ONU aponta crise global de moradia que atinge 3 bilhões de pessoas e cobra novo pacto urbano

Um novo relatório das Nações Unidas divulgado nesta quinta-feira, 18/06/2026, aponta que cerca de 3 bilhões de pessoas enfrentam algum grau de crise habitacional no mundo, marcada por moradias inadequadas, preços inacessíveis, insegurança na posse da terra e falta de acesso a serviços urbanos essenciais. O Relatório Mundial das Cidades 2026 — Crise global de moradia: caminhos para ação, elaborado pelo ONU-Habitat, foi lançado durante a 13ª sessão do Fórum Urbano Mundial, realizada em Baku, no Azerbaijão, e defende a ampliação de investimentos, políticas públicas robustas e ação coordenada entre governos, setor privado e comunidades para enfrentar um dos principais desafios urbanos contemporâneos.

Relatório da ONU dimensiona alcance da crise habitacional

O documento afirma que a falta de moradia adequada e acessível já alcança quase 40% da população mundial, revelando uma crise de caráter estrutural, social, econômico e ambiental. A situação envolve preços imobiliários incompatíveis com a renda das famílias, escassez de unidades habitacionais, baixa qualidade das construções e ausência de infraestrutura básica, especialmente em áreas urbanas pressionadas pela expansão demográfica.

Segundo o relatório, as cidades deverão absorver cerca de 2 bilhões de novos habitantes até 2050, o que tende a ampliar a pressão sobre sistemas habitacionais já sobrecarregados. A rápida urbanização, o aumento do preço dos terrenos, a desigualdade econômica e os efeitos da mudança do clima aparecem como fatores centrais para o agravamento do problema.

O levantamento também projeta que eventos climáticos extremos poderão destruir 167 milhões de moradias até 2040. Em 2023, as catástrofes climáticas provocaram perdas estimadas em US$ 280 bilhões, em grande parte sem cobertura de seguro, o que evidencia a vulnerabilidade de famílias, cidades e governos diante da intensificação de desastres ambientais.

Deslocamentos, informalidade e precariedade ampliam vulnerabilidades

Até o final de 2024, 123,2 milhões de pessoas haviam sido deslocadas à força, número duas vezes maior que o registrado uma década antes. O relatório aponta que muitos desses deslocados chegam às cidades como refugiados, moradores de campos ou residentes em áreas informais, onde permanecem expostos a riscos de novos deslocamentos, insegurança fundiária e precariedade urbana.

O documento informa ainda que 64 milhões de pessoas foram removidas de assentamentos informais nos últimos 20 anos. Em países em desenvolvimento, a moradia informal pode representar até 80% das construções residenciais, o que demonstra que a informalidade não constitui fenômeno marginal, mas componente recorrente da urbanização contemporânea.

A ONU-Habitat sustenta que políticas baseadas apenas na erradicação de favelas e assentamentos informais tendem a aprofundar a exclusão. O relatório recomenda abandonar abordagens de remoção e substituí-las por estratégias de urbanização, regularização, melhoria da infraestrutura e participação comunitária, reconhecendo a presença consolidada desses territórios nas cidades.

Preços dos imóveis crescem acima da renda

A crise de acessibilidade é um dos pontos centrais do relatório. Os preços dos imóveis cresceram mais rapidamente que a renda na maior parte das regiões do mundo. Em escala global, a relação entre preço da moradia e renda passou de 9,3 em 2010 para 11,2 em 2023, atingindo 16,8 na Ásia Central e Meridional.

O acesso ao crédito habitacional também permanece limitado. Em 2023, apenas 25,5% dos solicitantes conseguiram obter financiamento para moradia em nível global. Em algumas regiões da África Subsaariana, esse índice caiu para cerca de 1%, reflexo de mercados hipotecários ainda pouco desenvolvidos e de renda insuficiente para atender às exigências financeiras.

A sobrecarga com aluguel é outro indicador da dimensão social da crise. No mundo, 44% dos domicílios destinam mais de 30% da renda à moradia. A situação é mais grave na África Subsaariana, onde 55% dos inquilinos enfrentam sobrecarga financeira, o que reduz a capacidade das famílias de custear alimentação, transporte, educação, saúde e outros serviços essenciais.

ONU-Habitat defende novo contrato social para a moradia

O ONU-Habitat, agência das Nações Unidas dedicada à habitação sustentável e ao desenvolvimento urbano, conclui que a crise global de moradia é multidimensional e sustentada por fatores estruturais. O relatório associa o problema a mudanças demográficas, pressões ambientais, desigualdades econômicas, deslocamentos forçados, pobreza urbana e impactos da mudança do clima.

