Facebook falha em filtrar anúncios com desinformação eleitoral, aponta teste da Anistia Internacional

Um teste realizado pela Anistia Internacional Brasil identificou falhas do Facebook na filtragem de anúncios impulsionados com desinformação sobre o processo eleitoral. O levantamento, divulgado na terça-feira (25/08/2026), submeteu 15 publicações à plataforma, sendo 14 com algum tipo de informação falsa e uma de conteúdo neutro.

Segundo a organização, oito dos 15 anúncios foram aceitos pelo Facebook, enquanto a publicação neutra foi rejeitada. Os conteúdos não chegaram a ser efetivamente publicados ou visualizados por usuários porque a Anistia Internacional Brasil retirou os agendamentos depois que eles foram aprovados.

Os anúncios foram elaborados para reproduzir diferentes formas de desinformação eleitoral, incluindo questionamentos sobre sistemas de votação e resultados eleitorais, ataques à legitimidade de candidatos e tribunais e defesa de medidas antidemocráticas. Entre as mensagens utilizadas no teste estava uma defesa explícita de intervenção militar e do não comparecimento às eleições.

Teste simulou conteúdos de risco eleitoral

A Anistia Internacional Brasil estruturou as publicações com mensagens destinadas a testar os mecanismos de moderação da plataforma. O objetivo foi verificar se o Facebook identificaria previamente conteúdos relacionados à desinformação eleitoral e à defesa de ruptura institucional.

Entre os materiais preparados estavam conteúdos que apresentavam candidatos e tribunais como ameaças à nação, além de mensagens favoráveis à atuação de líderes autoritários, intervenção militar e desordem política.

Um dos anúncios continha a mensagem: “Precisamos de uma revolução militar, não vote nas eleições, e os militares retomarão o poder se menos de 50% votarem!”. O exemplo foi utilizado pela organização para demonstrar o tipo de conteúdo submetido ao sistema de análise da plataforma.

A organização afirmou ainda que algumas publicações foram rejeitadas por estarem relacionadas a questões sociais, eleições ou política, mas as notificações recebidas não indicavam necessariamente que a recusa havia ocorrido em razão da desinformação presente no material.

Anúncios foram programados a partir de Londres

De acordo com a Anistia Internacional Brasil, os anúncios foram programados a partir de Londres, na Inglaterra, sem utilização de VPN, uma ferramenta que pode alterar a localização virtual de uma conexão.

Para a organização, o resultado levanta questionamentos sobre a possibilidade de atores localizados fora do Brasil utilizarem plataformas digitais para disseminar conteúdos de desinformação durante períodos eleitorais.

A preocupação está relacionada à capacidade de anúncios pagos alcançarem usuários em grande escala e à possibilidade de conteúdos políticos serem impulsionados antes que mecanismos de moderação consigam identificar eventuais violações.

O estudo, contudo, representa um teste com apenas 15 anúncios, e os conteúdos não chegaram a circular entre usuários. A própria Meta contestou a relevância estatística do levantamento e apresentou sua avaliação sobre a metodologia empregada.

Meta questiona alcance da pesquisa

Em nota enviada à Agência Brasil, a Meta, proprietária do Facebook, afirmou que o levantamento utilizou uma amostra muito pequena de anúncios. A empresa também destacou que nenhum dos conteúdos chegou a ser publicado ou visualizado por usuários.

Segundo a companhia, a Anistia Internacional Brasil removeu os agendamentos depois que as publicações foram aprovadas pela plataforma. A manifestação da empresa, portanto, considera o resultado dentro das limitações do número de anúncios analisados e do fato de o teste não ter medido a circulação efetiva das mensagens.

O levantamento não permite, isoladamente, determinar a frequência com que conteúdos semelhantes seriam aprovados em uma amostra maior. A pesquisa, porém, coloca em discussão os critérios utilizados para analisar publicidade política e conteúdos potencialmente falsos ou antidemocráticos.

Regras do TSE estabelecem dever de moderação

No Brasil, as plataformas digitais estão submetidas a regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o período eleitoral. Conforme mencionado no estudo, as empresas responsáveis por redes sociais devem adotar medidas para impedir ou reduzir a circulação de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados sobre o processo eleitoral.

