Crise na Fifa se amplia com renúncia de conselheiro, oposição da AFC e ameaça de boicote da Uefa ao plano de investimentos

A crise envolvendo a Fifa e o projeto Fifa Forward Enterprise (FFE) ganhou novos desdobramentos na sexta-feira (31/07/2026). A Confederação Asiática de Futebol (AFC) manifestou oposição ao plano que prevê a entrada de investidores privados na futura empresa responsável pela exploração comercial da entidade. No mesmo dia, Carlos Cordeiro, conselheiro sênior do presidente Gianni Infantino, anunciou sua renúncia ao cargo.

Os acontecimentos ampliam a pressão sobre a administração da Fifa poucos dias após a Uefa ameaçar boicotar futuras competições organizadas pela entidade, incluindo a Copa do Mundo, caso o projeto não seja retirado. A Concacaf também já havia rejeitado oficialmente a proposta.

O plano prevê a criação da Fifa Forward Enterprise, empresa que administraria ativos comerciais e eventos da organização. A expectativa é captar até US$ 4,2 bilhões (mais de R$ 21,4 bilhões) por meio da venda de aproximadamente 20% de participação minoritária para investidores privados.

AFC reforça oposição e pede revisão da governança da Fifa

A Confederação Asiática de Futebol (AFC), composta por 47 associações nacionais, declarou apoio às posições defendidas pela Uefa e pela Concacaf. Segundo a entidade, o projeto não reúne o consenso necessário para avançar entre as federações filiadas.

Além da oposição ao modelo de investimento, a AFC solicitou uma revisão urgente da estrutura de governança da Fifa, ampliando o debate sobre o processo de tomada de decisões da entidade.

O projeto foi apresentado pela Fifa na terça-feira (29/07/2026) e, desde então, passou a receber críticas tanto pelo conteúdo quanto pela forma como foi divulgado às federações.

Renúncia de Carlos Cordeiro amplia desgaste interno

Outro fator que aumentou a pressão sobre a administração da Fifa foi a saída de Carlos Cordeiro, conselheiro sênior de Gianni Infantino e ex-dirigente do futebol norte-americano.

Ao anunciar sua renúncia, Cordeiro afirmou que a venda de participação permanente no principal ativo comercial da entidade representa um comprometimento do futuro financeiro do futebol mundial. Segundo ele, captar US$ 4,2 bilhões por meio da operação não apresenta justificativa suficiente para abrir espaço permanente ao capital privado.

A manifestação de um integrante próximo ao presidente da Fifa passou a ser interpretada como mais um sinal das divergências internas sobre o projeto.

Uefa mantém posição e Concacaf rejeita proposta

Na quinta-feira (30/07/2026), a Uefa, responsável por representar 55 federações nacionais, divulgou posicionamento conjunto classificando o projeto como incompatível com o modelo atual de governança da entidade.

A organização europeia informou que poderá boicotar futuras competições organizadas pela Fifa, incluindo a Copa do Mundo, caso o projeto avance sem alterações.

A Concacaf, que reúne 41 federações da América do Norte, América Central e Caribe, também rejeitou oficialmente a proposta. Já as confederações da África e da Oceania adotaram posição mais cautelosa, orientando suas associações a analisarem o conteúdo antes da votação.

Governo britânico também critica proposta

A discussão ultrapassou o ambiente esportivo e alcançou autoridades políticas. O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, classificou a iniciativa como uma “proposta ultrajante” e afirmou que Gianni Infantino não seria a pessoa adequada para conduzir o futebol mundial diante da atual situação.

As declarações ampliaram a repercussão internacional do projeto, que já vinha sendo debatido por dirigentes e federações desde sua apresentação.

Em resposta às críticas, a Fifa publicou um comunicado oficial na sexta-feira (31/07/2026) afirmando que “ninguém está vendendo o futebol”. A entidade declarou que continuará conduzindo uma consulta aberta entre as associações-membro antes de qualquer decisão definitiva.

Como funcionaria a Fifa Forward Enterprise

Caso seja aprovada, a nova empresa será responsável pela administração dos direitos comerciais e dos eventos da Fifa.

Os investidores privados poderão adquirir aproximadamente 20% das ações, permanecendo como acionistas minoritários. O objetivo financeiro da operação é arrecadar até US$ 4,2 bilhões, valor calculado com base na avaliação de mercado da futura companhia.

Entre os potenciais investidores citados por críticos está o fundo Thrive Eternal, criado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A possibilidade ganhou repercussão em razão da relação institucional mantida por Gianni Infantino com autoridades norte-americanas durante eventos recentes da Fifa.

Pagamentos às federações e votação até setembro

De acordo com a proposta apresentada pela Fifa, cada uma das 211 associações nacionais poderá receber US$ 20 milhões (mais de R$ 100 milhões) em pagamento único no início de 2027, além da previsão de aumento na distribuição de recursos até 2030.

A presidente da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness, criticou a proposta e afirmou que a oferta financeira representa uma forma de pressão sobre as federações durante o processo de votação.

Segundo carta enviada por Gianni Infantino às associações nacionais, as federações terão até 19 de setembro de 2026 para manifestar seu posicionamento. A Fifa informou que a iniciativa somente será implementada caso obtenha apoio da maioria das entidades filiadas.

O cronograma ocorre poucos meses antes da eleição presidencial da Fifa, marcada para março de 2027, quando Gianni Infantino busca novo mandato e, até o momento, permanece como único candidato oficialmente declarado.

*Com informações da RFI.


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