A Bahia avança na estruturação de uma nova agenda industrial baseada em sustentabilidade, bioeconomia, descarbonização e transição energética, com o lançamento do Programa Indústria Verde, coordenado pelo Sistema FIEB. A iniciativa busca apoiar cadeias produtivas sustentáveis, ampliar a competitividade da indústria baiana e articular empresas, municípios, instituições de pesquisa, governo e entidades do setor produtivo em torno de projetos de baixo carbono. Segundo dados apresentados pela FIEB, o estado concentra R$ 78 bilhões em investimentos verdes previstos, volume equivalente a 59% dos investimentos industriais mapeados na Bahia, com destaque para energia eólica, energia solar, biocombustíveis e veículos elétricos.
Programa Indústria Verde busca consolidar nova economia industrial na Bahia
O Programa Indústria Verde foi concebido para atuar de forma integrada no desenvolvimento de cadeias produtivas descarbonizadas e da bioeconomia. A estratégia envolve o adensamento produtivo, a atração de investimentos, a qualificação da mão de obra, o desenvolvimento tecnológico e a articulação regional entre empresas âncoras, fornecedores, poder público e instituições parceiras.
De acordo com o superintendente da FIEB, Vladson Menezes, o programa mobiliza as entidades do Sistema FIEB em torno de uma agenda comum de desenvolvimento industrial sustentável. A proposta é transformar a sustentabilidade em vetor de competitividade, e não apenas em exigência regulatória ou discurso institucional.
A iniciativa ocorre em um momento em que a transição energética deixou de ser tema periférico e passou a integrar a estratégia central de governos, empresas e mercados financeiros. Na Bahia, a combinação entre recursos naturais, base industrial, localização estratégica e expansão das energias renováveis cria condições para uma agenda produtiva de longo prazo.
Sistema FIEB atuará em capacitação, tecnologia, financiamento e fornecedores
O programa prevê atuação coordenada das entidades que compõem o Sistema FIEB. A FIEB ficará responsável por assessoria ambiental, financeira e internacional, além de articulação institucional e defesa de interesses do setor produtivo junto ao poder público.
O SENAI terá papel voltado à formação técnica e profissional, com cursos e capacitações direcionados às novas demandas da indústria verde. Já o SENAI Cimatec deverá atuar no desenvolvimento de soluções tecnológicas, automação industrial e projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
O SESI contribuirá com serviços de saúde e segurança do trabalho, enquanto o IEL atuará na qualificação, certificação e fortalecimento de fornecedores locais. Essa divisão de funções indica que o programa busca estruturar não apenas projetos isolados, mas uma cadeia de suporte para sustentar a expansão da economia de baixo carbono.
Acordo com Braskem, Casa dos Ventos e Acelen fortalece agenda sustentável
Durante o Fórum de Grandes Indústrias, realizado no âmbito da INDEX, a FIEB assinou, em 6 de maio de 2026, um acordo de cooperação técnica com Braskem, Casa dos Ventos e Acelen para fortalecer iniciativas voltadas à bioeconomia, às cadeias produtivas sustentáveis e à descarbonização da indústria baiana. A informação também foi publicada pela FIEB em notícia oficial sobre o programa.
O acordo foi firmado pelo presidente da FIEB, Carlos Henrique Passos; pelo superintendente Vladson Menezes; pelo presidente da CDV Desenvolvimento, Clécio Eloy; pelo diretor de Relações Institucionais da Acelen, Bernardo Araújo; e pelo diretor Industrial da Braskem, Carlos de Freitas Alfano Neto.
Para Carlos Henrique Passos, a iniciativa representa uma estratégia de longo prazo para o futuro da indústria baiana, com foco no fortalecimento de cadeias sustentáveis, na descarbonização e na promoção da bioeconomia. A lógica do programa é alinhar crescimento econômico, inovação produtiva e adaptação às novas exigências ambientais do mercado global.
Empresas apontam competitividade global como eixo da transição energética
O diretor Industrial da Braskem, Carlos Alfano, afirmou que a agenda conecta desenvolvimento econômico e sustentabilidade. Segundo ele, esse movimento deixou de ser uma escolha e passou a ser uma condição de competitividade no cenário internacional.
