Fifa avalia Copa do Mundo com 64 seleções em 2030 e enfrenta resistência por impactos esportivos e logísticos

Nesta segunda-feira (13/07/2026), a discussão sobre uma possível Copa do Mundo com 64 seleções ganhou novo impulso após o presidente da Federação Internacional de Futebol — Fifa —, Gianni Infantino, confirmar que a proposta será examinada pelos comitês competentes depois da edição de 2026. A ampliação, defendida como instrumento de inclusão de países com menor tradição no futebol, poderia ser adotada já no Mundial de 2030, disputado em seis países de três continentes, mas enfrenta resistência de dirigentes da Europa, Ásia e América do Norte por seus possíveis efeitos sobre a qualidade técnica, as eliminatórias, o calendário internacional e a capacidade operacional dos anfitriões. Até o momento, não existe decisão oficial, formato aprovado ou cronograma para votação.

Infantino defende maior inclusão de países no Mundial

Infantino afirmou que a possibilidade de uma nova expansão será analisada após a conclusão da primeira Copa masculina disputada por 48 seleções, realizada em 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México. Segundo o dirigente, o principal torneio da modalidade deve ser organizado “para o mundo todo”, permitindo que países de diferentes continentes tenham condições reais de disputar uma vaga e desenvolver suas estruturas esportivas.

O presidente da entidade sustenta que a presença de um número maior de participantes não provocou a queda generalizada da qualidade técnica que parte dos críticos previa. Como exemplo, destacou o desempenho das seleções africanas: nove das dez representantes do continente avançaram às fases eliminatórias do Mundial de 2026, enquanto apenas cinco países africanos disputavam cada edição no antigo modelo de 32 equipes.

Na avaliação apresentada por Infantino, impedir o acesso de associações menores pode reduzir os incentivos para investimentos em formação de atletas, infraestrutura, competições nacionais e profissionalização das federações. A lógica defendida pela direção da Fifa é que a participação em uma Copa do Mundo aumenta receitas, visibilidade internacional e interesse público pelo futebol nos países classificados.

A ampliação, entretanto, também representa uma transformação profunda na natureza da competição. Uma Copa com 64 participantes reuniria aproximadamente 30% das 211 associações filiadas à Fifa, fazendo com que quase um terço dos membros da entidade alcançasse a fase final do principal torneio do futebol mundial.

Copa de 2026 marcou a primeira expansão desde 1998

A Copa do Mundo manteve o formato de 32 seleções entre 1998 e 2022. A mudança para 48 participantes foi aprovada por unanimidade pelo Conselho da Fifa em janeiro de 2017, menos de um ano depois de Infantino assumir a presidência da entidade. A decisão entrou em vigor na edição de 2026.

O planejamento original previa 16 grupos de três equipes, mas a fórmula foi posteriormente alterada. O Mundial de 2026 passou a contar com 12 grupos de quatro seleções, dos quais avançaram os dois primeiros colocados e os oito melhores terceiros. A inclusão de uma fase de 32 avos de final elevou o total da competição para 104 partidas, em comparação com as 64 disputadas no formato anterior.

Caso a Fifa adotasse um modelo com 64 participantes divididos em 16 grupos de quatro, com os dois primeiros avançando para um mata-mata de 32 equipes, o campeonato poderia alcançar 128 jogos. Essa configuração, contudo, é apenas uma projeção estrutural. A entidade não apresentou oficialmente a distribuição das vagas, o sistema classificatório, a duração do torneio ou os critérios de formação dos grupos.

Uma nova ampliação exigiria a revisão das eliminatórias continentais. Confederações e associações nacionais precisariam negociar quantas vagas adicionais seriam destinadas à Europa, América do Sul, África, Ásia, América do Norte, América Central, Caribe e Oceania, além de definir a eventual manutenção da repescagem intercontinental.

Proposta da Conmebol coloca Mundial de 2030 no centro do debate

A proposta formal de uma Copa com 64 seleções foi apresentada pela Confederação Sul-Americana de Futebol — Conmebol — em abril de 2025. A entidade argumentou que a ampliação tornaria excepcional a edição do centenário, marcada para 2030, cem anos depois do primeiro Mundial, realizado no Uruguai.

A competição será sediada principalmente por Espanha, Portugal e Marrocos. Argentina, Paraguai e Uruguai receberão uma partida comemorativa cada, como parte das celebrações históricas relacionadas à origem do torneio. A configuração fará de 2030 a primeira Copa distribuída entre seis países e três continentes.

A expansão poderia ampliar a participação sul-americana na organização. Em vez de receberem apenas três partidas comemorativas, Argentina, Paraguai e Uruguai poderiam reivindicar grupos completos ou um número maior de jogos, embora nenhuma alteração desse tipo tenha sido aprovada.

Esse possível redesenho exigiria novos estudos sobre deslocamentos, concentração das seleções, centros de treinamento, hospedagem, segurança, operações de imprensa, transporte de torcedores e compatibilidade entre fusos horários. A realização de partidas na América do Sul, Europa e África já representa uma operação sem precedentes, mesmo sob o atual formato de 48 participantes.