A subsecretária-geral das Nações Unidas e diretora-executiva do ONU-Habitat, Anacláudia Rossbach, afirma que o enfrentamento da crise exige um novo pacto entre Estado, mercado e sociedade. Segundo ela, é necessário construir um “novo contrato social para a moradia adequada e acessível”, baseado em responsabilidade compartilhada entre governos, setor privado e comunidades.

A chefe do escritório do ONU-Habitat para o Brasil, Rayne Ferretti Moraes, destacou que, embora a crise tenha escala global, as soluções passam pelos territórios. Para ela, o Brasil precisa fortalecer políticas urbanas capazes de reconhecer as diferentes realidades das cidades e promover o acesso à moradia adequada como parte do direito à cidade.

Financiamento público e investimento privado são apontados como caminhos

O relatório recomenda a ampliação e o melhor direcionamento dos mecanismos de financiamento doméstico em todos os níveis de governo. A orientação é que recursos nacionais, regionais e locais sejam aplicados de forma mais eficaz em subsídios voltados tanto à demanda quanto à oferta habitacional.

A ONU-Habitat defende uma expansão substancial dos investimentos públicos em habitação social e acessível, combinada à criação de incentivos para investimentos privados que ampliem a oferta de moradias populares. O desafio, segundo o documento, é alinhar a função econômica da habitação à sua função social.

Essa diretriz implica tratar moradia não apenas como ativo financeiro ou produto imobiliário, mas como infraestrutura social indispensável para inclusão, segurança, mobilidade, acesso ao trabalho, redução da pobreza e resiliência urbana. O relatório sustenta que a habitação adequada deve ser entendida como base para a garantia de outros direitos e para o funcionamento equilibrado das cidades.

Participação comunitária é considerada eixo central

A participação das comunidades é apresentada como elemento indispensável para a formulação e execução de políticas habitacionais. O relatório defende a coprodução de projetos urbanos, com envolvimento direto de moradores antes e depois da ocupação das unidades habitacionais.

A ONU-Habitat destaca a necessidade de incluir grupos historicamente excluídos, com atenção especial a meninas, mulheres, populações deslocadas, famílias de baixa renda e moradores de assentamentos informais. A escuta social é tratada como instrumento de eficiência, legitimidade e adequação territorial das políticas públicas.

Para a agência, soluções habitacionais desenhadas sem participação das comunidades correm maior risco de fracasso, inadequação cultural, rejeição social ou reprodução de desigualdades. A construção de cidades sustentáveis depende, portanto, da integração entre conhecimento técnico, atuação territorial e governança participativa.

Fórum Urbano Mundial reforça debate sobre urbanização sustentável

O relatório foi publicado durante a 13ª sessão do Fórum Urbano Mundial, realizada em Baku, no Azerbaijão, entre os dias 17 e 22 de maio de 2026. Criado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2001 e organizado pelo ONU-Habitat, o fórum é a principal conferência global dedicada à urbanização sustentável.

Realizado a cada dois anos, o encontro reúne governos, especialistas, representantes da sociedade civil, setor privado e comunidades para discutir os impactos da urbanização sobre cidades, economias, mudanças climáticas e qualidade de vida. A primeira edição ocorreu em Nairóbi, no Quênia, em 2002.

Na edição de 2026, a moradia foi colocada no centro da agenda urbana internacional. O diagnóstico do relatório indica que enfrentar a crise habitacional exige respostas integradas, com planejamento urbano, financiamento, regulação fundiária, infraestrutura, resiliência climática e participação social.

Impactos para o Brasil e para as cidades em desenvolvimento

O relatório tem relevância direta para países como o Brasil, onde desigualdades territoriais, déficit habitacional, expansão de periferias urbanas, informalidade fundiária e carência de infraestrutura permanecem como desafios persistentes. A crise global de moradia encontra expressão local em favelas, ocupações urbanas, loteamentos irregulares, áreas de risco e sobrecarga com aluguel.

O documento reforça que políticas habitacionais não devem ser tratadas de forma isolada. Moradia adequada depende de saneamento, transporte público, segurança, equipamentos urbanos, regularização fundiária, acesso ao trabalho e proteção ambiental. Sem essa integração, programas habitacionais podem produzir unidades formais, mas desconectadas das necessidades sociais e econômicas da população.

No caso brasileiro, a mensagem institucional do ONU-Habitat converge com a necessidade de fortalecer políticas urbanas de longo prazo, articuladas entre União, estados, municípios e comunidades. A crise habitacional, por sua escala, não comporta soluções episódicas nem respostas exclusivamente voltadas ao mercado imobiliário.


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