O jornal francês Le Figaro publicou na quinta-feira (28/05/2026) uma reportagem em destaque afirmando que o Brasil passou a defender com maior intensidade o fortalecimento de sua capacidade militar diante de um cenário internacional considerado instável. Segundo o veículo, o receio de ações intervencionistas dos Estados Unidos tem levado o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a revisar posições históricas relacionadas à defesa nacional.
A reportagem, assinada pela correspondente Eléonore Hughes, no Rio de Janeiro, aponta que o Brasil, tradicionalmente associado à diplomacia e à baixa militarização, começou a ampliar o discurso sobre soberania, proteção territorial e modernização das Forças Armadas.
De acordo com o jornal francês, o país investe atualmente cerca de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa, percentual abaixo da média global. O texto afirma que declarações recentes do presidente Lula demonstram mudança de postura diante do atual contexto internacional.
Declarações de Lula sobre soberania e Amazônia são destacadas
O Le Figaro cita um discurso realizado por Lula durante visita do presidente da África do Sul a Brasília, em março, no qual o chefe do Executivo afirmou que o Brasil precisa estar preparado para enfrentar ameaças externas e possíveis invasões.
A reportagem também destaca críticas feitas pelo presidente brasileiro às posições geopolíticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o texto, Lula declarou não possuir “garantias” de que Trump não possa afirmar que a Amazônia pertence aos interesses americanos.
O jornal relaciona essas declarações a um contexto de tensões diplomáticas na América Latina, envolvendo pressões políticas dos Estados Unidos sobre governos e lideranças da região.
Jornal cita tarifaço e tensões regionais na América Latina
Entre os fatores apontados pelo Le Figaro como elementos de preocupação para o governo brasileiro está a imposição de um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos no ano passado.
A publicação também menciona episódios envolvendo lideranças latino-americanas, incluindo referências ao ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro e ao ex-líder cubano Raul Castro, citados como exemplos de pressões políticas americanas na região.
Segundo o jornal francês, o cenário internacional tem levado o Brasil a reconsiderar sua posição histórica de baixa militarização e dependência prioritária de mecanismos diplomáticos para resolução de conflitos.
Especialistas apontam necessidade de modernização das Forças Armadas
Apesar do aumento de 13% no orçamento militar brasileiro registrado no último ano, especialistas ouvidos pelo Le Figaro avaliam que o país ainda enfrenta limitações estruturais em sua política de defesa.
A pesquisadora Ana Penido, mencionada pela reportagem, afirmou que a capacidade atual do Brasil de executar plenamente sua estratégia de defesa ainda é considerada baixa. O texto destaca que as Forças Armadas teriam produzido estudos internos apontando necessidade de aproximadamente R$ 800 bilhões em investimentos ao longo de 15 anos para modernização do arsenal militar.
Diante desse cenário, o governo brasileiro avalia alternativas de cooperação internacional, incluindo parcerias estratégicas com países do chamado Sul Global, segundo a publicação francesa.
Aproximação de aliados de Bolsonaro com Trump também é citada
O Le Figaro afirma ainda que o ambiente político brasileiro tem sido influenciado pela aproximação entre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente americano Donald Trump.
A reportagem menciona o encontro entre o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro e Trump, realizado em Washington na terça-feira (26/05/2026). Segundo o jornal francês, setores da imprensa brasileira interpretaram a reunião como um possível início de influência externa nas eleições presidenciais brasileiras previstas para outubro.
Outro ponto citado pela publicação envolve discussões sobre a possibilidade de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Segundo o texto, integrantes do governo brasileiro demonstram preocupação com a hipótese de que essa classificação possa abrir espaço para ações internacionais mais diretas no país.
*Com informações da RFI.








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