A análise publicada pela revista Foreign Affairs sob o título As Falhas no Sistema de Energia da China: Os Estados Unidos precisam construir — e usar — influência contra Pequim, assinada por Ely Ratner e Nick Danby, recoloca a disputa entre Estados Unidos e China no centro da agenda geopolítica internacional ao sustentar que Washington precisa construir instrumentos de pressão mais consistentes contra Pequim. O artigo, divulgado em 10/06/2026, interpreta a guerra comercial de 2025 como evidência de que a capacidade chinesa de usar terras raras, cadeias industriais e dependências tecnológicas como instrumentos de barganha superou, em momentos decisivos, a capacidade americana de resposta estratégica.
A tese central apresentada por Ratner e Danby é que a disputa entre as duas maiores economias do mundo deixou de ser apenas uma controvérsia tarifária. Para os autores, o episódio envolvendo tarifas americanas e controles chineses sobre minerais críticos revelou uma assimetria de preparação: Pequim teria identificado pontos de pressão sobre Washington, enquanto os Estados Unidos teriam demorado a desenvolver instrumentos equivalentes contra vulnerabilidades chinesas.
O contexto imediato remonta a 02/04/2025, quando o governo de Donald Trump anunciou uma ampla política de tarifas recíprocas, formalizada por ordem executiva da Casa Branca. A medida elevou a tensão comercial global e atingiu diretamente a China, em meio ao esforço americano de reduzir déficits comerciais e reposicionar cadeias produtivas consideradas estratégicas.
Dois dias depois, em 04/04/2025, o Ministério do Comércio da China anunciou controles de exportação sobre itens relacionados a terras raras médias e pesadas, condicionando remessas ao exterior à obtenção de licenças. A decisão foi apresentada por Pequim como medida de segurança nacional, mas passou a ser lida por analistas ocidentais como demonstração de poder coercitivo sobre cadeias industriais sensíveis.
Terras raras transformam dependência industrial em instrumento de pressão
As terras raras são um conjunto de elementos essenciais para setores como defesa, veículos elétricos, energia limpa, eletrônicos, semicondutores e equipamentos militares. A relevância política desses minerais decorre menos de sua raridade geológica e mais da concentração de etapas críticas de processamento, refino e fabricação em território chinês ou sob influência de empresas chinesas.
Reportagem da Reuters registrou que a China responde por cerca de 90% das terras raras refinadas no mundo e que os controles anunciados em abril de 2025 atingiram categorias como samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio. A medida não representou uma proibição total de exportações, mas criou um regime de licenciamento capaz de gerar incerteza para compradores estrangeiros e setores industriais dependentes desses insumos.
A Agência Internacional de Energia também apontou que controles chineses posteriores, anunciados em outubro de 2025, ampliaram preocupações sobre a concentração de minerais críticos em cadeias globais de energia, defesa, semicondutores, aeroespacial, motores industriais e centros de dados de inteligência artificial. O episódio reforçou a percepção de que a competição tecnológica entre Washington e Pequim passou a depender de gargalos produtivos altamente especializados.
Autores defendem criação de alavancas contra vulnerabilidades chinesas
Ratner e Danby argumentam que a resposta americana não deve se limitar à redução de dependências internas ou à reconstrução de capacidades industriais domésticas. Segundo o resumo público divulgado por Ely Ratner, os Estados Unidos deveriam atuar em três frentes: restringir capacidades chinesas que ameacem interesses vitais americanos, preparar opções de dissuasão capazes de impor custos elevados em crises e expor práticas coercitivas ou encobertas de Pequim.
Entre os pontos de vulnerabilidade citados pelos autores estão a dependência chinesa do dólar, de energia importada, de mercados externos, de tecnologia avançada que o país ainda não domina integralmente e de operações de influência que dependem de baixa visibilidade pública. A proposta não equivale, no texto, a uma defesa de confronto militar direto, mas a uma estratégia de competição prolongada, baseada em instrumentos econômicos, tecnológicos, diplomáticos e informacionais.
