimento, em Manaus, com 55.821 moradores. Entre as 20 favelas mais populosas do país, oito estavam na Região Norte, sete no Sudeste, quatro no Nordeste e uma no Centro-Oeste.

As unidades da Federação com maiores proporções de moradores em favelas e comunidades urbanas eram Amazonas, com 34,7% da população; Amapá, com 24,4%; e Pará, com 18,8%. O dado reforça que o fenômeno não se restringe às metrópoles do Sudeste, mas acompanha processos históricos de urbanização acelerada, expansão periférica e déficit de infraestrutura em diferentes regiões do país.

Bahia reúne 1,37 milhão de moradores em favelas e comunidades urbanas

Na Bahia, os dados indicam 1.370.262 pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas, o que corresponde a 9,7% da população estadual. O número coloca o estado em posição de destaque no cenário nacional, tanto pelo contingente absoluto quanto pelo peso urbano da capital e de grandes municípios do interior.

O levantamento mostra que a Bahia ficou entre os estados com maior número absoluto de moradores em favelas, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Pará. Em termos proporcionais, o estado aparece com índice superior à média nacional de 8,1%, o que evidencia a dimensão social e territorial do tema para o planejamento urbano, habitacional e sanitário baiano.

Destaques da Bahia

Os principais dados da Bahia são:

  • 1.370.262 moradores em favelas e comunidades urbanas;
  • 9,7% da população estadual residente nesses territórios;
  • 98,1% dos domicílios em favelas com acesso à rede geral de água;
  • 89,3% dos domicílios em favelas com esgotamento sanitário adequado, um dos maiores percentuais do país;
  • presença concentrada em grandes centros urbanos, especialmente Salvador, Região Metropolitana e municípios de porte regional.

Salvador concentra quase metade das favelas baianas

Salvador é o principal polo urbano das favelas e comunidades urbanas na Bahia. Segundo recorte publicado pelo Jornal Grande Bahia com base no Censo 2022, a capital concentrava 262 favelas, o equivalente a 45,8% das áreas identificadas no estado. A cidade reunia aproximadamente 1.033.258 moradores nessas comunidades, o que representava 42,7% da população soteropolitana.

Esse dado projeta Salvador como uma das capitais brasileiras com maior proporção de habitantes vivendo em favelas e comunidades urbanas. As maiores concentrações estavam em áreas como Beiru/Tancredo Neves, com 38.871 moradores, e Pernambués, com 35.110 habitantes.

A concentração em Salvador revela uma contradição estrutural das grandes capitais brasileiras: a cidade reúne equipamentos públicos, serviços, empregos e infraestrutura, mas também expressa desigualdades históricas de ocupação do solo, habitação, mobilidade e acesso pleno à cidade formal.

Feira de Santana aparece entre os municípios baianos com maior presença de favelas

Feira de Santana, segundo maior município da Bahia e principal entroncamento urbano do interior do estado, também aparece no levantamento com peso relevante. O Censo registrou 49 favelas e comunidades urbanas no município, atrás de Salvador, que lidera o ranking estadual em número de áreas identificadas.

Em população residente nesses territórios, Feira de Santana contabilizava 44.699 pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas, ficando atrás de Salvador, Ilhéus e Camaçari entre os maiores contingentes do estado. O dado reforça a importância da cidade no debate sobre habitação, infraestrutura urbana, saneamento, mobilidade e planejamento territorial.

Destaques de Salvador e Feira de Santana

Em Salvador, os dados centrais são:

  • 262 favelas e comunidades urbanas;
  • 45,8% das favelas baianas;
  • 1.033.258 moradores nessas áreas;
  • 42,7% da população da capital vivendo em favelas e comunidades urbanas.

Em Feira de Santana, os principais dados são:

  • 49 favelas e comunidades urbanas;
  • 44.699 moradores nesses territórios;
  • segunda maior presença em número de áreas identificadas na Bahia;
  • relevância estratégica por ser o maior município do interior baiano.

Saneamento nas favelas tem indicadores superiores em alguns recortes da Bahia

Um dos pontos de maior impacto do levantamento está nos indicadores de saneamento. No Brasil, 86,4% dos domicílios em favelas e comunidades urbanas tinham a rede geral como principal forma de abastecimento de água. Na Bahia, esse percentual chegou a 98,1%, um dos maiores do país.

