A indústria naval brasileira entrou em um novo ciclo de investimentos, após quase uma década de retração provocada pela combinação entre crise econômica, efeitos da Operação Lava Jato e queda do preço do petróleo. Neste mês, o Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (FMM) aprovou uma carteira com 15 projetos destinados à construção, modernização e reparação de embarcações, além de empreendimentos relacionados à infraestrutura portuária.
Entre os projetos aprovados estão cinco navios gaseiros para transporte de gás liquefeito de petróleo (GLP) pela Petrobras e navios-patrulha para a Marinha. A carteira também contempla empreendimentos distribuídos por diferentes estados brasileiros, incluindo Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Amazonas, Pará e Bahia.
O movimento ocorre depois de um período de forte redução da atividade. Durante o auge provocado pelos investimentos associados ao pré-sal, o setor chegou a empregar mais de 82 mil trabalhadores diretamente em 2014, quando o país possuía quase 40 estaleiros, principalmente no Rio de Janeiro. Em 2016, o volume da produção industrial havia recuado de R$ 6,8 bilhões para R$ 1,97 bilhão, segundo dados do IBGE.
Novo ciclo tem Petrobras e FMM entre os principais vetores
A descoberta do pré-sal, a partir de 2006, ampliou a demanda por navios, plataformas e equipamentos destinados à exploração de petróleo em águas profundas. O aumento das encomendas da Petrobras impulsionou estaleiros e fornecedores e levou a indústria naval brasileira a um dos maiores ciclos de expansão de sua história recente.
O setor chegou a empregar 82,4 mil pessoas em dezembro de 2014, segundo dados citados pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval). A retração iniciada posteriormente provocou demissões, redução de encomendas, fechamento de empresas e processos de recuperação judicial.
A indústria naval voltou a ocupar espaço central no programa econômico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha eleitoral de 2022. A proposta previa utilizar novamente encomendas da Petrobras, recursos do Fundo da Marinha Mercante e financiamentos do BNDES como instrumentos para estimular a cadeia produtiva nacional.
Quase quatro anos depois, novos projetos começaram a avançar. O professor de engenharia civil da Universidade Federal Fluminense (UFF), Levi Salvi, considera a aprovação dos financiamentos um passo no processo de recuperação, mas ressalta que a consolidação do setor depende de uma política de longo prazo.
Especialistas apontam necessidade de continuidade
Para Salvi, a indústria naval possui elevada complexidade e depende de planejamento contínuo. A execução dos investimentos pode enfrentar dificuldades relacionadas à falta de mão de obra especializada, desafios tecnológicos, complexidade dos projetos e eventual redução dos recursos inicialmente previstos.
O professor também defende maior participação das universidades na política industrial. Como referência, cita o desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira a partir da aproximação entre instituições de ensino e pesquisa e o setor produtivo, incluindo a atuação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Na avaliação de Salvi, políticas públicas voltadas à indústria naval precisam atravessar diferentes governos. A descontinuidade de programas em razão da mudança de administrações pode comprometer investimentos que exigem vários anos para apresentar resultados.
O especialista também chama atenção para um segmento que, segundo ele, permanece pouco contemplado pelo financiamento do FMM: o de embarcações de esporte e recreio. Salvi estima que existam mais de 70 estaleiros no país voltados a esse mercado, produzindo desde pequenas embarcações até iates de elevado valor.
Estaleiro Mauá busca voltar à construção de navios
Em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o Estaleiro Mauá representa um dos casos de empresas que tentam reconstruir sua capacidade produtiva. Com atividades iniciadas em 1845, o estaleiro acumulou mais de 160 embarcações construídas e quase 640 reparadas, segundo informações de sua direção.
No período de maior atividade recente, a empresa chegou a contar com mais de 5 mil trabalhadores. Em 2020, o quadro havia sido reduzido para cerca de 700 funcionários. Atualmente, são aproximadamente 1.400 trabalhadores, número que representa o dobro do registrado naquele momento.
