Tarifaço dos EUA: Países reagem às novas taxas de Trump, União Europeia evita maior sobretaxa e ministra Simone Tebet aponta diversificação como fator para resiliência do Brasil

As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a cerca de 60 países passaram a vigorar nesta sexta-feira (24/07/2026), ampliando as tensões comerciais entre Washington e seus principais parceiros econômicos. A medida, anunciada pelo governo do presidente Donald Trump, gerou manifestações de governos da Ásia, da Europa e da América Latina, além de reações do governo brasileiro, que pretende utilizar a Lei da Reciprocidade sem interromper as negociações bilaterais.

A nova política tarifária estabelece alíquotas de 10% e 12,5% sobre produtos importados por diversos países. Entre os parceiros atingidos estão União Europeia, Reino Unido, México, Canadá, China, Filipinas, Austrália, Japão e Nova Zelândia. O Brasil, que já havia recebido uma tarifa adicional de 25%, passou a enfrentar também uma nova sobretaxa de 12,5% aplicada após investigação conduzida pelo Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR).

Segundo o governo norte-americano, a nova medida está relacionada ao combate à importação de produtos fabricados com trabalho forçado. A investigação envolveu cerca de 59 países, além da União Europeia, e fundamentou juridicamente a nova rodada de tarifas utilizando dispositivos legais já empregados em medidas anteriores voltadas a setores como aço, alumínio, cobre, madeira e automóveis.

União Europeia evita maior tarifa e reforça diálogo comercial

A União Europeia recebeu uma tarifa global de 10%, acompanhada de isenções para determinados produtos, incluindo cortiça, diamantes, aeronaves, peças aeronáuticas e medicamentos genéricos.

O porta-voz da Comissão Europeia, Olof Gill, afirmou que Bruxelas considera o resultado compatível com os compromissos assumidos anteriormente entre Estados Unidos e União Europeia, classificando o cenário como uma oportunidade para manter o diálogo em áreas estratégicas, como matérias-primas críticas e inteligência artificial.

O anúncio das tarifas coincidiu com a decisão da União Europeia de aplicar ao Google uma multa de 890 milhões de euros por práticas consideradas anticompetitivas no mercado digital. A decisão havia gerado expectativa de eventual reação por parte de Washington, mas não alterou o tratamento tarifário aplicado ao bloco europeu.

Brasil mantém negociações e contesta justificativa dos Estados Unidos

O governo brasileiro contestou oficialmente os fundamentos utilizados pelo USTR para justificar a nova tarifa adicional de 12,5%. Em nota oficial, a administração federal afirmou que os Estados Unidos recorreram ao tema do trabalho forçado como base para ampliar sua política comercial protecionista.

Apesar da elevação das tarifas, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou que pretende utilizar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade, mantendo, ao mesmo tempo, os canais diplomáticos abertos para negociação com Washington.

A nova medida amplia a pressão sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, especialmente em segmentos sujeitos às investigações conduzidas pelo USTR, enquanto o governo busca alternativas diplomáticas para reduzir os impactos sobre o comércio exterior.

China, Filipinas e aliados dos EUA criticam novas barreiras comerciais

A China manifestou oposição às novas tarifas. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, declarou que medidas tarifárias unilaterais não atendem aos interesses das partes envolvidas e reiterou a posição chinesa contrária à adoção desse tipo de política comercial.

As Filipinas também demonstraram preocupação com a sobretaxa de 12,5%. O presidente da Câmara de Comércio e Indústria das Filipinas (PCCI), George Barcelon, afirmou que a medida poderá reduzir a competitividade das indústrias locais. A secretária de Comércio filipina, Christina Roque, declarou que o país mantém políticas alinhadas às convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre combate ao trabalho forçado.

Antes mesmo da entrada em vigor das novas tarifas, Austrália, Japão e Nova Zelândia já haviam criticado publicamente as barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos, classificando-as como medidas prejudiciais ao comércio internacional.

Investigação do USTR busca ampliar fiscalização sobre cadeias produtivas

Segundo o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, a investigação procura verificar se os parceiros comerciais eliminaram completamente produtos fabricados com mão de obra forçada de suas cadeias de suprimentos.

Especialistas em comércio internacional avaliam que a iniciativa amplia o poder de negociação dos Estados Unidos em futuras discussões comerciais. Para a advogada Greta Peisch, existe uma estratégia contínua de utilização das tarifas como instrumento de pressão para garantir o cumprimento de acordos comerciais e incentivar novas negociações internacionais.

A Casa Branca também pretende assegurar maior sustentação jurídica às medidas após decisões anteriores da Suprema Corte dos Estados Unidos, que restringiram parte das sobretaxas implementadas durante o atual mandato presidencial.

Simone Tebet afirma que diversificação comercial reduziu impactos para o Brasil

Em entrevista à Sputnik Brasil, a ex-ministra do Planejamento e Orçamento Simone Tebet (PSB) afirmou que a diversificação das relações comerciais brasileiras permitiu reduzir os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Segundo Tebet, o fortalecimento das relações com Mercosul, BRICS, países da Ásia, da Europa e demais parceiros do Sul Global reduziu a dependência histórica do mercado norte-americano e aumentou a capacidade de resposta da economia brasileira diante das novas restrições comerciais.

A ex-ministra afirmou que, caso o Brasil mantivesse o mesmo nível de dependência comercial existente décadas atrás em relação aos Estados Unidos, o impacto do atual tarifaço poderia provocar consequências mais amplas sobre a economia, os empregos e diversos setores produtivos.

Minerais críticos e planejamento de longo prazo entram na agenda econômica

Durante a entrevista, Simone Tebet também destacou o potencial brasileiro na produção de minerais críticos e estratégicos, defendendo um marco regulatório que estimule investimentos nacionais e estrangeiros com agregação de valor à produção industrial no país.

A ex-ministra afirmou que a exploração desses recursos deve ocorrer com sustentabilidade e participação de investimentos públicos e privados, buscando ampliar a industrialização e a geração de empregos qualificados.

Ao avaliar sua gestão no Ministério do Planejamento e Orçamento, Tebet apontou como legado a combinação entre equilíbrio fiscal, planejamento de longo prazo e elaboração de políticas públicas voltadas para infraestrutura, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento econômico.


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