O perfil dos autores ajuda a explicar o enquadramento estratégico do artigo. Ely Ratner foi secretário-assistente de Defesa dos Estados Unidos para Assuntos de Segurança do Indo-Pacífico entre 2021 e 2025 e atua como principal da Marathon Initiative. Nick Danby é associado de pesquisa da mesma instituição e já serviu como oficial de inteligência naval dos EUA.
Economia chinesa combina força industrial e fragilidades estruturais
A análise da Foreign Affairs não sustenta que a China esteja à beira de colapso, mas enfatiza que o poder chinês convive com vulnerabilidades internas e externas. Essa leitura encontra paralelo em avaliações recentes de organismos multilaterais, que apontam desafios como demanda doméstica fraca, crise prolongada no setor imobiliário, endividamento local, envelhecimento populacional e necessidade de reequilibrar o crescimento para o consumo.
O Banco Mundial observou, em atualização econômica sobre a China, que a desaceleração do crescimento decorre de fatores estruturais, incluindo baixo consumo, dívidas elevadas de incorporadoras e governos locais e envelhecimento da população. O Fundo Monetário Internacional também defendeu, em 2026, maior apoio ao consumo e ao setor imobiliário como parte do esforço para reduzir pressões deflacionárias e reequilibrar a economia chinesa.
Esses elementos não anulam a capacidade industrial, financeira e militar de Pequim, mas indicam que a ascensão chinesa ocorre em ambiente de custos crescentes. Para Washington, segundo a perspectiva dos autores, a questão central é transformar essas fragilidades em instrumentos de negociação e dissuasão, sem provocar uma escalada descontrolada que comprometa a estabilidade econômica global.
Estratégia americana tenta conciliar dissuasão e estabilidade
A tensão entre pressão e estabilidade aparece também na Estratégia Nacional de Defesa dos EUA de 2026, que preserva a China como prioridade no Indo-Pacífico, mas enfatiza diálogo militar, redução de riscos, estabilidade estratégica e dissuasão por força. O documento aponta a necessidade de conter Pequim sem converter toda disputa econômica, tecnológica ou territorial em crise militar aberta.
Essa combinação revela um dilema clássico de grandes potências: construir instrumentos de coerção suficientes para evitar concessões unilaterais, mas sem ultrapassar o ponto em que a rivalidade passa a ameaçar cadeias globais, aliados regionais e mercados financeiros. A disputa por semicondutores, minerais críticos, energia, transporte marítimo e Taiwan torna esse equilíbrio mais instável.
Em outubro de 2025, Estados Unidos e China chegaram a um entendimento para suspender por 12 meses tarifas portuárias recíprocas associadas ao setor marítimo e à construção naval, após encontro entre Trump e Xi Jinping na Coreia do Sul. O episódio mostrou que, mesmo em cenário de rivalidade intensa, os dois países mantêm interesse em pausas táticas quando o custo econômico da escalada ameaça ultrapassar ganhos políticos imediatos.
Brasil acompanha disputa por interesse comercial e minerais críticos
Para o Brasil, a disputa entre Washington e Pequim tem relevância direta. A China é o principal parceiro comercial brasileiro desde 2009 e destino relevante das exportações de grande parte das unidades da federação, conforme registro do Ipea. A dependência brasileira do mercado chinês torna qualquer instabilidade prolongada entre as duas potências um fator de risco para commodities, investimentos, câmbio e comércio exterior.
O tema das terras raras também interessa ao Brasil por sua dimensão industrial e estratégica. A concentração do processamento na China expõe uma lacuna global que países com reservas minerais podem tentar explorar, desde que superem obstáculos tecnológicos, ambientais, regulatórios e financeiros. Nesse ponto, o debate não se resume à extração: o valor geopolítico está na capacidade de refinar, separar, transformar e integrar esses minerais em cadeias industriais sofisticadas.