O CEO do Estaleiro Mauá, Miro Arantes, afirma que a empresa pretende voltar à construção de navios. Atualmente, o estaleiro atua principalmente em manutenção, reparo naval e construção de estruturas offshore.
Empresa investe em equipamentos e qualificação
O estaleiro entrou em recuperação judicial em 2024, mas, segundo Arantes, conseguiu negociar seus passivos tributários e obter a certidão negativa de débitos necessária para participar de novas oportunidades de contratação.
A empresa também passou a investir em máquinas de solda, treinamento de trabalhadores, sistemas de planejamento e certificações. A expectativa apresentada pelo executivo é de que o estaleiro esteja habilitado a apresentar propostas para construção de navios ainda em 2026 ou no início de 2027.
Arantes associa a possibilidade de recuperação do setor às novas encomendas e à política de conteúdo local, que estabelece a participação da indústria brasileira em determinados projetos.
Para o executivo, a recuperação exige tempo para mobilização, formação de mão de obra, reorganização produtiva e retomada da curva de aprendizado. Ele também defende a ampliação da capacidade brasileira de exportar embarcações e atrair compradores estrangeiros.
Rio de Janeiro ainda enfrenta estaleiros fechados
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro (Sindimetal-Rio), Melquizedeque Cordeiro, afirma que a política pública é determinante para a recuperação do setor. Segundo ele, porém, a situação na capital fluminense permanece marcada por dificuldades.
De acordo com Cordeiro, os estaleiros do município permanecem fechados ou em recuperação judicial. Entre os exemplos está o Estaleiro Inhaúma, que chegou a projetar contratos próximos de US$ 2 bilhões, equivalentes a cerca de R$ 10,2 bilhões na cotação mencionada, com a Petrobras.
O empreendimento encerrou as atividades em 2016. No ano passado, uma multinacional das Filipinas assumiu o controle do fundo proprietário da área de aproximadamente 32 hectares, localizada na região do Caju.
Sinaval aponta recuperação do emprego
Para o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), Ariovaldo Rocha, a recuperação do setor já ocorre na prática, impulsionada por encomendas relacionadas à Petrobras, empresas prestadoras de serviços à estatal e Transpetro.
Segundo Rocha, os projetos aprovados pelo FMM apresentam volume de recursos superior ao registrado antes de 2023 e alcançam estaleiros de diferentes regiões do país.
O dirigente afirma que a construção de embarcações, barcaças e balsas já voltou a ocorrer e que a retomada dos grandes navios poderá avançar no médio prazo, conforme os estaleiros recuperem capacidade produtiva.
De acordo com os dados apresentados pelo Sinaval, a indústria naval alcançou cerca de 90 mil trabalhadores em junho de 2026, superando os 82,4 mil empregos registrados em dezembro de 2014.
Formação profissional volta ao centro da cadeia produtiva
O crescimento do número de trabalhadores também aumenta a demanda por qualificação. Segundo Rocha, novos cursos de formação foram articulados com o governo federal em unidades do Senai de diferentes estados.
Os próprios estaleiros também retomaram investimentos em capacitação. Universidades federais e instituições como o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) oferecem cursos relacionados à engenharia e à formação técnica para o setor naval.
Outro ponto destacado pelo Sinaval é a recuperação gradual da cadeia de fornecedores de equipamentos e serviços. A retração dos estaleiros nos últimos anos também reduziu a atividade de empresas fornecedoras, mas novas encomendas começam a estimular sua reativação.
Para Rocha, o fortalecimento dessa cadeia pode ampliar progressivamente o conteúdo local dos projetos navais e reduzir gargalos na produção.
Brasil perdeu posição entre grandes construtores navais
Apesar dos sinais de recuperação, o almirante e engenheiro naval Alan Paes Leme considera o volume atual de encomendas reduzido diante da capacidade que o Brasil já apresentou.
O país chegou a ocupar a segunda posição mundial na construção naval em 1973. Durante o período de maior atividade, estaleiros brasileiros receberam grandes volumes de encomendas e desenvolveram estruturas para diferentes tipos de embarcações.
