Pesquisadores do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) identificaram a presença de mercúrio e chumbo em caranguejos-uçá monitorados em áreas de manguezais no litoral do Paraná. O estudo, desenvolvido na região da Baía de Paranaguá, investiga os impactos ambientais da contaminação e busca compreender possíveis riscos à saúde humana relacionados ao consumo do crustáceo.
A informação foi divulgada durante pesquisas conduzidas pela professora Cassiana Baptista Metri, da Universidade Estadual do Paraná, integrante do Rebimar. Segundo a pesquisadora, além de elementos químicos naturais importantes para o organismo humano, como zinco, manganês e magnésio, também foram encontrados contaminantes considerados indesejáveis.
Os resultados apontam que a presença de mercúrio e chumbo variou conforme a localidade e o período do ano, sem ocorrência uniforme em todas as amostras analisadas. O estudo ainda busca identificar o potencial impacto do consumo desses animais na saúde das populações locais.
Pesquisa analisa impactos do consumo de caranguejo contaminado
De acordo com a pesquisadora Cassiana Baptista Metri, ainda são necessários novos estudos para determinar o nível de risco associado ao consumo do caranguejo-uçá contaminado.
Ela explicou que o consumo do crustáceo na região ocorre de forma sazonal, principalmente durante o verão, fora do período de defeso. A pesquisadora ressaltou que a preocupação se concentra na possibilidade de acúmulo de metais pesados no organismo humano ao longo do tempo.
“Alguns metais vão se acumulando no organismo e não são eliminados”, observou a especialista ao comentar os próximos passos da investigação científica.
O estudo integra as ações do Programa Rebimar, iniciativa desenvolvida pela Associação Mar Brasil desde 2009, com apoio do programa socioambiental da Petrobras.
Manguezais do Paraná movimentam economia da pesca artesanal
A pesca de caranguejo possui importância econômica para comunidades do litoral paranaense. Segundo dados do governo estadual citados na pesquisa, a atividade movimentou aproximadamente R$ 9,8 milhões em 2024.
As cidades com maior destaque na captura do caranguejo-uçá incluem Paranaguá, Guaraqueçaba, Guaratuba, Antonina e Pontal do Paraná.
O pescador Antônio de Souza, conhecido como Pano, atua há quase cinco décadas na captura do crustáceo em áreas de manguezal. Durante o período de defeso, ele complementa a renda com a pesca de peixes.
O trabalhador também defendeu a preservação ambiental e o respeito ao período de reprodução da espécie. Segundo ele, a proteção dos manguezais é necessária para garantir a continuidade da atividade pesqueira para as próximas gerações.
Pesquisadores avaliam resistência do caranguejo-uçá aos contaminantes
Apesar da presença de metais pesados identificados nas análises laboratoriais, os pesquisadores observaram que os caranguejos monitorados apresentavam comportamento considerado normal.
Segundo Cassiana Baptista Metri, os animais analisados estavam saudáveis e realizando atividades comuns do ciclo biológico da espécie.
Uma das hipóteses estudadas é a possibilidade de os caranguejos eliminarem os contaminantes por meio da troca periódica da carapaça. Outra linha de investigação avalia se o consumo das folhas do mangue, ricas em tanino, pode oferecer algum mecanismo de proteção antioxidante aos crustáceos.
A pesquisadora afirmou ainda que os resultados podem abrir caminhos para futuras pesquisas aplicadas na área farmacêutica e ambiental.
Projeto monitora biodiversidade e carbono azul nos manguezais
O Rebimar também realiza monitoramento ambiental em uma área de aproximadamente 49 mil hectares de manguezais, extensão comparada ao território da cidade de Porto Alegre.
O acompanhamento utiliza imagens de satélite, drones e técnicas de georreferenciamento para avaliar a saúde dos ecossistemas da chamada Grande Reserva Mata Atlântica, que abrange regiões do litoral de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.
A oceanógrafa Sarah Charlier Sarubo, pesquisadora do programa, destacou o papel dos manguezais no armazenamento de carbono, fenômeno conhecido como carbono azul.
Segundo ela, os manguezais possuem capacidade elevada de captura de dióxido de carbono devido às características do solo, da salinidade e do ambiente com baixo nível de oxigênio.
Manguezais atuam na proteção climática e no controle da poluição
Os pesquisadores também apontam os manguezais como importantes barreiras naturais contra eventos extremos e impactos ambientais.
De acordo com Sarah Sarubo, áreas preservadas conseguem reduzir a força das ondas e minimizar processos erosivos, além de atuar na filtragem de poluentes e matéria orgânica antes que alcancem estuários e regiões costeiras.
A pesquisadora destacou ainda que os manguezais funcionam como filtros naturais para melhoria da qualidade da água em áreas urbanas e portuárias.
A região monitorada pelo Rebimar está localizada próxima ao Porto de Paranaguá, áreas indígenas e regiões turísticas como a Ilha do Mel, fatores que ampliam a diversidade ambiental e os desafios relacionados à conservação da biodiversidade marinha.
*Com informações da Agência Brasil.









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