O reconhecimento de Marçal de Souza Tupã’I como a primeira liderança indígena oficialmente considerada vítima da ditadura militar brasileira reacendeu o debate sobre violência contra povos originários, demarcação de terras e apagamento cultural no país. Morto em 1983, em Mato Grosso do Sul, o líder Guarani-Ñandeva passou décadas denunciando perseguições, conflitos fundiários e violações contra comunidades indígenas.
A decisão foi recebida pela família como um marco histórico. Em entrevista à Sputnik Brasil, a filha de Marçal, a historiadora e professora aposentada Edna Silva de Souza, afirmou que o reconhecimento representa uma reparação institucional, mas destacou que a violência contra indígenas permanece presente em diferentes formas.
“Não se mata só com bala”, declarou.
Marçal foi assassinado com cinco tiros em novembro de 1983, após anos de atuação em defesa da demarcação de terras indígenas e dos direitos dos povos Guarani-Kaiowá. Segundo relatos apresentados pela família e pesquisadores, ele vinha sendo monitorado e ameaçado desde o período da ditadura militar.
Reconhecimento histórico e contexto político
O reconhecimento oficial de Marçal de Souza como vítima do regime militar ocorre mais de quatro décadas após o assassinato. Para Edna Silva de Souza, a medida foi resultado da atuação do Ministério Público Federal em Dourados e da mobilização de entidades ligadas aos direitos indígenas.
Ela também relacionou o reconhecimento ao atual cenário político nacional e afirmou que ainda existem obstáculos internos para avanços mais amplos na proteção das comunidades indígenas. Segundo Edna, o Estado brasileiro historicamente falhou na garantia de direitos básicos aos povos originários.
A professora relembrou episódios vividos durante sua atuação na educação indígena. Em 1972, na aldeia de Caarapó, ela foi impedida de ensinar a língua guarani às crianças da comunidade. Na época, segundo ela, a administração da Fundação Nacional do Índio (Funai) era conduzida por militares.
Língua indígena e preservação cultural
Edna relatou que tentou implementar um método de alfabetização em guarani voltado para crianças que tinham pouco domínio da língua portuguesa. O projeto foi interrompido por determinação de supervisores educacionais.
Segundo ela, a língua representa mais do que um instrumento de comunicação. A preservação do idioma está diretamente ligada à identidade cultural, à espiritualidade e à organização social dos povos indígenas.
“Para um povo se fortalecer em todos os aspectos de luta, é necessário o domínio da língua”, afirmou. De acordo com Edna, a cosmologia guarani estabelece conexões entre natureza, território, espiritualidade e coletividade.
Educação indígena e resistência cultural
A historiadora também criticou o modelo tradicional de ensino aplicado às comunidades indígenas. Segundo ela, a estrutura escolar herdada historicamente ignora formas coletivas de aprendizado presentes nas culturas originárias.
Ela defendeu metodologias educacionais mais horizontais, como salas organizadas em semicírculo e atividades conduzidas na língua materna. Para Edna, essas práticas permitem maior troca de conhecimento entre as crianças e fortalecem os vínculos culturais.
A historiadora afirmou que professores indígenas formados em instituições interculturais enfrentam dificuldades para adaptar o sistema educacional às realidades das aldeias, principalmente diante de estruturas pedagógicas consideradas rígidas.
Conflitos por terra e violência em Mato Grosso do Sul
A disputa por terras indígenas segue como um dos principais focos de tensão em Mato Grosso do Sul. O estado registrou 33 assassinatos de indígenas em 2024, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
Grande parte dos conflitos ocorre em áreas reivindicadas pelos Guarani-Kaiowá, povo ao qual pertencia Marçal de Souza. Diversos processos de demarcação permanecem sem conclusão há décadas.
Entre os casos citados está a Terra Indígena Iguatemipeguá I, delimitada em 2013, mas ainda sem regularização definitiva. Em novembro de 2025, um indígena de 36 anos foi morto durante um ataque armado à retomada Pyelito Kue, em Iguatemi (MS).
Assassinato de Marçal e impunidade
O episódio foi condenado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que classificou a violência como parte de um padrão histórico de intimidação contra comunidades indígenas em disputa territorial.
Para Edna, o reconhecimento oficial de Marçal fortalece juridicamente e simbolicamente a luta pela retomada dos territórios tradicionais. Segundo ela, o Estado brasileiro admitiu, ainda que tardiamente, falhas históricas na proteção dos povos indígenas.
Marçal de Souza ganhou projeção nacional em 1978, durante a visita do papa João Paulo II ao Brasil. Representando os povos indígenas, ele declarou ao pontífice:
“O Brasil não foi descoberto. O Brasil foi invadido”.
Vigilância durante a ditadura militar
Após o discurso, pesquisadores afirmam que a vigilância sobre o líder indígena aumentou. O antropólogo Antônio Hilário, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), afirmou que agentes monitoravam reuniões, palestras e contatos de Marçal.
Segundo Hilário, o líder indígena se tornou um marco na luta territorial dos Guarani-Kaiowá. Ele também relembrou que Marçal sofreu agressões físicas antes de ser assassinado.
O crime ocorreu em meio aos conflitos pela área de Pirakuá, onde Marçal atuava ao lado de famílias Guarani. Os acusados de mandar executar o líder foram absolvidos em 1993 por falta de provas.
Legado e resistência das novas gerações
Até hoje, o assassinato segue sem condenações definitivas. Segundo pesquisadores e familiares, o caso passou por mudanças de investigação, trocas de delegados e alterações processuais ao longo das décadas.
A memória de Marçal permanece presente em comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, a primeira aldeia urbana da capital recebeu o nome do líder indígena em 1994, onze anos após sua morte.
Edna Silva de Souza afirmou acreditar na continuidade da resistência indígena por meio das novas gerações. Para ela, jovens indígenas que ocupam espaços acadêmicos têm papel central na defesa dos territórios e da cultura tradicional.
Ela destacou que a luta indígena envolve não apenas a posse da terra, mas também o reconhecimento da identidade cultural, da língua e dos modos de vida ancestrais.
“Não se mata só com bala, se mata também de outras formas”, concluiu.
*Com informações da Sputnik News.








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