A política brasileira foi marcada nesta quinta-feira (23/07/2026) por uma combinação de articulações para as eleições presidenciais, tensões dentro do campo bolsonarista, questionamentos sem comprovação sobre as urnas eletrônicas, novas investigações autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal — STF — e debates sobre a aplicação das regras eleitorais ao Governo Federal. Até o início da noite, as principais notícias publicadas por Veja e Folha de S.Paulo mostravam o senador Flávio Bolsonaro tentando consolidar alianças e pacificar sua relação com Michelle Bolsonaro, enquanto decisões dos ministros André Mendonça e Cristiano Zanin ampliavam apurações envolvendo o filme Dark Horse e suspeitas de venda de decisões no Superior Tribunal de Justiça — STJ.
Eleições de 2026 avançam em meio a impasses sobre alianças e candidaturas
O início das convenções partidárias colocou as definições eleitorais no centro da agenda política. Segundo o calendário oficial, partidos e federações podem realizar convenções entre 20 de julho e 5 de agosto, período destinado à escolha dos candidatos e à formalização das coligações. Os pedidos de registro das candidaturas devem ser apresentados à Justiça Eleitoral até 15 de agosto.
Nesse contexto, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro enfrenta dificuldades para ampliar sua base partidária. O presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira, afirmou que a legenda tende à neutralidade na disputa nacional e condicionou uma eventual aliança com o PL à construção de acordos nos estados de Mato Grosso e Roraima, onde as duas siglas possuem interesses conflitantes. Sem novas alianças, o senador poderá disputar a eleição com menor tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão do que o presidente Lula.
Parte do Republicanos também recebeu com resistência a possibilidade de indicação da economista Daniella Marques para vice-presidente. Ela integra a coordenação econômica da campanha de Flávio e filiou-se ao Republicanos antes do prazo legal, mas sua entrada na chapa dependeria de uma coligação formal entre as duas legendas. Dirigentes partidários interpretaram a movimentação como uma tentativa de pressionar o Republicanos a aderir ao projeto presidencial do PL.
A escolha do candidato a vice permanece entre as principais indefinições da corrida presidencial. A senadora Tereza Cristina, do Progressistas, recusou a possibilidade de ocupar o posto, enquanto o PP e o União Brasil caminham para a neutralidade no plano nacional. O PL deverá oficializar a candidatura de Flávio Bolsonaro em convenção marcada para sábado (25/07/2026), ainda sem uma definição consolidada sobre a composição completa da chapa.
Além da vice-presidência, permanecem em aberto alianças regionais, candidaturas aos governos estaduais e composições para o Senado. Minas Gerais ocupa posição central nesse tabuleiro porque é o segundo maior colégio eleitoral do país e ainda apresenta indefinições sobre a candidatura do senador Cleitinho e sobre os palanques de PL, Republicanos e partidos de centro.
Michelle Bolsonaro aceita desculpas e sinaliza participação na campanha
A relação entre Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou por uma tentativa pública de reconciliação. Durante a tarde, o senador voltou a pedir desculpas e solicitou que Michelle participasse de sua campanha presidencial. A divergência havia se tornado pública depois que ela afirmou ter sido desrespeitada em uma disputa relacionada às articulações partidárias no Ceará.
No início da noite, Michelle publicou um vídeo no qual aceitou o pedido de desculpas e declarou estar disposta a conversar com o enteado e trabalhar pela unidade do grupo político. A ex-primeira-dama afirmou que os dois deveriam superar as divergências e reunir apoiadores em torno do projeto eleitoral do PL.
A manifestação reduz, ao menos publicamente, uma crise que ameaçava prejudicar a campanha às vésperas da convenção nacional do partido. Michelle não deverá participar do encontro de sábado, sob a justificativa de que precisa acompanhar o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas é esperada na convenção do diretório do Distrito Federal, prevista para 2 de agosto. Nesse evento, poderá definir se disputará uma vaga no Senado.
Declarações sobre as urnas ampliam tensão institucional
As declarações de Flávio Bolsonaro sobre o sistema eletrônico de votação continuaram a produzir repercussões políticas e jurídicas. Em encontro com diplomatas realizado na terça-feira (21/07/2026), o senador associou as urnas brasileiras à empresa Smartmatic e pediu o envio do maior número possível de observadores internacionais para acompanhar a eleição de outubro. A afirmação sobre o fornecimento dos equipamentos, entretanto, é falsa.