Já Clécio Eloy, da Casa dos Ventos, destacou que a transição energética deve ser compreendida como oportunidade de transformação econômica baseada em inovação, recursos renováveis e descarbonização industrial. Para a empresa, o desafio não se limita à geração de energia limpa, mas inclui a construção de soluções capazes de ampliar a competitividade da indústria baiana.
O diretor de Relações Institucionais da Acelen, Bernardo Araújo, defendeu que a cooperação entre indústria e instituições será decisiva para acelerar a transição energética de forma consistente e inclusiva. A empresa vê a agenda ambiental como parte de um projeto de desenvolvimento econômico com impacto social e regional.
Acelen prevê US$ 3 bilhões em projeto de biocombustíveis a partir da macaúba
Entre os projetos estratégicos associados à agenda de transição energética está a atuação da Acelen Renováveis, que desenvolve uma cadeia integrada para produção de SAF, o combustível sustentável de aviação, e diesel renovável a partir da macaúba.
A empresa prevê investimentos de aproximadamente US$ 3 bilhões para estruturar o projeto. O cultivo da macaúba será realizado em 180 mil hectares de pastagens degradadas na Bahia e em Minas Gerais, com potencial estimado de captura de 60 milhões de toneladas de CO₂.
Segundo as informações apresentadas, o combustível produzido poderá gerar 80% menos emissões em comparação aos combustíveis fósseis. A meta da Acelen Renováveis é alcançar capacidade de produção de 1 bilhão de litros por ano de combustíveis renováveis, com início das operações previsto para 2029.
Agricultura familiar integra parte do projeto
O projeto da Acelen prevê que 20% das áreas cultivadas sejam conduzidas em parceria com agricultores familiares e pequenos produtores. A medida busca associar a transição energética à inclusão produtiva, ampliando o impacto econômico da nova cadeia industrial em áreas rurais.
A estratégia também aponta para uma possível recomposição produtiva de áreas degradadas, com aproveitamento econômico de pastagens de baixa produtividade. Caso seja executado com controle ambiental, rastreabilidade e governança fundiária, o modelo poderá fortalecer a relação entre indústria, agricultura e bioeconomia.
O desafio será assegurar que o avanço da produção de biomassa ocorra sem pressão sobre áreas de vegetação nativa, sem concentração excessiva de renda e com participação efetiva dos produtores locais. Esse ponto será decisivo para medir a consistência social e ambiental do projeto.
Bahia busca interiorizar investimentos verdes
Além da Acelen, o Programa Indústria Verde reúne iniciativas consideradas estratégicas para a economia de baixo carbono na Bahia. A Impasa prevê investimentos de R$ 2 bilhões na produção de etanol a partir de milho e sorgo; a BYD aparece como empresa relevante na cadeia de veículos elétricos e híbridos; e a Oleoplan atua na produção de biodiesel à base de óleo de soja.
Outro dado relevante é a interiorização dos investimentos. Segundo o levantamento apresentado, 83% dos investimentos verdes estão localizados fora da capital, o que indica potencial de reorganização territorial da economia baiana.
Essa interiorização pode ampliar oportunidades em municípios do interior, desde que acompanhada de infraestrutura, formação profissional, segurança jurídica, licenciamento ambiental eficiente e políticas de desenvolvimento regional. Sem esses elementos, há risco de concentração dos ganhos em grandes empreendimentos, com efeitos limitados sobre fornecedores locais e trabalhadores.
Plástico verde aparece como nova fronteira produtiva
O economista Danilo Peres, do Observatório da Indústria da Bahia da FIEB, aponta que outro eixo prioritário poderá ser o desenvolvimento da cadeia do plástico verde. A Bahia teria condições estratégicas para estruturar uma cadeia sustentável completa, da mineração de insumos à produção de materiais de baixo carbono e alto valor agregado.
A proposta amplia o alcance do programa para além da geração de energia renovável e dos biocombustíveis. Ao incluir materiais industriais, tecnologia e agregação de valor, a agenda da indústria verde passa a dialogar com a reindustrialização e com a disputa global por cadeias produtivas menos dependentes de combustíveis fósseis.
Esse ponto é relevante porque a transição energética não se resume à troca de fontes de energia. Ela envolve tecnologia, logística, formação de trabalhadores, capacidade de inovação e adaptação dos parques industriais a padrões ambientais cada vez mais exigentes.








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