Presença de integrantes do Comando Vermelho na Ucrânia pode ampliar disputas entre facções e fortalecer redes criminosas, aponta especialista

A possível participação de integrantes do Comando Vermelho (CV) no conflito entre Rússia e Ucrânia voltou a gerar discussões sobre os efeitos que a experiência adquirida em zonas de guerra pode ter sobre a segurança pública brasileira. Investigações conduzidas pela Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro indicam que integrantes da facção teriam recebido apoio para atuar como mercenários no cenário de guerra, reacendendo preocupações sobre o eventual retorno desses indivíduos ao país.

Segundo o pesquisador Thales Cruz, mestrando em Sociologia e bacharel em Segurança Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF), a principal consequência pode estar relacionada ao fortalecimento das disputas territoriais entre organizações criminosas que atuam no Rio de Janeiro.

Em entrevista à Sputnik Brasil, o especialista afirmou que a experiência adquirida em ambientes de combate pode contribuir para a incorporação de novos conhecimentos operacionais, especialmente no uso de tecnologias e estratégias militares já observadas em conflitos internacionais.

Conhecimento adquirido em guerra pode influenciar disputas territoriais

De acordo com o pesquisador, a participação de integrantes do Comando Vermelho em áreas de conflito pode resultar em mudanças nas dinâmicas de enfrentamento entre facções criminosas que disputam territórios no estado do Rio de Janeiro.

Segundo ele, a adoção de técnicas relacionadas ao uso de drones e outras ferramentas de monitoramento e combate pode impactar as relações entre o CV e grupos rivais, como o Terceiro Comando Puro (TCP), a Amigos dos Amigos (ADA) e organizações ligadas às milícias.

O especialista ressalta, entretanto, que eventuais mudanças não significam necessariamente uma transformação imediata no cenário da segurança pública, mas podem representar adaptações graduais na forma como as facções exercem controle territorial.

Especialista avalia impacto limitado sobre confrontos com forças de segurança

Apesar da possibilidade de transferência de conhecimentos adquiridos em um ambiente de guerra, Thales Cruz considera que o intercâmbio não deve alterar significativamente a capacidade operacional das forças de segurança no enfrentamento ao crime organizado.

Segundo ele, experiências anteriores demonstram que operações planejadas e coordenadas continuam sendo capazes de recuperar áreas sob influência de organizações criminosas, mesmo diante do fortalecimento bélico desses grupos.

O pesquisador cita como exemplo a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que conseguiram estabelecer presença estatal em territórios anteriormente controlados pelo Comando Vermelho, mediante planejamento e atuação integrada das forças de segurança.

Investigação aponta possível internacionalização de atividades criminosas

Outro aspecto destacado pelo especialista envolve a possibilidade de ampliação das conexões internacionais da facção. Segundo sua análise, o envio de integrantes para a Ucrânia pode estar relacionado não apenas ao treinamento militar, mas também à construção de redes voltadas a atividades ilícitas.

A avaliação considera que a presença de faccionados em território estrangeiro pode facilitar contatos, abrir novas oportunidades de atuação transnacional e ampliar conexões utilizadas em operações criminosas.

Para o pesquisador, o fenômeno deve ser analisado sob uma perspectiva econômica, considerando que organizações criminosas vêm ampliando suas estruturas de atuação para além dos mercados tradicionais relacionados ao tráfico de drogas e armas.

Expansão financeira é apontada como estratégia das facções

Thales Cruz argumenta que o crime organizado brasileiro passou por um processo de diversificação econômica nos últimos anos. Segundo ele, facções criminosas utilizam mecanismos financeiros para inserir recursos de origem ilícita em atividades formais e dificultar o rastreamento por parte das autoridades.

Nesse contexto, a expansão de contatos internacionais pode contribuir para a ampliação dessas estruturas e para a criação de novos canais de movimentação financeira.

O pesquisador afirma que a própria logística necessária para deslocar integrantes até uma zona de guerra já sugere a existência de uma rede organizada de contatos e suporte, embora as investigações ainda estejam em andamento.

Facção é descrita como organização em constante adaptação

Na avaliação do especialista, a estratégia atribuída ao Comando Vermelho reflete um processo contínuo de adaptação operacional da organização criminosa. Historicamente, segundo ele, a facção tem buscado novas formas de ampliar sua capacidade de enfrentamento e diversificar seu acesso a armamentos.

O pesquisador destaca que a experiência de combate adquirida por militares envolvidos diretamente em conflitos armados é diferente daquela observada em confrontos urbanos relacionados ao tráfico de drogas.

Por essa razão, ele considera plausível que organizações criminosas busquem incorporar indivíduos com experiência militar adquirida em cenários de guerra, caso tenham condições de estabelecer esse tipo de conexão internacional.

Polícia investiga possíveis ligações entre faccionados e o conflito

As investigações sobre a presença de integrantes do Comando Vermelho na Ucrânia ganharam repercussão após a divulgação de informações que apontam para viagens realizadas por suspeitos ligados à facção desde 2023.

Entre os casos investigados está o de Philippe Marques Pinto, apontado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro como suspeito de integrar a organização criminosa e de ter realizado deslocamentos para a Ucrânia.

Até a publicação das informações, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro não havia se manifestado oficialmente sobre o tema, apesar de ter sido procurada pela reportagem. O órgão informou que eventual posicionamento poderá ser incorporado posteriormente às investigações em andamento.

*Com informações da Sputnik News.


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