O Tribunal Superior Eleitoral esclarece que a Smartmatic não fornece urnas eletrônicas nem programas utilizados nas eleições brasileiras. O projeto, o desenvolvimento e a gestão do sistema de votação são realizados pela própria Justiça Eleitoral. A empresa prestou serviços de suporte, conexão de dados e treinamento em ocasiões anteriores, mas não participou da programação dos equipamentos nem da apuração dos votos.
O ministro aposentado do STF Celso de Mello criticou as declarações e afirmou que a democracia exige fatos e provas verificáveis. Segundo o ex-decano, o Estado Democrático de Direito rejeita a substituição dos fatos por insinuações, especialmente quando manifestações sem fundamento podem comprometer a confiança da população nas instituições eleitorais.
A repercussão também alcançou as redes sociais. Levantamento do Instituto Democracia em Xeque, citado pela Folha, apontou que a declaração do senador alterou o fluxo de publicações sobre as urnas e impulsionou conteúdos de partidos e grupos de esquerda que comparavam Flávio ao comportamento político de Jair Bolsonaro nas eleições anteriores. A análise reuniu dados publicados entre 15 e 22 de julho no Facebook, Instagram, YouTube, X e TikTok.
Na tarde desta quinta-feira, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro voltou a lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral durante transmissão com o consultor político argentino Fernando Cerimedo, indiciado no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado. As acusações de Cerimedo sobre as eleições brasileiras de 2022 já haviam sido contestadas por especialistas que examinaram os dados apresentados.
As manifestações colocam o tema novamente sob a atenção do TSE. Partidos da base governista apresentaram medidas judiciais contra Flávio Bolsonaro, enquanto integrantes de sua campanha sustentam que o pedido de observadores internacionais busca ampliar a fiscalização eleitoral. Caberá à Justiça Eleitoral avaliar se houve violação das normas aplicáveis à propaganda antecipada, disseminação de informação falsa ou tentativa de deslegitimação do processo eleitoral.
André Mendonça autoriza investigação sobre financiamento de filme de Jair Bolsonaro
No campo judicial, o ministro André Mendonça, do STF, autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar os repasses relacionados ao filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A apuração foi solicitada pela PF e recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República.
A investigação deverá examinar a origem e a destinação dos recursos destinados ao projeto audiovisual. Conforme as informações divulgadas, Flávio Bolsonaro pediu apoio financeiro ao empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, para viabilizar o filme. O senador afirmou anteriormente que não houve irregularidade na captação de recursos. A abertura do inquérito não representa conclusão sobre eventual responsabilidade criminal.
O caso ganhou dimensão eleitoral porque envolve o principal candidato do PL à Presidência e um empresário investigado em apurações sobre o sistema financeiro. Aliados de Lula passaram a cobrar esclarecimentos, enquanto o coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho, declarou que a investigação deverá demonstrar a inexistência de ilícitos.
Zanin autoriza PF a investigar ministro do STJ
Outra decisão relevante foi tomada pelo ministro Cristiano Zanin, que autorizou a Polícia Federal a investigar o ministro Moura Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça, no inquérito sobre suposta venda de decisões judiciais na Corte. Ele é o primeiro ministro do STJ formalmente incluído nessa frente de investigação, que tramita no Supremo desde 2024.
Segundo as informações publicadas, a PF afirmou não ter identificado, até o momento da manifestação, indícios objetivos que comprovassem a participação do magistrado no esquema, mas sustentou que a possibilidade de envolvimento não poderia ser descartada sem novas diligências. A autorização judicial permite aprofundar a coleta de informações e a verificação de eventuais conexões com os demais investigados.
Moura Ribeiro declarou possuir trajetória profissional honrada e classificou como improcedentes as tentativas de associá-lo a atividades criminosas. A investigação deverá observar o contraditório, a presunção de inocência e a necessidade de comprovação individualizada das condutas atribuídas aos investigados.
