A maioria dos moradores de favelas do Rio de Janeiro reprova operações policiais com confronto armado nos formatos realizados nos últimos anos. O dado integra pesquisa inédita conduzida por seis organizações da sociedade civil e aplicada em quatro comunidades da capital fluminense. O estudo ouviu 4.080 moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha entre os dias 13 e 31 de janeiro deste ano, com distribuição igualitária de 1.020 entrevistas por território.
O levantamento foi divulgado na quarta-feira (20/05/2026) e tem coordenação da diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva. Segundo os organizadores, o objetivo é analisar como as operações policiais impactam o cotidiano das comunidades e quais percepções os moradores têm sobre segurança pública.
Eliana Sousa Silva afirma que o estudo busca contextualizar a relação entre moradores e operações policiais, considerando o histórico de intervenções e seus efeitos sobre a vida cotidiana nas favelas.
Reprovação ao modelo de operações policiais
Os dados indicam que 92% dos entrevistados reprovam o modelo atual de operações policiais com confronto armado. Além disso, 73% não concordam com as operações nos formatos realizados nos últimos anos, enquanto 25% declararam concordância e 2% não responderam.
Quando questionados sobre a forma de realização das operações, 68% afirmaram que elas deveriam ocorrer de outra maneira, e 24% disseram que não deveriam ocorrer operações policiais em favelas. Entre os que concordam com as ações, apenas 20% defendem o modelo atual.
A pesquisa também aponta que 91% dos moradores identificam excessos e ilegalidades em ações policiais durante operações. Entre os que apoiam as operações, esse percentual chega a 85%, indicando distinção entre apoio à presença policial e ao formato de atuação.
Impactos das operações no cotidiano das comunidades
Os principais impactos relatados são restrição de circulação (51% entre os que discordam e 41,5% entre os que concordam), seguida por invasão ou violação de domicílio, estabelecimentos comerciais ou veículos (37,5% e 22,9%).
Também foram citados tiroteios recorrentes e balas perdidas, mencionados por 30,5% dos que discordam e 20,7% dos que concordam com as operações. Segundo o estudo, esses efeitos interferem diretamente em rotinas de trabalho, estudo e deslocamento.
O levantamento associa esses dados à recorrência de operações policiais em territórios com alta densidade populacional e histórico de confrontos armados.
Violência, letalidade e percepção de segurança pública
A pesquisa aponta aumento de 58% na letalidade na Maré em 2025 em relação a 2024, além de registrar 92 operações com confronto, mortes e feridos no território entre 2023 e 2025.
Entre os entrevistados, 78% afirmaram sentir medo da polícia durante operações, percentual que chega a 85% entre os contrários às ações e 59% entre os favoráveis. Já 50% relataram sentir bastante indignação em relação às operações.
O estudo também indica que, mesmo entre os que apoiam as ações, o medo da polícia (59%) supera o medo de grupos armados (53%), evidenciando percepção simultânea de diferentes fontes de violência.
Os dados mostram ainda que 61% dos entrevistados percebem racismo na forma como as operações são planejadas e executadas, enquanto 13% indicam que isso ocorre às vezes e 25% discordam dessa avaliação.
Recortes raciais, etários e percepção social
Entre pessoas pretas, 81% discordam das operações policiais, enquanto entre pessoas brancas a concordância chega a 30%. Entre jovens de 18 a 29 anos, 79% são contrários às operações, grupo associado pelos pesquisadores à maior exposição às dinâmicas de violência.
O levantamento indica ainda que 85% dos entrevistados afirmam que operações semelhantes não devem se repetir, enquanto 7% defendem sua repetição e 7% admitem que podem ocorrer em alguns casos.
Segundo os organizadores, os dados refletem diferentes percepções sobre segurança pública e a relação entre exposição à violência e avaliação das operações policiais.
Organizações envolvidas e contexto do estudo
A pesquisa foi realizada por Fala Roça, Frente Penha, Instituto Papo Reto, Instituto Raízes em Movimento, Redes da Maré e A Rocinha Resiste, com apoio de instituições como UFRJ, UFF e UERJ, além de centros de pesquisa e organizações da sociedade civil.
O levantamento integra uma série histórica de estudos sobre impactos de operações policiais em favelas do Rio de Janeiro, com foco em segurança pública, circulação, educação e direitos dos moradores.
*Com informações da Agência Brasil.








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