Maior fundo soberano do mundo alerta para risco de bolha da inteligência artificial nas ações

O Fundo Global de Pensão do Governo da Noruega (GPFG), considerado o maior fundo soberano do mundo, passou a alertar para os riscos associados à valorização das empresas relacionadas à inteligência artificial (IA). O diretor-presidente do fundo, Nicolai Tangen, afirmou que uma queda extrema dos mercados poderia provocar perdas de grande dimensão em uma carteira avaliada em US$ 2,4 trilhões, equivalente a cerca de R$ 12,4 trilhões, segundo os valores apresentados no material.

O fundo, criado para administrar e investir as receitas provenientes da exploração de petróleo e gás da Noruega, registrou lucro de 1,753 bilhão de coroas norueguesas, aproximadamente R$ 964,8 milhões, nos primeiros seis meses do ano. Parte dos ganhos recentes esteve relacionada à valorização de empresas de tecnologia e de companhias associadas ao desenvolvimento da IA.

Apesar do desempenho financeiro, Tangen afirmou que a concentração de investimentos em empresas vinculadas aos chips e à infraestrutura de IA representa um risco para o patrimônio acumulado pelo fundo. Na avaliação apresentada, uma correção significativa dos mercados poderia reduzir parte dos recursos construídos ao longo de aproximadamente 30 anos.

Investimentos em IA ampliam preocupação entre gestores

O alerta do executivo ocorre em meio à expansão dos investimentos globais em inteligência artificial. Segundo o material, as grandes empresas de tecnologia devem destinar mais de US$ 1 trilhão à infraestrutura relacionada à tecnologia, incluindo semicondutores, data centers e estruturas de fornecimento de energia.

O professor de Finanças da Universidade de Oklahoma Bill Megginson, pesquisador especializado em fundos soberanos, afirma que gestores experientes também demonstram preocupação com as atuais avaliações das empresas, embora continuem investindo diante da dimensão da transformação tecnológica em curso.

Outro fator mencionado é o avanço da indústria chinesa de inteligência artificial. Empresas do país vêm desenvolvendo modelos considerados avançados com custos inferiores aos registrados por concorrentes dos Estados Unidos, o que acrescenta incertezas sobre o ritmo de retorno dos investimentos realizados no setor.

O Banco de Compensações Internacionais (BIS) também alertou, em junho, para o risco de uma correção caso os retornos proporcionados pelos investimentos em IA fiquem abaixo das expectativas incorporadas aos preços dos ativos.

Como funciona o fundo soberano da Noruega

O modelo adotado pelo fundo norueguês difere daquele utilizado por alguns fundos soberanos do Oriente Médio e da Ásia. Enquanto instituições desses países mantêm participações relevantes em empresas privadas, infraestrutura e imóveis, o GPFG utiliza principalmente uma estratégia baseada em índices globais de mercado.

De acordo com Karin Thorburn, professora e pesquisadora de Finanças da Escola Norueguesa de Economia, a estratégia é passiva, diversificada e vinculada aos principais índices internacionais. Essa estrutura reduz a necessidade de seleção individual de ações, mas também limita a capacidade dos gestores de se afastarem significativamente da composição dos índices.

O mandato estabelecido pelo governo norueguês restringe a adoção de posições defensivas de grande escala. Isso inclui a manutenção de volumes elevados de recursos em caixa para proteger o patrimônio em períodos de forte queda dos mercados.

Derivativos são utilizados para proteção

Embora o fundo tenha limitações para adotar estratégias defensivas amplas, a Norges Bank Investment Management (NBIM) utiliza derivativos relacionados a câmbio, juros e ações como instrumentos de proteção diante de determinados movimentos dos mercados.

O especialista em fundos soberanos Javier Capape, baseado em Madri, considera que a estrutura da carteira deixa a Noruega exposta a oscilações dos mercados acionários. O fundo possui aproximadamente 70% dos ativos em ações e 30% em títulos de renda fixa, segundo os dados apresentados.

Capape, entretanto, ressalta que isso não significa ausência completa de mecanismos de proteção. A utilização de derivativos permite administrar parte dos riscos decorrentes de movimentos adversos nos mercados financeiros.

Tecnologia representa cerca de um terço das ações

O setor de tecnologia corresponde a aproximadamente um terço dos investimentos em ações do fundo norueguês. A exposição ocorre principalmente por meio da estratégia de acompanhamento dos índices globais, o que faz com que o fundo tenha participação nas maiores empresas listadas nos mercados internacionais.

