A iniciativa brasileira Araticum – Restauração do Cerrado Brasileiro foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), nesta quarta-feira (26/08/2026), como uma Iniciativa de Referência da Restauração Mundial (World Restoration Flagship). O reconhecimento integra a Década da ONU da Restauração de Ecossistemas e destaca ações voltadas à recuperação de áreas degradadas do Cerrado.
Com o novo título, o Brasil passa a ser o único país, até o momento, com duas iniciativas reconhecidas como Referências da Restauração Mundial. O anúncio ocorreu durante a 17ª sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17 da UNCCD), realizada na Mongólia.
A Araticum reúne mais de 180 organizações, incluindo povos indígenas, comunidades quilombolas, comunidades locais, agricultores, pesquisadores, organizações da sociedade civil, iniciativa privada e instituições governamentais. A articulação atua em projetos de restauração distribuídos por nove estados brasileiros.
Araticum estabelece meta de 2 milhões de hectares
A iniciativa estabeleceu como objetivo restaurar 2 milhões de hectares do Cerrado até 2030. A meta integra uma estratégia que combina recuperação ecológica com instrumentos sociais, econômicos e de planejamento territorial.
Entre as técnicas utilizadas estão a regeneração natural, semeadura direta, restauração ecológica e sistemas agroflorestais com espécies nativas. O projeto também prevê mecanismos como pagamento por serviços ambientais, agricultura sustentável e articulação com políticas públicas.
Até o momento, a Araticum já mapeou mais de 27 mil hectares em processo de restauração. A plataforma de monitoramento continua incorporando novas áreas para acompanhamento dos resultados das ações realizadas nos diferentes territórios.
Cerrado perdeu mais da metade da vegetação nativa
O Cerrado possui mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa. Segundo as informações apresentadas pela iniciativa, a conversão de terras em larga escala está entre os principais fatores associados à redução da cobertura vegetal.
A alteração do bioma produz impactos sobre povos indígenas, comunidades tradicionais, biodiversidade, produção de alimentos, disponibilidade de água e resiliência climática. Nesse contexto, a restauração é apresentada como uma estratégia de recuperação de funções ambientais e fortalecimento de atividades econômicas relacionadas ao território.
A coordenadora da Araticum e coletora de sementes Geraizeira, Fabrícia Santarém, afirmou que a escolha do Cerrado como iniciativa de referência reforça a necessidade de investimentos na restauração de florestas, savanas e campos nativos, além do fortalecimento das organizações comunitárias envolvidas na conservação.
Mais de 150 espécies nativas já foram utilizadas
A iniciativa também atua na formação de uma cadeia produtiva relacionada à restauração ecológica. Já foram coletadas e utilizadas sementes de mais de 150 espécies de plantas nativas em atividades de recuperação de áreas.
Essa cadeia envolve coletores de sementes, viveiros, técnicos de restauração e profissionais responsáveis pelo monitoramento. A estrutura busca associar a recuperação da vegetação à geração de atividades econômicas vinculadas aos territórios onde os projetos são desenvolvidos.
A participação de diferentes grupos sociais e instituições constitui uma das características da Araticum. A iniciativa articula conhecimentos e atividades de povos indígenas, quilombolas, agricultores, pesquisadores e comunidades locais, além de organizações públicas e privadas.
ONU reconhece três novas iniciativas na COP17
A Araticum foi reconhecida pela ONU ao lado de outras duas iniciativas de restauração, localizadas na Arábia Saudita e no Sahel. Os projetos foram selecionados no âmbito da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas.
Os reconhecimentos são conduzidos pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O programa busca destacar iniciativas de restauração de ecossistemas em larga escala e com perspectiva de longo prazo.
A diretora executiva do PNUMA, Inger Andersen, relacionou a restauração de terras à segurança alimentar, à geração de empregos e à capacidade de adaptação diante de mudanças climáticas, seca e desertificação.
Brasil possui dois reconhecimentos da Década da ONU
A Araticum é uma das 30 iniciativas de restauração reconhecidas pela ONU desde 2022. Em conjunto, essas iniciativas já somam quase 20 milhões de hectares em processo de restauração e assumiram compromissos para recuperar aproximadamente 75 milhões de hectares até 2030.
Segundo as informações da Década da ONU, os projetos reconhecidos também contribuem para a geração de mais de 800 mil empregos e para a recuperação e o aumento de populações de espécies da biodiversidade.
Com o reconhecimento da Araticum, o Brasil passa a concentrar dois títulos de Iniciativa de Referência da Restauração Mundial, ampliando sua participação no programa internacional de recuperação de ecossistemas.
Meta brasileira prevê restauração de 12 milhões de hectares
A meta de 2 milhões de hectares da Araticum até 2030 está relacionada a um compromisso nacional mais amplo. O Brasil estabeleceu o objetivo de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
Para alcançar os resultados previstos, a iniciativa trabalha com instrumentos de natureza ambiental, social e econômica. Entre eles estão pagamento por serviços ambientais, agricultura sustentável, sistemas agroflorestais, planejamento territorial e políticas públicas.
A estratégia também procura valorizar ecossistemas não florestais, ampliando a abordagem tradicional da restauração ambiental para áreas de savana e campos nativos, especialmente no Cerrado.
Restauração integra compromissos ambientais internacionais
Os países já assumiram compromissos para restaurar 1 bilhão de hectares de terras, área superior à extensão territorial da China, no âmbito de diferentes acordos e metas ambientais internacionais.
Entre os compromissos relacionados estão o Acordo de Paris, as Metas de Aichi para a Biodiversidade, as Metas de Neutralidade da Degradação da Terra e o Desafio de Bonn.
A Década da ONU utiliza a Estrutura de Monitoramento da Restauração de Ecossistemas para acompanhar de forma transparente o progresso das iniciativas reconhecidas. O mecanismo busca ampliar a disponibilidade de informações sobre a extensão e a qualidade das áreas em recuperação.
Araticum amplia participação brasileira na agenda de restauração
O reconhecimento internacional ocorre em um momento em que a restauração do Cerrado ganha relevância diante da perda de vegetação nativa e dos efeitos associados à degradação dos solos, às mudanças climáticas e à disponibilidade de água.
A articulação entre organizações comunitárias, instituições públicas, pesquisadores, agricultores e outros atores permite estruturar projetos em diferentes regiões do bioma. A utilização de espécies nativas e técnicas de regeneração busca adequar a restauração às características dos territórios.
Ao estabelecer a meta de 2 milhões de hectares restaurados até 2030, a Araticum passa a integrar oficialmente o grupo de iniciativas reconhecidas pela ONU como referências mundiais. O resultado também coloca o Brasil como único país com dois projetos contemplados pelo programa, segundo as informações divulgadas no âmbito da Década da ONU da Restauração de Ecossistemas.








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