O Governo Federal anunciou nesta quinta-feira (20/08/2026) uma nova etapa da estratégia brasileira para inteligência artificial, com medidas destinadas a ampliar a infraestrutura de processamento, armazenamento e desenvolvimento de tecnologias de IA no país. As iniciativas integram o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e envolvem supercomputação, computação em nuvem, chips de arquitetura aberta, formação profissional e mecanismos de transparência algorítmica.
O conjunto de ações busca ampliar a capacidade instalada no Brasil para que empresas, startups, universidades, instituições de pesquisa e órgãos públicos possam desenvolver e treinar modelos de inteligência artificial utilizando infraestrutura localizada no território nacional. A estratégia também está relacionada à soberania sobre dados e à redução da dependência de provedores estrangeiros.
O PBIA prevê R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028 para ampliar a capacidade tecnológica brasileira, formar profissionais e estimular pesquisa, inovação e aplicações de inteligência artificial. As novas medidas estão organizadas em três frentes de infraestrutura computacional, além da estruturação da Nuvem Brasileira e da criação de um centro dedicado à transparência e à confiabilidade de sistemas de IA.
Supercomputador terá investimento estimado em R$ 1 bilhão
Uma das iniciativas prevê a aquisição, por meio de edital competitivo, de um supercomputador voltado à inteligência artificial. O equipamento deverá alcançar aproximadamente 7.200 petaflops, equivalentes a cerca de 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo, utilizando a métrica FP16.
O investimento estimado é de R$ 1 bilhão, e a máquina deverá figurar entre as dez maiores do mundo em capacidade de processamento de IA. A infraestrutura poderá ser utilizada para treinamento de modelos, pesquisa científica e desenvolvimento de aplicações por diferentes setores.
A previsão é que o supercomputador seja instalado no Parque Tecnológico Augusto Severo (PAX), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com execução do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O início das operações está previsto para o final de 2027.
Infraestrutura será instalada no Rio Grande do Norte
A escolha do Rio Grande do Norte está relacionada, segundo a proposta apresentada, ao potencial energético do estado. A instalação também busca ampliar a distribuição regional da infraestrutura científica e tecnológica brasileira e aumentar a capacidade de pesquisa e inovação no Nordeste.
O edital prevê contrapartidas relacionadas à transferência de tecnologia, capacitação, pesquisa e desenvolvimento, conteúdo local e participação de fornecedores brasileiros. A previsão é capacitar 5 mil brasileiros em cinco anos.
Outra frente será implantada no Rio de Janeiro, por meio da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), em parceria com Huawei e iFlytek. O projeto prevê ampliação da capacidade de processamento, transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, formação profissional e desenvolvimento de uma pilha de software soberana.
A iniciativa também contempla a criação de um modelo de linguagem de grande escala (LLM) nacional e de modelos de inteligência artificial em português. O objetivo é ampliar a capacidade de desenvolvimento de aplicações adaptadas ao idioma, aos dados e às demandas brasileiras. O investimento estimado é de R$ 1,276 bilhão em cinco anos, com início das operações previsto para julho de 2027.
Brasil prevê formação de profissionais e desenvolvimento de chips
A parceria tecnológica no Rio de Janeiro também prevê a capacitação de 3 mil brasileiros em cinco anos, além de contrapartidas relacionadas à transferência de tecnologia e à pesquisa e desenvolvimento.
A terceira frente envolve uma estratégia de longo prazo para ampliar a capacidade brasileira de desenvolver chips baseados na arquitetura RISC-V, tecnologia aberta e não proprietária. A iniciativa tem horizonte estimado de 10 a 15 anos e busca ampliar o domínio nacional sobre componentes considerados relevantes para computação de alto desempenho e inteligência artificial.
A frente será desenvolvida em cooperação com o ecossistema de inovação de Barcelona, na Espanha. A adoção da arquitetura aberta pretende ampliar as possibilidades de desenvolvimento e adaptação de componentes sem dependência exclusiva de arquiteturas proprietárias.
Nuvem Brasileira busca ampliar capacidade nacional
O pacote anunciado também prevê a estruturação da Nuvem Brasileira, por meio de uma parceria entre os setores público e privado. A proposta é desenvolver no Brasil componentes críticos de computação em nuvem e criar uma alternativa nacional para armazenamento e processamento de dados e sistemas.
A iniciativa envolve o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o Serpro e o BNDES. O acordo dará início à estruturação do projeto e à realização de uma consulta ao mercado para identificar a capacidade da indústria nacional, avaliar tecnologias e definir o modelo da futura infraestrutura.
A estratégia prevê o uso da demanda e da capacidade de contratação do Estado para contribuir com a criação de escala para fornecedores brasileiros de tecnologia. A proposta também busca estimular soluções nacionais capazes de atender ao setor público e ao mercado privado, aproveitando a experiência da Nuvem de Governo, operada por Serpro e Dataprev.
Centro de IA terá foco em transparência e segurança
Outra iniciativa é a implantação do Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável, que será desenvolvido pelo Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A estrutura terá atuação técnico-científica voltada ao desenvolvimento de pesquisas, metodologias e ferramentas para transparência, explicabilidade, auditabilidade, segurança, avaliação de riscos e mitigação de vieses em sistemas de inteligência artificial.
A criação do centro ocorre em paralelo à ampliação da capacidade brasileira de processamento e desenvolvimento de modelos de IA. A proposta é criar condições técnicas para acompanhar o funcionamento dos sistemas, identificar riscos, avaliar resultados e ampliar a rastreabilidade das aplicações.
As atribuições de fiscalização e aplicação de sanções continuarão sob responsabilidade das autoridades que possuem competência legal para essas funções. O novo centro terá atuação concentrada em pesquisa, desenvolvimento de metodologias e suporte técnico-científico.
Estratégia combina computação, formação e soberania tecnológica
As medidas anunciadas pelo Governo Federal articulam diferentes áreas da infraestrutura de inteligência artificial. O supercomputador amplia a capacidade de processamento; a parceria tecnológica prevê transferência de conhecimento e desenvolvimento de modelos em português; a estratégia baseada em RISC-V busca ampliar competências em chips; a Nuvem Brasileira pretende desenvolver infraestrutura nacional de armazenamento e processamento; e o centro da UFMG acrescenta mecanismos de avaliação e transparência.
Com as iniciativas, o Brasil busca ampliar sua participação no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial, além do uso de soluções produzidas por empresas e instituições estrangeiras. A estratégia prevê investimentos em infraestrutura computacional, pesquisa, formação profissional, transferência de tecnologia e governança.
Na prática, a ampliação da capacidade instalada poderá atender projetos relacionados a saúde, agricultura, previsão climática, prevenção de desastres, indústria e serviços públicos, além de pesquisas acadêmicas e novos produtos e serviços desenvolvidos por empresas e startups.








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