Filarmônica Vitória: casarão histórico será restaurado para abrigar sedes de Academias e reacende memória musical de Feira de Santana

Nesta sexta-feira, 26/06/2026, a história da Filarmônica Vitória, uma das instituições culturais mais antigas de Feira de Santana, voltou ao centro do debate público após o prefeito José Ronaldo anunciar a desapropriação do prédio histórico localizado na Rua Conselheiro Franco, antiga Rua Direita, para transformá-lo no futuro Palácio das Academias, espaço destinado a entidades literárias, históricas e culturais do município, em uma iniciativa que articula preservação patrimonial, requalificação urbana e valorização da memória musical feirense.

Filarmônica Vitória integra a formação cultural de Feira de Santana

A Filarmônica Vitória ocupa posição singular na história cultural de Feira de Santana. Criada no século XIX, em 1873, a instituição surgiu em um período no qual as bandas filarmônicas exerciam papel decisivo na vida pública das cidades do interior baiano. Antes da popularização dos meios eletrônicos de entretenimento, essas corporações musicais animavam festas religiosas, solenidades cívicas, eventos políticos, celebrações familiares, cortejos públicos e manifestações populares.

No acervo histórico do Jornal Grande Bahia, a Vitória aparece ao lado da Filarmônica 25 de Março e da Euterpe Feirense como uma das três corporações musicais que marcaram profundamente a vida social, artística e institucional do município. Essas entidades não eram apenas bandas de música; funcionavam como centros de sociabilidade, formação artística, educação musical e afirmação da identidade urbana.

A origem da Filarmônica Vitória está associada ao padre Ovídio Alves de São Boaventura, então vigário da Freguesia de Santana, personagem de forte presença social na cidade. A tradição histórica também registra a versão de que a corporação teria surgido após desentendimentos internos na Filarmônica 25 de Março, quando dissidentes se reuniram em torno do sacerdote para criar uma nova sociedade musical.

Uma instituição nascida no século XIX

A criação da Filarmônica Vitória ocorreu em um contexto de crescimento urbano, expansão comercial e consolidação institucional de Feira de Santana. Na segunda metade do século XIX, a cidade ampliava sua importância regional como entreposto comercial, ponto de circulação de mercadorias, pessoas e ideias, e centro de articulação política no interior da Bahia.

Nesse ambiente, as filarmônicas cumpriam função que ultrapassava o entretenimento. Elas organizavam músicos, formavam jovens instrumentistas, estruturavam repertórios, marcavam a solenidade dos atos públicos e ajudavam a estabelecer uma cultura urbana baseada em ritos, celebrações e símbolos coletivos. A música, naquele período, era também linguagem de pertencimento social.

Entre os nomes vinculados à trajetória inicial da Vitória estão Manoel Tranquilino Bastos, apontado como primeiro maestro da corporação, e Tertuliano Santos, lembrado como uma das figuras de maior destaque em seu comando. A presença desses mestres evidencia a importância pedagógica das filarmônicas, que atuavam como verdadeiras escolas musicais em um tempo no qual o acesso à educação artística formal era restrito.

Rua Conselheiro Franco concentra memória urbana e musical

A sede da Filarmônica Vitória foi edificada na antiga Rua Direita, atual Rua Conselheiro Franco, área central de Feira de Santana que concentra parte relevante da memória arquitetônica, comercial e cultural da cidade. A localização vizinha à Filarmônica 25 de Março reforçava a dimensão simbólica daquele trecho urbano, onde rivalidades, festas, bailes, ensaios e atos públicos ajudaram a compor a paisagem cultural feirense.

O imóvel da Vitória tornou-se referência não apenas pela atividade musical, mas também por sua função social. Ao longo do século XX, os salões da instituição receberam eventos, encontros, bailes e serestas. A partir da reforma realizada em 1979, durante a gestão de Celso Ribeiro Daltro, com apoio do então prefeito Colbert Martins, o clube passou a sediar serestas bastante frequentadas, consolidando uma nova etapa de sua presença na vida cultural da cidade.

A permanência do prédio no Centro, mesmo com o enfraquecimento da função original da filarmônica, manteve viva uma referência patrimonial. A edificação passou a simbolizar não apenas uma entidade musical, mas um modo de vida urbano no qual clubes, salões, bandas e espaços associativos organizavam parte significativa da convivência pública.

Participação em eventos históricos da cidade

A Filarmônica Vitória esteve vinculada a momentos relevantes da memória feirense. Em 1897, a entidade homenageou combatentes que retornaram da Guerra de Canudos, episódio de forte impacto na Bahia e no Brasil. A presença da corporação nesse ato evidencia como as filarmônicas eram convocadas para marcar acontecimentos de dimensão cívica, política e simbólica.

