A Ucrânia relembrou no domingo (26/04/2026) os 40 anos do desastre nuclear de Acidente de Chernobyl, considerado o maior acidente nuclear civil da história, ocorrido em 26 de abril de 1986, após a explosão do reator 4 da usina. O episódio causou impactos duradouros na saúde pública, no meio ambiente e na estrutura política da então União Soviética.
Quatro décadas após o acidente, as consequências da radiação ainda são observadas, enquanto relatos de profissionais que atuaram na linha de frente seguem sendo resgatados. Entre eles está o médico Leonid Kindzelski, responsável por tratamentos que contribuíram para a sobrevivência de vítimas expostas à radiação.
A data também é lembrada em meio a novos riscos envolvendo a região, decorrentes do conflito entre Rússia e Ucrânia, que mantém a área sob atenção internacional.
Médico adotou estratégias próprias no tratamento de vítimas
No momento do acidente, Leonid Kindzelski atuava como chefe de radiologia da então República Socialista Soviética da Ucrânia. Ele foi um dos primeiros médicos a atender vítimas da síndrome aguda da radiação, condição causada pela exposição intensa a material radioativo.
Diante de restrições impostas pelas autoridades soviéticas, Kindzelski foi impedido de registrar diagnósticos completos e realizar procedimentos considerados padrão, como transplantes totais de medula óssea.
Mesmo com limitações, o médico desenvolveu métodos alternativos. Sua abordagem consistia em transplantes parciais de medula, com objetivo de sustentar temporariamente o organismo até a recuperação natural, estratégia que resultou na sobrevivência da maioria dos pacientes atendidos.
Métodos inovadores contribuíram para recuperação de pacientes
A atuação de Kindzelski incluiu o uso de técnicas como hemossorção e enterossorção. Esses procedimentos permitiam a remoção de substâncias tóxicas e radionuclídeos do organismo, auxiliando na recuperação dos pacientes.
Segundo relatos, dos 35 pacientes tratados com essas abordagens, apenas um não sobreviveu, devido à exposição a níveis extremos de radiação. Os resultados reforçaram a eficácia do método adotado.
Além do tratamento clínico, o médico também atuou no acompanhamento direto das áreas afetadas. Ele realizou medições de radiação em regiões próximas à usina, identificando níveis irregulares de contaminação.
Atuação ocorreu sob controle e restrições políticas
Durante a resposta ao desastre, o trabalho médico foi realizado sob vigilância da KGB, órgão responsável pela segurança do Estado soviético. A atuação de Kindzelski enfrentou limitações impostas pelo controle político da informação.
O médico foi pressionado a seguir diretrizes oficiais que minimizavam a gravidade da situação. Ele também teve perda de funções administrativas e enfrentou risco de punições por contrariar orientações institucionais.
Apesar disso, manteve a atuação clínica e o acompanhamento dos pacientes. A postura contribuiu para preservar registros e evidências sobre os efeitos da radiação, em um contexto de restrição informacional.
Reconhecimento ocorreu décadas após o desastre
Leonid Kindzelski continuou atuando após o acidente, mas teve a saúde comprometida ao longo dos anos. Ele desenvolveu câncer e morreu em 1999, sem reconhecimento oficial imediato por seu trabalho.
O reconhecimento veio apenas décadas depois. Em 2021, o governo da Ucrânia concedeu ao médico, de forma póstuma, o título de Herói da Ucrânia, principal honraria civil do país.
A história foi posteriormente divulgada por seu filho, Andrei Kindzelski, que também participou das ações após o desastre. O relato contribui para manter a memória das ações médicas realizadas durante a crise nuclear.
Tragédia de Chernobyl segue com impactos duradouros
O acidente mobilizou centenas de milhares de pessoas, incluindo bombeiros, engenheiros e profissionais de saúde. A liberação de material radioativo contaminou amplas áreas e gerou efeitos prolongados na população exposta.
Além das consequências sanitárias, o desastre teve impacto político. O episódio é apontado por historiadores como um dos fatores que contribuíram para o enfraquecimento da União Soviética, ao expor falhas estruturais do sistema.
Quatro décadas depois, Chernobyl permanece como referência global em segurança nuclear e gestão de desastres, enquanto histórias individuais continuam sendo resgatadas como parte da memória histórica.
*Com informações da RFI.











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