A cobertura anterior do Jornal Grande Bahia já registrou a escalada tarifária de 2025, os efeitos sobre os mercados globais e o papel das terras raras na guerra comercial. Esses antecedentes ajudam a compreender por que a análise da Foreign Affairs deve ser lida como parte de uma discussão mais ampla sobre o futuro da ordem econômica internacional, da soberania tecnológica e da competição entre modelos de poder.
Disputa revela nova fase da competição entre grandes potências
A leitura crítica dos fatos indica que a guerra comercial entre Estados Unidos e China ultrapassou a lógica tradicional de tarifas e retaliações. A disputa passou a envolver cadeias produtivas, minerais estratégicos, infraestrutura digital, moeda, energia, transporte marítimo e influência política. Nesse ambiente, a força de uma potência não se mede apenas por PIB, orçamento militar ou volume de exportações, mas pela capacidade de identificar vulnerabilidades do adversário e proteger as próprias dependências.
A contribuição mais relevante do artigo de Ratner e Danby está em explicitar que Washington enfrenta um problema de coerência estratégica. Os dados confirmados mostram que Pequim usou controles de exportação em setor crítico, enquanto os Estados Unidos buscaram responder com tarifas, negociações e instrumentos de contenção tecnológica. A interpretação dos autores é que essa resposta ainda carece de coordenação, previsibilidade e capacidade de produzir custos proporcionais para a China.
Os próximos desdobramentos exigem acompanhamento em quatro frentes: a evolução dos controles chineses sobre terras raras; a política americana para semicondutores e tecnologias avançadas; o equilíbrio militar e diplomático no Indo-Pacífico, especialmente em torno de Taiwan; e os impactos sobre países terceiros, como o Brasil, que dependem da China como parceiro comercial, mas também têm interesse em diversificar cadeias produtivas e ampliar autonomia em minerais críticos.
Perfil biográfico dos autores
Ely Ratner
Ely Ratner é um cientista político norte-americano especializado em segurança internacional, política externa dos Estados Unidos, China e Indo-Pacífico. Sua biografia pública está fortemente associada à formulação de estratégias para a competição entre grandes potências, tema que passou a ocupar o centro da agenda de segurança nacional dos EUA nas últimas duas décadas. Atualmente, atua como principal da The Marathon Initiative, instituição voltada à elaboração de estratégias diplomáticas, militares e econômicas para um período prolongado de rivalidade entre grandes potências. Entre 2021 e 2025, serviu como secretário-assistente de Defesa para Assuntos de Segurança do Indo-Pacífico no governo Joe Biden.
Sua trajetória acadêmica combina formação de elite e produção aplicada ao debate estratégico. Ratner obteve bacharelado na School of Public and International Affairs da Princeton University, onde se graduou Phi Beta Kappa, e concluiu doutorado em Ciência Política na University of California, Berkeley. Antes de ocupar funções de governo, atuou como pesquisador em instituições centrais do circuito de política externa dos EUA, incluindo a RAND Corporation, o Council on Foreign Relations e o Center for a New American Security. No CNAS, foi vice-presidente executivo e diretor de estudos, com responsabilidade sobre a agenda de pesquisa e a equipe do centro.
Do ponto de vista teórico e analítico, Ratner está associado à crítica da antiga política americana de engajamento com a China. Sua produção parte da premissa de que Washington superestimou a capacidade de integrar Pequim à ordem internacional liberal nos termos desejados pelos EUA. O ensaio “The China Reckoning: How Beijing Defied American Expectations”, publicado em 2018 na Foreign Affairs com Kurt M. Campbell, tornou-se uma referência desse deslocamento intelectual: a tese central é que a ascensão chinesa não produziu a liberalização política nem a acomodação estratégica esperadas por formuladores americanos.
