Primeiro Diálogo Global sobre Governança da IA reúne 193 países e ONU propõe regras para segurança, transparência e uso responsável da inteligência artificial

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, abriu, no domingo (06/07/2026), o Primeiro Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial, em Genebra, defendendo a construção de um modelo internacional de regulamentação da tecnologia. O encontro reúne representantes de 193 países e marca a primeira iniciativa da ONU voltada à formulação de princípios globais para o desenvolvimento e a utilização da inteligência artificial (IA).

Durante o pronunciamento, Guterres afirmou que a evolução da inteligência artificial ocorre em ritmo superior à capacidade das instituições de acompanharem seus impactos, destacando que a tecnologia já influencia economias, mercados de trabalho, processos eleitorais e a segurança internacional. Segundo ele, a ausência de uma governança coordenada representa riscos para a sociedade.

O secretário-geral também apresentou o primeiro relatório do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial, elaborado por 40 especialistas independentes, provenientes de diferentes regiões do mundo e áreas do conhecimento, que servirá como base técnica para os debates do encontro.

Relatório identifica três desafios centrais para a inteligência artificial

Entre os principais pontos apresentados no discurso, Guterres destacou três alertas considerados prioritários pelo painel científico.

O primeiro refere-se à velocidade de expansão da IA. Como comparação, o secretário-geral afirmou que a internet levou aproximadamente 15 anos para atingir um bilhão de usuários, enquanto a inteligência artificial alcançou esse patamar em apenas dois anos. Segundo ele, os sistemas atuais já executam tarefas complexas, produzem códigos, operam na internet e tomam decisões com supervisão humana reduzida.

O segundo alerta trata da concentração de poder tecnológico. De acordo com Guterres, a capacidade computacional, os dados e os profissionais especializados permanecem concentrados em um número limitado de empresas e países, o que pode ampliar desigualdades e restringir a participação de países em desenvolvimento nas decisões sobre o futuro da tecnologia.

ONU alerta para impactos da desinformação produzida por inteligência artificial

O terceiro ponto apresentado pelo relatório diz respeito aos efeitos da IA sobre o ecossistema da informação.

Segundo António Guterres, conteúdos produzidos artificialmente podem dificultar a distinção entre informações verdadeiras e falsas, comprometendo a confiança pública e ampliando desafios relacionados à desinformação.

Durante o pronunciamento, o secretário-geral também citou o conceito de “vibe-coding”, metodologia baseada na utilização de comandos em linguagem natural para desenvolvimento de software. Embora reconheça o potencial da tecnologia para acelerar processos, ele afirmou que decisões relacionadas ao futuro da sociedade não podem ser delegadas exclusivamente aos sistemas de inteligência artificial.

Aplicações da IA podem acelerar desenvolvimento em saúde, educação e agricultura

Apesar dos riscos apontados, Guterres destacou que a inteligência artificial já produz benefícios concretos em diversas áreas.

Entre os exemplos apresentados estão diagnósticos médicos realizados em poucos minutos, sistemas de aprendizagem personalizados para estudantes e ferramentas que permitem a pequenos produtores rurais acessar previsões climáticas e informações utilizadas pelo agronegócio.

Segundo o secretário-geral, a IA possui potencial para reduzir diferenças históricas no acesso ao conhecimento, desde que seu desenvolvimento ocorra de forma inclusiva e compartilhada internacionalmente.

ONU apresenta quatro prioridades para a governança global da IA

Ao apresentar as propostas da Organização das Nações Unidas, António Guterres definiu quatro prioridades estratégicas para orientar a governança internacional da inteligência artificial.

A primeira prioridade é a segurança, com a criação de critérios internacionais para testes, avaliação de riscos e responsabilização dos desenvolvedores de sistemas avançados.

Nesse contexto, o secretário-geral lançou um Compromisso para a Segurança das Crianças em Aplicativos de IA, propondo três medidas principais:

  • Testes específicos de segurança para sistemas acessíveis a crianças;
  • Tolerância zero para conteúdos de exploração sexual infantil gerados por IA;
  • Encaminhamento obrigatório para apoio humano quando crianças demonstrarem sinais de sofrimento emocional.

Direitos humanos, desenvolvimento e transparência ambiental integram propostas

A segunda prioridade apresentada pela ONU refere-se à proteção dos direitos humanos.

Segundo Guterres, sistemas de inteligência artificial não devem substituir decisões humanas em áreas consideradas de alto risco, como Justiça, saúde e segurança pública, cabendo aos algoritmos apenas fornecer informações de apoio à decisão.

A terceira prioridade envolve a ampliação da capacidade tecnológica dos países em desenvolvimento. Para isso, a ONU anunciou a criação de uma Rede Global de Intercâmbio e Cooperação para Fortalecimento de Capacidades em IA, já apoiada por mais de 20 Estados-membros, além da futura proposta de um Fundo Global para Inteligência Artificial, voltado à ampliação do acesso à infraestrutura computacional, dados e capacitação técnica.

ONU propõe transparência sobre consumo de energia e água pela IA

A quarta prioridade apresentada no discurso trata da transparência ambiental.

Segundo Guterres, os centros de dados utilizados pela inteligência artificial já apresentam elevado consumo energético e hídrico. Ele afirmou que, até 2030, essas estruturas poderão consumir mais eletricidade do que a maioria dos países e utilizar volumes de água equivalentes às necessidades anuais de 1,3 bilhão de habitantes da África Subsaariana.

Como resposta, a ONU lançou recentemente a Iniciativa de Transparência Ambiental em IA, que propõe que empresas divulguem publicamente informações sobre emissões de carbono, consumo de água, utilização de terras e metas para adoção de energia renovável nos centros de processamento de dados.

Secretário-geral pede proibição internacional de armas autônomas letais

Na etapa final do pronunciamento, António Guterres abordou a utilização militar da inteligência artificial.

O secretário-geral defendeu a proibição internacional dos sistemas de armas autônomas letais, classificados por ele como máquinas capazes de selecionar e atacar alvos sem intervenção humana.

Segundo Guterres, decisões relacionadas ao uso da força letal devem permanecer sob responsabilidade humana e ser regulamentadas pelo direito internacional.

Ao encerrar o Primeiro Diálogo Global sobre Governança da IA, o secretário-geral afirmou que a reunião representa uma oportunidade para que 193 países construam conjuntamente regras capazes de acompanhar a velocidade do avanço tecnológico, buscando conciliar inovação, segurança, transparência e proteção dos direitos fundamentais.


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