Europa enfrenta calor histórico em maio de 2026 e expõe despreparo climático de França e Reino Unido

A França registrou na terça-feira (26/05/2026) o dia mais quente já documentado para um mês de maio, enquanto países da Europa Ocidental enfrentam uma onda de calor considerada excepcional para esta época do ano. As temperaturas devem atingir entre 38°C e 39°C nesta quarta-feira (27/05/2026), cenário que levou o governo francês a convocar uma reunião interministerial para discutir medidas emergenciais diante dos impactos climáticos.

Especialistas afirmam que o episódio está diretamente ligado ao aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa e alertam para a falta de preparo das estruturas urbanas, escolas e serviços públicos europeus diante de eventos extremos cada vez mais frequentes.

Além da França, o fenômeno também atinge o Reino Unido, onde autoridades climáticas alertam que o país foi projetado para um clima que “já não existe”. As temperaturas elevadas aumentam preocupações com saúde pública, funcionamento das escolas, infraestrutura urbana e riscos ambientais.

França registra temperaturas até 15°C acima da média

Segundo a agência meteorológica Météo-France, as temperaturas registradas nesta semana estão entre 10°C e 15°C acima da média histórica para o período. O calor excepcional deve persistir até o fim da semana.

Climatologistas classificam o fenômeno como uma ocorrência rara e afirmam que uma onda de calor tão intensa, precoce e prolongada dificilmente ocorreria sem influência das mudanças climáticas causadas pela ação humana e pelo uso de combustíveis fósseis.

A ministra francesa da Transição Ecológica, Monique Barbut, declarou que o episódio pode ser “o primeiro de uma série” e reforçou a necessidade de adaptação estrutural.

“Conhecemos as causas: nossas emissões de gases de efeito estufa. Precisamos agir na origem do problema e tornar a França resiliente”, afirmou na Assembleia Nacional.

Governo francês convoca reunião de emergência

Diante da escalada das temperaturas, o governo francês convocou uma reunião interministerial para quinta-feira (28/05/2026), liderada pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu.

Apesar de afirmar que a situação permanece “sob controle”, o governo reconhece que o país enfrenta dificuldades para lidar com eventos extremos fora do padrão climático tradicional da Europa Ocidental.

O calor também já apresenta impactos diretos na saúde pública. Autoridades associam o episódio à morte, direta ou indireta, de pelo menos sete pessoas. Há ainda previsão de aumento da poluição por ozônio em várias regiões francesas.

Escolas enfrentam dificuldades com altas temperaturas

O sistema educacional francês está entre os setores mais afetados pela onda de calor. Professores relatam improvisações para manter as atividades escolares diante da ausência de infraestrutura adequada.

Na cidade de Pau, no sudoeste da França, o professor Antoine Maldonado levou alunos para estudar sob árvores em um parque municipal após o termômetro da sala atingir 28,4°C ainda durante a manhã.

Maldonado, integrante da rede “Professores em Transição”, criticou a ausência de regras nacionais para fechamento de escolas durante episódios extremos de calor. Segundo ele, prefeitos de pequenas cidades acabam tomando decisões isoladas sobre interrupção das aulas.

Casos de mal-estar aumentam entre estudantes

Nos arredores de Pau, na cidade de Billère, pelo menos 13 estudantes passaram mal devido às altas temperaturas.

Em escolas da região de Paris, professores relatam falta de ventiladores e necessidade de comprar borrifadores por conta própria. Entre as medidas improvisadas estão o fechamento de persianas, redução do recreio, atividades ao ar livre em áreas sombreadas e reforço na hidratação dos alunos.

Especialistas defendem soluções consideradas simples, como instalação de proteções solares nas janelas e sistemas de ventilação noturna. Segundo pesquisadores, uma janela diretamente exposta ao sol pode funcionar como um radiador dentro das salas de aula.

Uso de ar-condicionado divide especialistas

O debate sobre climatização artificial ganhou força diante da onda de calor. Parte dos professores e gestores defende a ampliação do uso de ar-condicionado nas escolas e prédios públicos.

Entretanto, especialistas alertam para os impactos ambientais e financeiros da medida. O engenheiro Amaury Fievez afirmou que muitos municípios não possuem capacidade financeira para instalar e manter sistemas de climatização em larga escala.

Fievez defende soluções de baixo impacto ambiental, conhecidas como “low-tech”, e ressalta que as infraestruturas atuais europeias não foram dimensionadas para enfrentar ondas de calor frequentes e intensas.

Reino Unido alerta para colapso de infraestrutura climática

O calor extremo também atingiu o Reino Unido, onde temperaturas devem alcançar até 35°C em algumas regiões da Inglaterra nesta semana.

O Comitê sobre Mudanças Climáticas do governo britânico divulgou relatório alertando que o país precisará adaptar rapidamente suas residências, hospitais, escolas e sistemas urbanos para enfrentar o novo cenário climático.

Segundo o órgão, até 2050, nove em cada dez residências britânicas poderão sofrer superaquecimento. As autoridades também estimam que ondas de calor poderão provocar 10 mil mortes adicionais por ano no país.

Metrô de Londres enfrenta limitações estruturais

Uma das principais preocupações britânicas envolve o sistema de transporte público. O tradicional metrô de Londres, inaugurado no século XIX, não foi projetado para operar sob temperaturas extremas.

De acordo com especialistas, os túneis estreitos e profundos, construídos em solo argiloso, dificultam a instalação de sistemas de ar-condicionado.

A diretora-executiva do Comitê sobre Mudanças Climáticas, Emma Pinchbeck, afirmou que diversas infraestruturas do país precisarão passar por modernização para resistir aos efeitos do aquecimento global.

Europa acelera debate sobre adaptação climática

Os episódios recentes intensificam o debate europeu sobre adaptação às mudanças climáticas. Cientistas alertam que ondas de calor extremas tendem a se tornar mais frequentes, prolongadas e intensas nas próximas décadas.

Além dos impactos diretos na saúde e no funcionamento das cidades, especialistas destacam riscos para agricultura, abastecimento de energia, sistemas de transporte e equilíbrio ambiental.

Governos europeus enfrentam pressão crescente para acelerar investimentos em infraestrutura resiliente, planejamento urbano sustentável e redução das emissões de gases de efeito estufa.

*Com informações da RFI.


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