Ondas de calor avançam no Brasil e estudo aponta 120 mil mortes em 20 anos; Especialistas cobram políticas públicas

As ondas de calor estão se tornando mais frequentes e intensas no Brasil, acompanhando uma tendência observada em diferentes regiões do mundo e reforçada pelos recentes episódios registrados na Europa. Especialistas afirmam que, apesar de o país possuir clima predominantemente tropical, o fenômeno é frequentemente tratado como parte da normalidade, o que dificulta o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à prevenção dos impactos na saúde e no meio ambiente.

De acordo com especialistas, uma onda de calor é caracterizada por um período de pelo menos cinco dias consecutivos, em que as temperaturas permanecem 5°C ou mais acima da média registrada ao longo de 30 anos para determinada região. Embora esses eventos sempre tenham ocorrido, estudos apontam que sua frequência e intensidade aumentaram em decorrência das mudanças climáticas.

No Brasil, expressões como “calorão”, “veranico de outono” ou “veranico de inverno” costumam ser utilizadas para descrever episódios de temperaturas elevadas. Entretanto, pesquisadores alertam que a percepção de normalidade reduz a atenção para os riscos à saúde pública, diferentemente do que ocorre em países europeus, onde os efeitos das ondas de calor recebem maior monitoramento.

Especialistas apontam crescimento sistemático das ondas de calor

Segundo Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), as ondas de calor apresentam características específicas em países tropicais como o Brasil.

De acordo com o especialista, esses episódios costumam combinar temperaturas muito elevadas e baixa umidade relativa do ar, criando condições que aumentam os riscos para a saúde da população.

Seluchi afirma que todos os estados brasileiros, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, registram aumento sistemático no número de ondas de calor nas últimas quatro a cinco décadas. Ele destaca que os episódios mais críticos costumam ocorrer entre setembro, outubro e novembro, período em que a baixa umidade potencializa os efeitos das altas temperaturas.

El Niño amplia os efeitos do aquecimento

Além das mudanças climáticas, especialistas destacam que fenômenos naturais também influenciam a ocorrência das ondas de calor. Um dos principais fatores é o El Niño, caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico.

Segundo Marcelo Seluchi, o aquecimento do oceano funciona como uma fonte adicional de calor para a atmosfera, favorecendo temperaturas mais elevadas e ampliando a frequência desses eventos extremos.

Os impactos vão além do desconforto térmico. As ondas de calor favorecem incêndios florestais, reduzem a qualidade do ar, agravam doenças respiratórias, intensificam períodos de seca, diminuem os níveis dos reservatórios e afetam o abastecimento de água e a produção agrícola.

Pesquisa identifica 120 mil mortes associadas ao calor extremo

Um estudo inédito realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Universidade da Bahia identificou que 120 mil pessoas morreram no Brasil nos últimos 20 anos em decorrência dos efeitos das altas temperaturas.

A pesquisa analisou dados de mortalidade e internações por doenças cardiovasculares e do aparelho circulatório registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) em quase todos os municípios brasileiros, relacionando essas informações aos períodos de calor extremo.

Para Beatriz Oliveira, especialista em saúde pública da Fiocruz e coordenadora do estudo, o país tende a subestimar o problema por associar o calor ao clima tropical. Segundo ela, o reconhecimento das ondas de calor como questão de saúde pública é um passo necessário para ampliar medidas de prevenção.

Idosos, crianças e mulheres estão entre os grupos mais vulneráveis

O levantamento mostra que os idosos representam o grupo mais vulnerável às consequências das ondas de calor, tanto em relação às internações quanto ao risco de mortalidade.

Na sequência aparecem crianças e mulheres, considerados grupos prioritários para ações preventivas durante períodos prolongados de temperaturas extremas.

Segundo Beatriz Oliveira, moradores de pequenos municípios enfrentam desafios adicionais devido à menor capacidade de adaptação ao calor extremo, tornando necessária a implementação de estratégias voltadas à redução da exposição da população.

Arborização urbana e infraestrutura estão entre as medidas propostas

Entre as medidas sugeridas pelos pesquisadores estão o investimento em arborização urbana, ampliação de áreas de sombra, melhoria da ventilação das residências e utilização de materiais construtivos que reduzam a absorção de calor.

Também são apontadas como importantes a ampliação da oferta de transporte público climatizado e a criação de estruturas protegidas da exposição solar em pontos de embarque e circulação de pessoas.

Os especialistas avaliam que a adaptação das cidades será um dos principais desafios diante do aumento da frequência das ondas de calor nas próximas décadas.

Registros históricos reforçam tendência de aquecimento global

Nas últimas semanas, episódios de calor extremo registrados na Europa e nos Estados Unidos estimularam a circulação de interpretações que questionam o aquecimento global. Especialistas, entretanto, afirmam que essas hipóteses não encontram respaldo na literatura científica.

Marcelo Seluchi destaca que os registros climáticos dos últimos três séculos mostram oscilações naturais do clima, mas evidenciam um aumento acelerado da temperatura média global nos últimos 100 a 120 anos, associado principalmente às emissões de gases de efeito estufa decorrentes da industrialização e do consumo de energia.

Segundo o pesquisador, a velocidade atual do aquecimento supera projeções formuladas em décadas anteriores, reforçando a necessidade de adaptação das cidades e de políticas públicas voltadas à mitigação dos impactos climáticos e à proteção da população.

*Com informações da RFI.


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