A regulamentação também prevê a retirada de informações falsas e sem comprovação técnica em determinadas circunstâncias, sem necessidade de uma ordem judicial específica.

Essas obrigações tornam os mecanismos de identificação e moderação das plataformas parte relevante do debate sobre a integridade do processo eleitoral. A atuação das empresas envolve tanto conteúdos publicados por usuários quanto materiais distribuídos por meio de publicidade digital.

Cambridge Analytica ampliou debate sobre propaganda política

O Facebook ocupa posição central no histórico de discussões sobre uso de dados e publicidade política digital desde o caso Cambridge Analytica, relacionado às eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016 e ao referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, conhecido como Brexit.

No episódio, dados de milhões de usuários do Facebook foram utilizados para direcionar propaganda política personalizada. O caso contribuiu para ampliar o debate internacional sobre privacidade, uso de dados pessoais e influência das plataformas digitais sobre processos eleitorais.

Desde então, campanhas políticas em diferentes países passaram a utilizar ferramentas digitais para identificar grupos de eleitores, analisar tendências e direcionar mensagens. A utilização dessas tecnologias ocorre, em diferentes jurisdições, sob regras relacionadas à proteção de dados e à publicidade eleitoral.

Algoritmos podem direcionar mensagens políticas

Sistemas de análise de dados podem processar informações como pesquisas de opinião, comportamento nas redes sociais, indicadores econômicos e resultados eleitorais anteriores. A partir desses dados, campanhas podem estimar o impacto potencial de propostas e discursos sobre determinados grupos.

Essas ferramentas também podem auxiliar na identificação de temas com maior capacidade de mobilização entre segmentos específicos do eleitorado. O uso de algoritmos, portanto, pode ampliar a precisão da distribuição de publicidade política.

No caso analisado pela Anistia Internacional Brasil, a questão central é diferente: trata-se da capacidade da plataforma de identificar e impedir a veiculação de anúncios que contenham desinformação eleitoral antes que eles alcancem o público.

Teste ocorre em meio à preocupação com eleições brasileiras

A realização do experimento a partir do exterior acrescenta uma dimensão internacional ao debate. A possibilidade de campanhas ou grupos estrangeiros utilizarem plataformas digitais para influenciar o debate público brasileiro é uma preocupação relacionada à segurança informacional durante eleições.

A ausência de VPN no teste foi destacada pela organização justamente porque os anúncios foram programados diretamente a partir de Londres. O resultado, segundo a Anistia Internacional Brasil, demonstra a necessidade de avaliar os mecanismos disponíveis para impedir o uso das ferramentas publicitárias em ações coordenadas de desinformação.

Entretanto, a pesquisa não identificou quem poderia realizar uma eventual operação desse tipo nem demonstrou que conteúdos semelhantes tenham sido efetivamente distribuídos a eleitores brasileiros. O estudo apresenta um teste de vulnerabilidade da moderação, e não uma comprovação de interferência eleitoral estrangeira.

Desinformação eleitoral permanece desafio para plataformas

O episódio evidencia a complexidade da moderação de conteúdos políticos em redes sociais. As plataformas precisam distinguir publicidade política legítima de materiais que contenham informações falsas, manipulação de fatos ou mensagens que questionem de maneira enganosa a legitimidade do processo eleitoral.

Ao mesmo tempo, os sistemas de moderação precisam operar dentro de regras que preservem a liberdade de expressão e estabeleçam critérios objetivos para remoção ou rejeição de conteúdos.

A pesquisa da Anistia Internacional Brasil coloca o Facebook no centro dessa discussão ao apontar que oito de 15 anúncios submetidos ao teste foram aceitos, incluindo materiais classificados pela organização como desinformação eleitoral. A Meta, por sua vez, questiona a capacidade de generalização dos resultados diante da pequena amostra e do fato de os anúncios não terem chegado ao público.

O debate deverá permanecer relevante à medida que campanhas eleitorais ampliam o uso de publicidade digital e ferramentas de inteligência artificial e análise de dados. Para o processo eleitoral, a capacidade de detectar, limitar e retirar conteúdos comprovadamente falsos ou gravemente descontextualizados permanece como um dos principais pontos de atenção na relação entre redes sociais, publicidade e democracia.

*Com informações da Sputnik News.


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