A decisão dos Estados Unidos de enquadrar organizações ligadas ao narcotráfico em categorias destinadas ao combate ao terrorismo reacendeu o debate sobre os impactos da política de segurança norte-americana na América Latina. Especialistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, avaliam que a estratégia representa uma atualização da chamada guerra às drogas, lançada há mais de cinco décadas pelo então presidente norte-americano Richard Nixon.
Em sexta-feira (18/06/1971), Nixon declarou o uso de drogas como “inimigo público número um” dos Estados Unidos e deu início à política global de combate ao narcotráfico. Segundo os analistas entrevistados, a atual gestão norte-americana recupera parte dessa lógica ao associar organizações criminosas aos mecanismos utilizados na guerra ao terrorismo.
O tema foi discutido no episódio nº 901 do podcast Mundioka, publicado em terça-feira (16/06/2026), reunindo análises sobre as implicações geopolíticas e jurídicas da medida adotada pelo governo dos Estados Unidos.
Especialistas apontam continuidade de estratégia iniciada na década de 1970
O professor de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Thiago Rodrigues, afirmou que a política lançada por Nixon tinha como objetivo expandir para o exterior práticas de repressão já utilizadas internamente nos Estados Unidos.
Segundo o especialista, o contexto da época foi marcado pela expansão do mercado global de drogas ilícitas, o que teria criado condições para que Washington utilizasse o combate ao narcotráfico como instrumento de projeção de influência internacional.
De acordo com Rodrigues, a América Latina tornou-se um dos principais alvos dessa estratégia, uma vez que a região ocupava posição relevante nos interesses geopolíticos norte-americanos. Na avaliação do professor, a região voltou a ganhar importância na agenda dos Estados Unidos em razão da crescente presença da China no continente.
Governo Trump associa combate ao narcotráfico à guerra ao terrorismo
Para Rodrigues, a atual política da Casa Branca incorpora estruturas criadas ao longo das últimas décadas para o enfrentamento do terrorismo internacional. Segundo ele, a equiparação entre facções criminosas e organizações terroristas permite ampliar instrumentos de pressão política, financeira e jurídica já existentes.
O especialista afirma que a estratégia insere novamente a América Latina no centro das preocupações de segurança dos Estados Unidos. Na avaliação dele, o combate ao narcotráfico passa a ser tratado em conjunto com mecanismos desenvolvidos após os atentados que marcaram o início da chamada guerra ao terrorismo.
A medida também pode ampliar a influência norte-americana sobre políticas de segurança interna adotadas pelos países latino-americanos, especialmente em temas relacionados ao crime organizado e ao controle de fronteiras.
Classificação de facções brasileiras gera debate diplomático
Nos Estados Unidos existem diferentes categorias para organizações classificadas como terroristas. Uma delas é a de Terroristas Globais Especialmente Designados, que permite a aplicação de sanções financeiras contra integrantes dos grupos e empresas relacionadas a eles. Outra é a de Organizações Terroristas Estrangeiras, que amplia possibilidades de responsabilização judicial.
Segundo informações citadas no podcast, as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) foram enquadradas na primeira categoria. A expectativa era que uma eventual classificação na segunda modalidade fosse anunciada até quinta-feira (05/06/2026), conforme declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, mas a medida não foi formalizada.
Na avaliação de Rodrigues, a ausência dessa segunda designação pode indicar uma estratégia de pressão diplomática sobre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo em que preserva espaço para negociações entre os dois países.
Analistas alertam para efeitos sobre políticas de segurança na região
Rodrigues afirma que a equiparação entre narcotraficantes e terroristas segue uma prática adotada pelos Estados Unidos ao longo das últimas décadas na América Latina. Segundo ele, esse tipo de enquadramento tende a incentivar processos de militarização das políticas de segurança pública.
O especialista sustenta que a adoção de conceitos ligados ao combate ao terrorismo pode ampliar mecanismos de cooperação militar e de inteligência entre Washington e governos da região.
Para os analistas, a discussão ultrapassa o tema do combate ao narcotráfico e envolve aspectos relacionados à soberania nacional, à política externa e à definição das estratégias de segurança adotadas pelos países latino-americanos.
Especialista diferencia terrorismo de atuação de facções criminosas
O professor visitante de Direito Internacional da Escola Superior de Defesa e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), Carlos Frederico Cinelli, afirmou que a discussão ganhou força em meio ao debate sobre segurança pública e às recentes decisões do governo norte-americano.
Segundo o especialista, organizações terroristas e facções criminosas possuem características distintas. Ele argumenta que grupos terroristas costumam atuar com objetivos políticos, ideológicos, religiosos ou sectários definidos, enquanto organizações criminosas buscam principalmente ganhos financeiros.
Cinelli avalia que equiparar juridicamente essas estruturas pode gerar distorções na compreensão dos fenômenos e nas respostas adotadas pelos Estados.
Debate envolve diferenças entre objetivos políticos e interesses econômicos
De acordo com o professor, as facções criminosas brasileiras têm como principal finalidade o lucro e o acúmulo de recursos financeiros, diferentemente de organizações classificadas internacionalmente como terroristas.
Cinelli também afirmou que a eventual classificação das facções por governos estrangeiros não altera, por si só, a dinâmica operacional desses grupos. Na avaliação dele, a mudança possui maior impacto nos campos diplomático, jurídico e político do que sobre a atuação prática das organizações criminosas.
O especialista acrescenta que há diferenças entre ações criminosas destinadas a provocar medo momentâneo, como ataques contra ônibus ou bloqueios de acesso a determinadas áreas, e estratégias associadas ao terrorismo, que buscam impor um estado permanente de terror sobre a população para alcançar objetivos políticos específicos.
*Com informações da Sputnik News.








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