Ministério Público do Rio processa ex-servidores do gabinete de Carlos Bolsonaro
No Rio de Janeiro, o Ministério Público apresentou uma ação de improbidade administrativa contra sete ex-servidores do antigo gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal. Eles são suspeitos de participar de um esquema de apropriação de parte dos salários de assessores, prática conhecida como “rachadinha”, que teria funcionado durante os mandatos exercidos pelo então vereador entre 2005 e 2021.
Os promotores pedem a devolução de R$ 1,9 milhão aos cofres públicos. Jorge Luiz Fernandes, ex-chefe de gabinete, foi apontado como operador central e principal beneficiário dos supostos desvios. A esposa dele, Regina Célia Sobral Fernandes, que também ocupou cargo de assessoria, está entre os alvos da ação.
Carlos Bolsonaro não foi incluído como réu nesse processo específico. Ele é investigado em um procedimento separado, reaberto em fevereiro por determinação da Procuradoria-Geral de Justiça do Rio, após o órgão identificar possíveis omissões na apuração anterior.
Governo Lula revê restrições eleitorais e EBC republica conteúdos
A aplicação das regras eleitorais ao Governo Federal também entrou no noticiário. A administração do presidente Lula decidiu flexibilizar parte das restrições impostas no início de julho à comunicação dos ministérios e órgãos públicos. As limitações haviam sido adotadas para evitar infrações durante o período eleitoral, mas integrantes do governo argumentaram que as medidas estavam prejudicando a divulgação de serviços e ações administrativas.
A Empresa Brasil de Comunicação — EBC — recorreu ao TSE para obter segurança jurídica sobre a manutenção de conteúdos jornalísticos publicados em seus canais. Paralelamente, passou a reavaliar e republicar, caso a caso, matérias anteriormente retiradas do ar. A Advocacia-Geral da União havia orientado a adoção das restrições.
A legislação proíbe publicidade institucional capaz de promover autoridades ou candidaturas durante o período eleitoral, mas não impede a prestação de informações de interesse público nem a atividade jornalística regular. A delimitação entre comunicação institucional, conteúdo editorial e promoção eleitoral deverá continuar sob análise do TSE.
Rui Costa e Márcio França recebem autorização para quarentena remunerada
A Comissão de Ética Pública autorizou os ex-ministros Rui Costa e Márcio França a receber quarentena remunerada por seis meses depois de deixarem o Governo Federal. O mecanismo busca impedir que ex-autoridades assumam imediatamente funções privadas em setores sobre os quais tiveram acesso a informações estratégicas ou poder decisório.
Rui Costa deixou a Casa Civil para disputar uma vaga no Senado pela Bahia, enquanto Márcio França deverá concorrer como vice na chapa de Fernando Haddad ao Governo de São Paulo. Mesmo participando da campanha eleitoral, ambos poderão receber remuneração equivalente à dos cargos ministeriais durante o período autorizado.
O Ministério da Gestão informou que os dois ainda não haviam recebido os pagamentos. Rui Costa declarou que não recebeu valores e justificou o pedido pela possibilidade de retomar seu vínculo profissional com a Braskem, situação que poderia gerar conflito de interesses. O salário bruto que recebia na Casa Civil era de aproximadamente R$ 46,4 mil.
Bancada ruralista mobiliza pacote contra ocupações de terras
No Congresso Nacional, a Frente Parlamentar da Agropecuária — FPA — intensificou a articulação para votar um conjunto de propostas denominado Pacote Anti-invasão. A mobilização ocorreu depois de levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil registrar 41 ocupações de propriedades rurais no primeiro semestre de 2026.
Segundo os dados apresentados, 38 episódios foram atribuídos a movimentos sociais e três a grupos indígenas. Pernambuco concentrou o maior número de registros, com 12 ocorrências. As propostas em discussão incluem retirada de ocupantes sem ordem judicial em determinadas situações, suspensão de benefícios sociais e criação de um cadastro nacional de envolvidos em invasões.
A tramitação deverá mobilizar a bancada ruralista, partidos de esquerda, movimentos de trabalhadores rurais, entidades do agronegócio e organizações de defesa dos direitos humanos. Os textos precisarão ser examinados quanto à compatibilidade com o direito de propriedade, o devido processo legal, a política de reforma agrária e as garantias constitucionais de manifestação e organização social.