Paes Leme compara a situação brasileira com a de países como Japão e Coreia do Sul, que mantiveram investimentos e capacidade produtiva ao longo das últimas décadas. Na avaliação dele, a interrupção dos ciclos de encomendas prejudicou a competitividade brasileira.
Logística é apontada como desafio para competitividade
Outro problema destacado pelo especialista é a dispersão geográfica da cadeia produtiva. Segundo Paes Leme, o deslocamento de materiais, equipamentos e trabalhadores pode aumentar os custos de produção e reduzir a competitividade dos estaleiros.
Durante o período de expansão da indústria naval, uma parcela significativa dos estaleiros e fornecedores estava concentrada na Baía de Guanabara, principalmente entre Rio de Janeiro e Niterói.
Posteriormente, políticas de expansão regional levaram à instalação de estaleiros em locais como Recife e Salvador, afastados do centro logístico que havia se consolidado no Rio de Janeiro. Para Paes Leme, a distribuição territorial da cadeia deve ser considerada no planejamento da indústria.
Especialista defende especialização industrial
Na avaliação do almirante, o Brasil precisa definir nichos específicos de construção naval nos quais possa desenvolver especialização e competitividade internacional.
Ele cita como exemplo a atuação da Petrobras na exploração de petróleo em águas profundas, setor que demandou tecnologias específicas e estimulou o desenvolvimento de equipamentos e serviços especializados.
A estratégia, segundo Paes Leme, deveria combinar inovação, planejamento de longo prazo, especialização produtiva e políticas permanentes de incentivo.
O desafio é transformar o atual ciclo de encomendas em uma base industrial contínua, capaz de manter produção e empregos mesmo quando houver mudanças no cenário político ou nos preços internacionais do petróleo.
Indústria naval é considerada estratégica para soberania
O Brasil possui mais de 7 mil quilômetros de litoral distribuídos por 17 estados, além de extensa rede hidrográfica. Essas características ampliam a importância da indústria naval para além da atividade econômica.
Segundo Levi Salvi, a capacidade de construir e reparar embarcações é estratégica para a soberania nacional, especialmente diante da necessidade de proteção da costa, das águas interiores e das estruturas relacionadas à exploração de recursos naturais.
O professor também defende maior integração entre a indústria naval e a Marinha do Brasil, especialmente na construção e manutenção de embarcações destinadas à defesa e à atuação na Amazônia Azul.
Construção naval também tem dimensão de defesa
Miro Arantes, do Estaleiro Mauá, compartilha a avaliação de que uma indústria naval estruturada possui relação direta com a capacidade de defesa brasileira.
A existência de estaleiros capazes de construir e reparar embarcações permite reduzir dependências externas e preservar conhecimentos técnicos relacionados à engenharia naval.
A recuperação do setor, portanto, envolve diferentes dimensões: emprego, indústria, infraestrutura, tecnologia, comércio exterior, energia e defesa.
Retomada ainda depende de continuidade
Os dados apresentados pelos representantes do setor indicam uma recuperação do emprego e a retomada de encomendas, mas os especialistas divergem sobre a velocidade e a dimensão desse processo.
De um lado, o Sinaval aponta cerca de 90 mil trabalhadores em junho de 2026, número superior ao registrado antes da crise de 2014. De outro, especialistas alertam que o volume atual de projetos ainda precisa crescer e permanecer estável para reconstruir uma cadeia produtiva capaz de competir internacionalmente.
A aprovação dos 15 projetos pelo Fundo da Marinha Mercante, a retomada de encomendas relacionadas à Petrobras e à Transpetro e novos investimentos em capacitação indicam mudança em relação ao período de retração.
A consolidação desse processo, contudo, dependerá da continuidade das políticas públicas, da formação de profissionais, da recuperação dos fornecedores, da modernização tecnológica, da eficiência logística e da capacidade de transformar encomendas pontuais em uma política industrial permanente.








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