O curta-metragem Carranca, dirigido e roteirizado por Daniel Sal, estreia no 13º Festival de Cinema de Caruaru, na quinta-feira (20/08/2026). Com 15 minutos de duração, a produção acompanha Vado, personagem interpretado por Tom Nascimento, um homem negro de 50 anos que enfrenta o impacto de um diagnóstico neurológico próximo ao réveillon.
A narrativa se desenvolve a partir da relação do protagonista com o medo da morte, os vínculos afetivos e a dificuldade de lidar com a própria fragilidade. Dividido entre duas mulheres, Vado atravessa um período de angústia enquanto tenta compreender as consequências do diagnóstico e os conflitos acumulados ao longo da vida.
No elenco, Karina de Faria e Rose Irene Visitação interpretam personagens relacionadas às tensões afetivas do protagonista, enquanto Dailton Mota assume o papel de antagonista. O filme utiliza os conflitos pessoais de Vado para abordar questões relacionadas às masculinidades, ao autocuidado e à resistência em buscar ajuda diante de situações de vulnerabilidade.
Diagnóstico neurológico conduz a narrativa
Em Carranca, a doença neurológica funciona como elemento central da trajetória de Vado e também como representação da consciência sobre a finitude. Exames, diálogos e manifestações da dimensão psicológica do personagem articulam a condição médica ao medo da morte.
A história situa o diagnóstico próximo ao período de réveillon, estabelecendo um contraste entre a celebração da passagem de ano e a experiência individual de quem enfrenta a possibilidade de uma mudança radical em sua vida. A angústia do personagem é desenvolvida por meio de silêncios, segredos e conflitos familiares e afetivos.
A produção também aborda a formação de uma masculinidade marcada pela negação da fragilidade e pela priorização do trabalho e da autossuficiência. No caso de Vado, essa trajetória se relaciona a experiências de infância, dificuldades econômicas e à ausência de espaços para o cuidado de si.
Feira de Santana integra a construção do filme
Produzido pelas empresas Menino Amarelo Filmes e Palenque Filmes, sob produção de David Aynan, Carranca foi realizado em Feira de Santana, cidade natal de Daniel Sal e de parte da equipe responsável pela obra.
As paisagens e os espaços urbanos do município participam da composição visual e narrativa do curta. A cidade é utilizada não apenas como cenário, mas como elemento relacionado ao imaginário do roteiro e às dimensões culturais e sociais presentes na história.
A produção retoma uma característica do trabalho anterior de Daniel Sal, o curta Menos Eu, que também utilizou o drama familiar como eixo narrativo. Em Carranca, entretanto, a abordagem se concentra na relação entre diagnóstico, finitude, afetividade e medo, deslocando o conflito para a experiência de um personagem diante da possibilidade da morte.
Fotografia e som reforçam a dimensão psicológica
A construção estética do curta envolve fotografia de Edvaldo Raw, montagem de Rudyally Kony e direção de arte de Marcelo Magalhães. Esses elementos contribuem para aproximar os espaços urbanos da experiência subjetiva do protagonista.
A trilha e o desenho sonoro têm participação de Léo Rocha, que utiliza referências do thriller psicológico e do pós-horror para construir tensão. A paisagem sonora atua tanto nos acontecimentos externos quanto nas manifestações psicológicas de Vado.
Duas composições originais foram criadas especificamente para o filme. O trabalho de som amplia a percepção dos conflitos internos do personagem e complementa a narrativa visual construída pela fotografia e pela montagem.
Filme aborda autocuidado e masculinidade
A obra propõe uma reflexão sobre autocuidado masculino, especialmente durante a passagem da vida adulta para a velhice, período em que questões relacionadas à saúde podem adquirir maior presença no cotidiano.
O filme também relaciona essa discussão à experiência de homens negros e periféricos socializados em contextos de trabalho intenso e pouca atenção ao cuidado pessoal. A narrativa apresenta os efeitos que essa formação pode produzir na maneira como um diagnóstico é recebido e enfrentado.
Ao colocar a fragilidade de Vado no centro da história, Daniel Sal articula questões individuais e sociais. O personagem reúne medo, traumas, conflitos afetivos e possibilidade de mudança, enquanto o diagnóstico funciona como ponto de ruptura em sua trajetória.
Acessibilidade amplia o alcance da produção
Além da exibição no circuito de festivais, Carranca foi concebido com recursos de acessibilidade. O curta conta com audiodescrição, legendas e Libras, ampliando as possibilidades de acesso à obra por diferentes públicos.
A produção utiliza o drama do protagonista para discutir temas relacionados à saúde, à morte, às relações afetivas e às formas de construção da masculinidade. A narrativa combina elementos psicológicos e familiares para acompanhar as consequências de um diagnóstico sobre a vida de um homem de meia-idade.
A estreia no 13º Festival de Cinema de Caruaru, em 20 de agosto de 2026, marca a primeira apresentação pública do curta dentro do evento. Realizado em Feira de Santana e dirigido por Daniel Sal, Carranca estabelece como eixo narrativo a experiência de Vado diante da possibilidade da finitude e dos conflitos que surgem quando a fragilidade deixa de poder ser ignorada.








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