No esgotamento sanitário, o Censo 2022 apontou que 74,6% dos domicílios em favelas e comunidades urbanas no Brasil estavam conectados à rede geral, rede pluvial, fossa séptica ou filtro. Na Bahia, o percentual foi de 89,3%, acima da média nacional e entre os maiores resultados estaduais.

Esse desempenho, contudo, não elimina a necessidade de análise territorial mais fina. Bons percentuais médios podem conviver com bolsões de precariedade, sobretudo em áreas de encosta, periferias adensadas, regiões com ocupação irregular e comunidades expostas a risco ambiental.

Perfil dos moradores revela população mais jovem e maioria preta ou parda

O Censo 2022 mostra que a população residente em favelas e comunidades urbanas é mais jovem que a média nacional. A idade mediana no Brasil era de 35 anos, enquanto nas favelas era de 30 anos. O índice de envelhecimento nesses territórios também era menor: 45 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, contra 80 idosos para cada 100 crianças no conjunto da população brasileira.

O levantamento também mostra diferenças raciais relevantes. Nas favelas e comunidades urbanas, 56,8% dos moradores se declararam pardos e 16,1% pretos, percentuais superiores aos observados na população total do país, de 45,3% e 10,2%, respectivamente. Já a proporção de pessoas brancas era de 26,6% nas favelas, abaixo dos 43,5% registrados na população brasileira como um todo.

Na Bahia, o recorte estadual reforça a centralidade da questão racial e urbana. Segundo a apuração publicada pelo JGB, a população em favelas baianas era majoritariamente feminina, com 53,4% de mulheres, e tinha proporção elevada de pessoas pretas. Em Salvador, esse percentual era ainda mais alto, com 42,2% de pessoas pretas entre os moradores de favelas e comunidades urbanas.  Favelas têm mais estabelecimentos religiosos que escolas e unidades de saúde

Outro dado relevante do Censo 2022 diz respeito aos estabelecimentos existentes nas favelas e comunidades urbanas. O IBGE identificou 958.218 estabelecimentos nesses territórios, dos quais 7.896 eram de ensino, 2.792 eram de saúde e 50.938 eram religiosos.

Proporcionalmente, havia 18,2 estabelecimentos religiosos para cada estabelecimento de saúde e 6,5 estabelecimentos religiosos para cada escola nas favelas e comunidades urbanas. O dado não deve ser lido como crítica à presença religiosa, mas como indicador da insuficiência relativa de equipamentos públicos essenciais em territórios densamente povoados.

A leitura institucional é direta: onde o Estado chega de forma insuficiente, outras formas de organização social tendem a ocupar espaços de mediação, apoio comunitário e presença cotidiana. O desafio público é ampliar a rede de educação, saúde, assistência social, mobilidade, saneamento e regularização urbanística.

Mudança de nomenclatura busca maior precisão social e territorial

O IBGE substituiu a expressão “Aglomerados Subnormais” por “Favelas e Comunidades Urbanas”, após diálogo com organizações representativas desses territórios. A alteração busca adequar a terminologia à forma como essas populações se reconhecem e são socialmente identificadas.

A mudança é relevante porque estatísticas públicas não são apenas instrumentos técnicos. Elas também influenciam políticas públicas, orçamento, planejamento urbano e percepção social. Uma nomenclatura mais precisa contribui para reduzir estigmas e melhorar a formulação de diagnósticos territoriais.

Análise crítica jornalística: o retrato urbano exige política pública contínua

Os dados do Censo 2022 revelam uma realidade que não pode ser tratada como fenômeno marginal. Com 16,4 milhões de pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas, o Brasil convive com uma forma consolidada de urbanização marcada por informalidade fundiária, desigualdade territorial e acesso desigual a equipamentos públicos. O problema é nacional, mas se expressa de maneira particularmente intensa nas capitais e grandes cidades.

Na Bahia, a concentração em Salvador e a presença expressiva em Feira de Santana mostram que a agenda urbana precisa ir além de programas episódicos. Habitação, saneamento, mobilidade, regularização fundiária, contenção de encostas, drenagem, educação e saúde devem ser tratados como políticas permanentes de Estado, e não apenas como respostas emergenciais a crises urbanas.

A principal tensão do levantamento está na distância entre indicadores médios e realidade local. A Bahia aparece com bons percentuais de água e esgotamento sanitário em favelas, mas isso não significa ausência de vulnerabilidade. O dado exige leitura territorial, especialmente em Salvador, onde a proporção de moradores em favelas é elevada, e em Feira de Santana, onde a expansão urbana demanda planejamento rigoroso para evitar adensamento precário.

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