Tarifaço dos Estados Unidos entra na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
A política externa e comercial também passou a integrar a narrativa eleitoral. Análise publicada por Veja sustenta que a tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos a exportações brasileiras contribuiu para fortalecer politicamente Lula, ao permitir que o presidente apresentasse a medida como pressão externa e ameaça aos interesses nacionais.
O representante comercial norte-americano Jamieson Greer afirmou ao Senado dos Estados Unidos que o Brasil teria se recusado a modificar políticas consideradas prejudiciais aos interesses comerciais daquele país. O Governo Federal, por sua vez, procura evitar que os efeitos econômicos das tarifas recaiam sobre empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros.
A próxima pesquisa nacional da AtlasIntel, prevista para divulgação em 28 de julho, deverá medir tanto a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro quanto a avaliação do eleitorado sobre as tarifas, a relação com o governo norte-americano, a segurança do Pix, a inflação e o emprego. O levantamento deverá ouvir 5 mil eleitores, com margem de erro estimada em um ponto percentual.
Linha do tempo da agenda política de 23/07/2026
- 4h02: publicação das orientações sobre os efeitos jurídicos das convenções partidárias e do registro de candidaturas.
- 4h06: repercussão da pressão de Flávio Bolsonaro pela presença de observadores eleitorais internacionais.
- 8h: análise aponta reflexos eleitorais do tarifaço norte-americano sobre a aprovação de Lula.
- 8h30: resistência do Republicanos à possibilidade de Daniella Marques ocupar a vice-presidência na chapa de Flávio.
- 8h36: Cristiano Zanin autoriza investigação da PF sobre o ministro Moura Ribeiro, do STJ.
- 9h44: Marcos Pereira afirma que a tendência do Republicanos é permanecer neutro na eleição presidencial.
- 11h35: André Mendonça autoriza inquérito sobre recursos destinados ao filme Dark Horse.
- 12h54: Celso de Mello critica declarações sem provas contra as urnas eletrônicas.
- 13h43: Ministério Público do Rio apresenta ação contra sete ex-servidores do gabinete de Carlos Bolsonaro.
- 14h42: levantamento registra avanço de narrativas críticas a Flávio nas redes sociais após a declaração sobre as urnas.
- 16h30: bancada ruralista intensifica articulação pelo Pacote Anti-invasão.
- 16h57: torna-se pública a autorização de quarentena remunerada para Rui Costa e Márcio França.
- 17h47: Eduardo Bolsonaro volta a questionar a integridade do sistema eleitoral.
- 19h10: Michelle Bolsonaro aceita publicamente o pedido de desculpas de Flávio e sinaliza recomposição política.
- 25/07/2026: PL deverá realizar sua convenção nacional para oficializar a candidatura presidencial.
- 05/08/2026: termina o prazo legal para a realização das convenções partidárias.
- 15/08/2026: encerra-se o prazo para o registro das candidaturas na Justiça Eleitoral.
- 16/08/2026: começa oficialmente a propaganda eleitoral.
O conjunto das notícias desta quinta-feira demonstra que a disputa presidencial já condiciona decisões partidárias, discursos públicos e estratégias institucionais, embora as candidaturas ainda dependam das convenções e dos registros formais. Flávio Bolsonaro procura reunir o campo conservador, mas enfrenta resistência de partidos de centro, indefinição sobre a vice-presidência e consequências políticas de declarações sem comprovação sobre as urnas. Lula, por sua vez, tenta converter a reação às tarifas norte-americanas em defesa da soberania econômica, enquanto sua administração precisa estabelecer limites claros entre comunicação governamental e propaganda eleitoral.
As investigações autorizadas por André Mendonça e Cristiano Zanin acrescentam uma dimensão judicial à campanha, mas exigem tratamento responsável. A abertura de um inquérito não comprova culpa, e a presença de nomes em mensagens, pedidos de recursos ou relatórios policiais não substitui a demonstração individualizada de participação em ilícitos. Ao mesmo tempo, a relevância dos personagens envolvidos — candidatos, empresários, ministros de tribunais superiores e agentes públicos — torna indispensável a transparência das apurações e a divulgação fundamentada das decisões.








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