Em 1924, a Vitória integrou a programação da inauguração do palacete do coronel Agostinho Fróes da Motta, personagem importante da elite local. Três anos depois, em 1927, ao lado da Filarmônica 25 de Março, abriu o desfile estudantil que antecedeu a inauguração da Escola Normal de Feira de Santana, instituição ligada à formação educacional e ao projeto de modernização da cidade.

Outro marco ocorreu em 1973, durante as comemorações do centenário de emancipação política de Feira de Santana. Naquele ano, os salões da Filarmônica Vitória receberam o Baile dos Artistas, evento que abria oficialmente a tradicional Micareta de Feira de Santana. O episódio demonstra a capacidade da instituição de articular tradição musical, festa popular e vida associativa.

Maestros e memória musical

A história da Filarmônica Vitória também se confunde com a trajetória de músicos que dedicaram a vida à formação artística em Feira de Santana. Entre eles, destaca-se o maestro Antônio Aurélio da Silva, nascido em 31 de julho de 1887, em Feira de Santana, e reconhecido por sua atuação como compositor, instrumentista e formador de músicos.

Antônio Aurélio estudou música desde jovem, dominou instrumentos de cordas, sopro e percussão, compôs dobrados e marchas, e tornou-se maestro da Filarmônica Vitória. Sua atuação foi marcada pela dedicação à corporação e pela formação de novos músicos, entre eles Tertuliano Ferreira Santos, que também se destacaria na cena musical feirense.

A morte prematura de Antônio Aurélio, em 19 de março de 1920, durante uma epidemia de varíola, interrompeu uma trajetória relevante para a cultura local. O esquecimento parcial de seu nome revela uma das fragilidades recorrentes da memória urbana: a dificuldade de preservar, documentar e difundir a contribuição de artistas que ajudaram a construir a identidade cultural da cidade.

Desapropriação do prédio da Filarmônica Vitória e preservação patrimonial

O anúncio da desapropriação do prédio da Sociedade Filarmônica Vitória, feito pela Prefeitura de Feira de Santana em 26 de junho de 2026, recoloca o imóvel no centro do debate sobre preservação patrimonial. Segundo a gestão municipal, o casarão será restaurado e transformado no futuro Palácio das Academias, destinado a abrigar instituições ligadas às letras, artes, educação, história e memória do município.

A medida integra uma agenda mais ampla de requalificação do Centro, com ações voltadas à recuperação de prédios históricos, reorganização de equipamentos públicos e valorização de espaços culturais. A iniciativa dialoga com uma demanda antiga da sociedade feirense diante da deterioração de imóveis históricos, da pressão comercial sobre edificações antigas e da ausência, ao longo do tempo, de uma política permanente de conservação urbana.

A nova destinação do imóvel representa oportunidade institucional relevante, mas impõe responsabilidades públicas. A restauração não deve reduzir o casarão a um simples endereço administrativo de entidades culturais; precisa preservar a memória musical da Filarmônica Vitória, seus maestros, eventos, registros históricos e sua contribuição para a vida cívica de Feira de Santana. A tradição, nesse caso, não pode ser tratada como ornamento: deve orientar o novo uso do espaço e fortalecer a relação entre patrimônio, cultura e interesse público.

Presenças

Participaram da solenidade no Paço Maria Quitéria o presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana, Marcos Lima; os secretários municipais Carlos Brito, do Planejamento; Joilton Freitas, da Comunicação; e Neto Bahia, do Governo;  o arcebispo emérito Dom Itamar Vian; o procurador-geral do Município, Guga Leal; além de representantes das academias e instituições culturais feirenses, entre eles Dázio Brasileiro, José Raimundo Pereira de Azevedo, Lélia Vitor Fernandes, Cláudia Gomes e João Batista de Cerqueira. A agenda contou ainda com as presenças de Luiz Mercês Júnior, Alpiniano Reis de Oliveira Filho, Renê BekerGenildo Melo, representante da Associação Comercial, e demais lideranças de segmentos organizados da sociedade civil.

Reconstituição do Prédio histórico da Sociedade Filarmônica Vitória, em Feira de Santana.
Reconstituição do Prédio histórico da Sociedade Filarmônica Vitória, em Feira de Santana.
A Filarmônica Vitória, fundada em 1873 em Feira de Santana, integra a memória musical, social e urbana do município. Ligada ao padre Ovídio Alves de São Boaventura, a instituição participou de eventos históricos, formou músicos e ocupou prédio simbólico na Rua Conselheiro Franco. A desapropriação anunciada em 26/06/2026 para criação do Palácio das Academias recoloca o patrimônio no centro do debate público.
Prédio da Filarmônica Vitória, no Centro de Feira de Santana, será destinado ao Palácio das Academias e recoloca em evidência uma das instituições musicais mais antigas da cidade.


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