As principais abordagens de Ratner incluem competição estratégica, fortalecimento de alianças no Indo-Pacífico, dissuasão militar, contenção tecnológica, defesa de cadeias produtivas sensíveis e uso coordenado de instrumentos econômicos, diplomáticos e militares. Sua produção aparece em veículos como Foreign Affairs, Foreign Policy, The Washington Post, The Wall Street Journal e periódicos acadêmicos, segundo o CNAS. Entre seus trabalhos de maior repercussão estão “There Is No Grand Bargain With China”, “Rising to the China Challenge” e, mais recentemente, “The Fault Lines in China’s Power”, escrito com Nick Danby, no qual sustenta que os EUA precisam identificar e explorar vulnerabilidades estratégicas chinesas com maior coerência.
Nick Danby
Nick Danby é pesquisador associado à nova geração de analistas norte-americanos dedicados à estratégia militar, competição entre grandes potências, poder naval e segurança no Indo-Pacífico. Sua biografia pública registra origem em Bangor, Maine, formação em história e política externa e passagem pela Marinha dos Estados Unidos como oficial de inteligência naval. No perfil da Gates Cambridge, Danby afirma que decidiu ingressar na Marinha por entender que a compreensão da segurança internacional exigia experiência direta com a dinâmica operacional e institucional da defesa.
Sua trajetória acadêmica tem base em Harvard University, onde estudou História e Governo e pesquisou estratégias de segurança nacional dos Estados Unidos no pós-guerra, além da forma como governos ocidentais lidaram com realinhamentos entre grandes potências. Em Harvard, graduou-se magna cum laude, com Highest Honors in History, e atuou como assistente de pesquisa do professor Frederik Logevall em uma biografia em dois volumes sobre John F. Kennedy. Em 2025, foi selecionado como Gates Cambridge Scholar para cursar MPhil em Politics and International Studies no St John’s College, na University of Cambridge.
A abordagem teórica de Danby combina história diplomática, teoria estratégica e experiência militar. Seus textos recorrem com frequência a exemplos históricos — como John F. Kennedy, Theodore Roosevelt, Alfred Thayer Mahan, Tucídides e a tradição do poder naval — para interpretar desafios contemporâneos. Em seus trabalhos, aparecem temas como dissuasão integrada, coerção marítima chinesa, competição na zona cinzenta, defesa da ordem baseada em regras, priorização estratégica e limites materiais do poder americano. Essa perspectiva se manifesta em análises sobre o Mar do Sul da China, sobre a necessidade de forças navais mais adaptáveis e sobre o risco de Washington dispersar recursos em múltiplos teatros simultâneos.
Entre suas publicações estão “In Responding to the China Challenge, Biden Should Take a Lesson From JFK”, na The Diplomat; “China’s False Promise: Gunboat Diplomacy, Not Win-Win Outcomes, Will Shape the South China Sea”, no Journal of Indo-Pacific Affairs; e artigos no U.S. Naval Institute, como “Theodore Roosevelt’s Great-Power Navy”, “Think Small to Win Big in the South China Sea” e “Less Is More: The United States Must Stop Stretching Its Navy Thin”. Em 2025, publicou “Sequencing Over Simultaneity: How to Avert a Two-Front War”, no War on the Rocks, defendendo que os EUA não devem tentar enfrentar China, Rússia e Irã simultaneamente, mas sequenciar ameaças e concentrar recursos estratégicos. Em 2026, ao lado de Ely Ratner, assinou “The Fault Lines in China’s Power”, na Foreign Affairs, reforçando a tese de que Washington precisa transformar vulnerabilidades chinesas em alavancas de pressão.
*A reportagem é baseada no artigo “As Falhas no Sistema de Energia da China: Os Estados Unidos precisam construir — e usar — influência contra Pequim“, de autoria de Ely Ratner e Nick Danby, publicado na revista Foreign Affairs, em 10 de junho de 2025.








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