Uefa, AFC e Concacaf manifestam oposição

A proposta encontrou resistência nas principais confederações internacionais. O presidente da União das Associações Europeias de Futebol — Uefa —, Aleksander Ceferin, classificou a expansão como uma “má ideia” tanto para a fase final quanto para as eliminatórias europeias. Segundo ele, o aumento excessivo do número de vagas poderia reduzir o valor esportivo do processo classificatório.

O presidente da Confederação Asiática de Futebol — AFC —, Sheikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa, também se posicionou contra a proposta e advertiu que uma nova ampliação poderia provocar “caos” na organização do calendário e na distribuição das vagas.

Na Concacaf, o presidente Victor Montagliani afirmou que o modelo não lhe parecia adequado e poderia prejudicar o “ecossistema do futebol”. A crítica considera não apenas a Copa, mas também as competições continentais, as datas reservadas às seleções e o calendário dos clubes.

Os opositores argumentam que a classificação para o Mundial deve permanecer suficientemente seletiva para preservar o valor esportivo das eliminatórias. Uma oferta muito ampla de vagas, segundo essa avaliação, poderia diminuir a importância de partidas classificatórias, enfraquecer competições regionais e aumentar o número de confrontos tecnicamente desequilibrados na fase de grupos.

Os defensores da expansão respondem que avaliações semelhantes foram feitas antes da adoção do formato com 48 participantes e que o desempenho de seleções emergentes em 2026 demonstrou uma maior difusão da competitividade internacional. A experiência do torneio atual deverá ser utilizada pela Fifa como referência para medir audiência, equilíbrio técnico, arrecadação, público nos estádios e repercussão nos países estreantes.

Logística e calendário constituem principais obstáculos

Quanto maior a competição, maior é a necessidade de estádios, centros de treinamento, equipes de segurança, serviços médicos, hospedagem, transporte e infraestrutura de comunicação. A ampliação de 104 para uma possível programação de 128 jogos exigiria mais datas ou a realização simultânea de um número maior de partidas.

O aumento também teria consequências sobre o período de preparação das seleções e o intervalo de descanso dos jogadores. Clubes e sindicatos de atletas já manifestam preocupação com a concentração de torneios, viagens internacionais e compromissos comerciais no calendário mundial.

A organização de 2030 possui complexidade adicional porque as partidas estarão distribuídas entre territórios separados pelo Oceano Atlântico. Ainda não estão definidos todos os detalhes sobre os deslocamentos entre os jogos comemorativos sul-americanos e a sequência da competição na Europa e no norte da África.

O desafio poderia ser ainda maior caso o formato de 64 seleções deixasse de ser excepcional e se tornasse permanente. A Copa de 2034 será realizada na Arábia Saudita, escolhida como anfitriã única. O projeto aprovado considera atualmente um Mundial com 48 participantes, e qualquer mudança estrutural exigiria uma revisão substancial da capacidade operacional, dos estádios e do cronograma.

Mais participantes também significam maior receita

Uma Copa do Mundo ampliada oferece à Fifa maior volume de conteúdo para transmissão, mais ingressos, novos mercados consumidores e oportunidades adicionais de patrocínio e hospitalidade. O crescimento da receita também amplia os recursos potencialmente distribuídos às associações participantes e aos programas de desenvolvimento administrados pela entidade.

A dimensão econômica, contudo, não se limita à arrecadação da Fifa. Países-sede precisam assumir ou negociar investimentos em mobilidade, segurança, telecomunicações, instalações esportivas e serviços públicos. Quanto maior o número de jogos e delegações, maior tende a ser a pressão sobre os orçamentos e as estruturas locais.

A discussão também possui uma dimensão política interna. Cada associação nacional possui representação no Congresso da Fifa, e a possibilidade de participar de uma Copa pode fortalecer o apoio de federações menores à administração da entidade. Por essa razão, propostas de expansão precisam ser avaliadas simultaneamente sob os critérios esportivo, financeiro e de governança.

A inclusão de 16 novas seleções aumentaria o número de países diretamente beneficiados por premiações, receitas comerciais, programas preparatórios e exposição internacional. Por outro lado, a distribuição dos recursos e das vagas poderá provocar disputas entre as confederações, especialmente se o novo modelo alterar o equilíbrio atualmente estabelecido.

Conselho da Fifa terá a palavra final

Infantino informou que os comitês competentes examinarão a proposta após o encerramento da Copa de 2026. Esses órgãos deverão avaliar modelos de competição, calendário, viabilidade financeira, infraestrutura, critérios classificatórios e efeitos sobre os torneios continentais.

A decisão final caberá ao Conselho da Fifa, responsável por estabelecer os formatos das competições organizadas pela entidade. Não há indicação de que uma votação ocorrerá imediatamente, e a direção mantém oficialmente a posição de consultar confederações, associações nacionais, organizadores e demais partes interessadas.

Também permanece indefinido se a proposta está restrita ao centenário de 2030 ou se poderia estabelecer um formato permanente. Essa distinção será determinante para as discussões com a Arábia Saudita, sede de 2034, e com futuros candidatos à organização do torneio.


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