A estrutura contrasta com a adotada pela Berkshire Hathaway, que mantém uma parcela elevada de seus recursos em caixa e títulos de curto prazo do Tesouro dos Estados Unidos. O material cita aproximadamente US$ 365 bilhões nessa categoria de ativos.

O fundo norueguês também possui uma característica que amplia sua capacidade de reposição patrimonial: continua recebendo recursos provenientes das receitas de petróleo e gás do Mar do Norte. Para 2026, a expectativa mencionada é de entrada equivalente a 63 bilhões de euros.

Essa fonte permanente de recursos, porém, não elimina a exposição às oscilações dos mercados internacionais, especialmente diante do tamanho da carteira e da participação relevante de ações.

Fundos soberanos também enfrentam riscos em ativos alternativos

A diversificação adotada por fundos soberanos de outras regiões não elimina os riscos associados aos investimentos. Participações privadas e imóveis comerciais também apresentam desafios relacionados à liquidez e ao desempenho dos ativos.

Alguns fundos de participação privada chegaram a suspender ou limitar temporariamente retiradas de investidores diante de dificuldades de liquidez. No mercado imobiliário comercial, os escritórios permanecem entre os segmentos afetados pelo desempenho registrado desde a pandemia de covid-19.

Segundo Capape, investimentos alternativos representam aproximadamente 24% das carteiras dos fundos soberanos em escala global.

O Relatório dos Fundos Soberanos de 2026, citado no material, aponta que essas instituições administram atualmente mais de US$ 15 trilhões em ativos. Durante a crise financeira de 2008 e 2009, o volume estimado era de aproximadamente US$ 3 trilhões a US$ 4 trilhões.

Crescimento dos fundos soberanos amplia impacto nos mercados

O crescimento dos fundos soberanos transformou essas instituições em importantes fontes de capital para diferentes segmentos do sistema financeiro internacional.

Megginson afirma que esses fundos passaram a representar uma das principais fontes globais de recursos para fundos de participação privada e investimentos diretos em empresas de capital aberto.

Esse aumento de escala também significa que oscilações expressivas nos mercados podem produzir efeitos relevantes sobre o patrimônio administrado por essas instituições.

No caso da Noruega, a combinação entre uma carteira de grande dimensão, elevada participação em ações e exposição ao setor de tecnologia coloca o desempenho das empresas ligadas à IA entre os fatores relevantes para o resultado do fundo.

Quanto uma correção da IA poderia custar à Noruega

As ações associadas à inteligência artificial registraram períodos de forte valorização, apesar de uma queda observada em junho e julho. Empresas como Nvidia, Amazon e Microsoft voltaram a apresentar altas de dois dígitos nas semanas seguintes, segundo o material.

O movimento alimentou expectativas de que algumas empresas relacionadas à IA possam alcançar novos recordes de mercado até o fim do ano. Ao mesmo tempo, permanece a incerteza sobre a capacidade de os investimentos realizados em infraestrutura e tecnologia produzirem retornos compatíveis com as avaliações atuais.

Um teste de estresse realizado pela própria Norges Bank Investment Management, segundo Capape, estimou que uma correção relacionada à inteligência artificial poderia provocar uma redução de aproximadamente 18% no valor total do fundo.

Considerando a carteira de US$ 2,4 trilhões mencionada no material, uma perda dessa magnitude representaria centenas de bilhões de dólares. A estimativa apresentada por Capape corresponde a aproximadamente 432 bilhões de euros, ou cerca de R$ 2,6 trilhões, valor equivalente a quase sete anos das receitas energéticas da Noruega.

Cenário depende da evolução dos mercados

A possibilidade de uma correção não significa que uma queda dessa proporção ocorrerá. O desempenho futuro das ações ligadas à inteligência artificial dependerá de fatores como crescimento dos lucros, investimentos em infraestrutura, produtividade gerada pela tecnologia, condições monetárias e expectativas dos investidores.

O alerta de Tangen, portanto, está relacionado à dimensão da exposição do fundo soberano aos mercados globais e ao impacto que uma eventual correção poderia produzir sobre seu patrimônio.

A estratégia norueguesa permanece baseada na diversificação por índices e na manutenção de uma carteira predominantemente composta por ações e títulos. Ao mesmo tempo, os recursos provenientes do petróleo e do gás continuam alimentando o fundo, permitindo a continuidade dos investimentos.

O debate sobre uma possível bolha de IA envolve, assim, não apenas as empresas de tecnologia, mas também grandes investidores institucionais que passaram a ter exposição significativa ao setor. Para o fundo soberano da Noruega, uma eventual mudança nas expectativas sobre a rentabilidade da inteligência artificial poderia representar um impacto financeiro de grande escala.


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