Pecuária na Bahia sob pressão: custo de R$ 310 por arroba, crédito caro, seca e rastreabilidade desafiam produtores; confira entrevista com Humberto Miranda, presidente da FAEB

Na segunda-feira (10/08/2026), durante entrevista ao Jornal Grande Bahia (JGB) no Café com o Produtor, realizado pela Cooperativa Pecuária de Feira de Santana (Cooperfeira), em Feira de Santana, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia (FAEB), Humberto Miranda Oliveira, afirmou que custos de produção elevados, crédito burocrático, juros, insegurança hídrica, deficiência da assistência técnica e fragilidade da organização coletiva limitam a rentabilidade da pecuária e de outras cadeias agropecuárias. Reeleito para o mandato 2026–2030, o dirigente também defendeu políticas públicas para financiar a rastreabilidade dos rebanhos e reconheceu que a renovação das entidades sindicais permanece como um desafio institucional.

Custo de R$ 310 por arroba reduz margem da pecuária

O diagnóstico sobre a rentabilidade foi apresentado a partir de um levantamento do projeto Campo Futuro, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), realizado em Santa Rita de Cássia, no oeste baiano. O estudo apontou que o Custo Operacional Total chegou a R$ 310,03 por arroba em uma propriedade típica dedicada à cria e recria, com 100 matrizes.

Segundo a CNA, os principais componentes do Custo Operacional Efetivo foram a reposição de animais, com 51,7%, a suplementação, com 23,6%, e a mão de obra, com 10,45%. Nas condições analisadas, a receita permitia cobrir os gastos diretos, mas não assegurava margem para remunerar o produtor nem compensar a depreciação de máquinas e equipamentos.

Miranda afirmou que o custo da mão de obra, da ração, dos fertilizantes, do sal mineral e de outros insumos interfere diretamente no resultado econômico da propriedade. De acordo com ele, a arroba do boi era negociada, naquele momento, entre R$ 340 e R$ 345 no mercado de Feira de Santana, o que exigia elevado nível de eficiência para preservar a sustentabilidade do negócio.

“Se não formos extremamente eficientes, não conseguimos margem suficiente para que o negócio continue gerando sustentabilidade para o produtor.”

O presidente da FAEB avaliou que a escassez de trabalhadores qualificados também provocou uma transformação no perfil profissional das fazendas. Em sua análise, o antigo papel do vaqueiro foi ampliado, e as propriedades passaram a demandar trabalhadores capazes de atuar como gestores das atividades produtivas, com remuneração superior ao salário mínimo.

Organização e profissionalização são apontadas como respostas

Miranda apresentou dois caminhos principais para enfrentar a redução das margens: organização coletiva dos produtores e profissionalização da gestão rural. O dirigente defendeu planejamento, aquisição antecipada de insumos, controle dos custos e comercialização conjunta dos animais.

Na avaliação do presidente da FAEB, o pecuarista que negocia isoladamente um único caminhão de bovinos dispõe de menor capacidade de barganha diante dos grandes frigoríficos. A formação de lotes por meio de associações, sindicatos e cooperativas poderia ampliar a escala comercial e melhorar as condições de negociação.

A mesma lógica foi aplicada ao debate sobre a formação dos preços. Questionado sobre a possibilidade de concentração excessiva na comercialização agropecuária, Miranda não apresentou indicadores sobre a participação de frigoríficos, laticínios ou intermediários no mercado baiano, mas sustentou que a organização jurídica e econômica dos produtores é necessária para reduzir a dependência individual.

“Os produtores só saem da dependência do mercado se estiverem organizados. Sem uma entidade que os represente, permanecerão sujeitos à variação e à instabilidade dos preços.”

Cooperativas como a Cooperfeira, segundo o dirigente, podem funcionar como instrumentos de compra coletiva, comercialização, intercâmbio de informações e representação institucional. Para Miranda, a existência de um CNPJ coletivo permite que pequenos e médios produtores negociem em condições mais próximas às dos agentes econômicos de maior porte.

Crédito rural enfrenta juros e burocracia bancária

O acesso ao financiamento ocupou parte central da entrevista. Para a agricultura empresarial, o Plano Safra 2026/2027 programou R$ 525,1 bilhões, dos quais R$ 384,9 bilhões foram destinados ao custeio e à comercialização e R$ 140,2 bilhões aos investimentos, conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária. Para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), foram anunciados R$ 85,2 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

Miranda ponderou que o volume nacional anunciado não assegura, por si só, que o financiamento chegará aos produtores residentes nos 417 municípios baianos. Entre os obstáculos mencionados estão exigências documentais, garantias, deslocamentos até as agências bancárias, custos cartoriais, tarifas e demora na análise das propostas.

“O primeiro problema do Plano Safra é fazer com que ele chegue à ponta. O produtor não mora em Brasília; ele mora nas cidades do interior, onde estão sua fazenda, seu emprego e sua renda.”

O presidente da FAEB afirmou que a taxa básica de juros, somada às despesas bancárias e cartoriais, pode elevar o custo efetivo dos financiamentos para patamares próximos de 20% ao ano, sobretudo para médios e grandes produtores. Na avaliação dele, poucas atividades agropecuárias conseguem gerar margem suficiente para absorver esse encargo.

Para os agricultores familiares, Miranda identificou a burocracia como o obstáculo inicial. Ele comparou o sistema atual com procedimentos adotados há cerca de duas décadas, quando propostas emergenciais eram preenchidas em formulários simplificados e encaminhadas diretamente à instituição financeira.

A proposta defendida pela FAEB e pela CNA é a digitalização integral do processo, permitindo que o produtor apresente a solicitação pelo celular, receba a relação dos documentos necessários e acompanhe remotamente a decisão da instituição financeira. O dirigente, entretanto, não apresentou estimativa sobre quanto dos recursos anunciados deverá ser efetivamente contratado na Bahia nem detalhou medidas específicas para renegociação de dívidas.

Plano hídrico é defendido para o Semiárido baiano

Ao tratar da recorrência das estiagens, Miranda defendeu a elaboração de um plano permanente de infraestrutura hídrica, com participação dos governos federal e estadual. Para ele, o atendimento emergencial por carros-pipa não pode continuar como principal resposta pública a secas previsíveis e recorrentes.

A dimensão territorial do problema é demonstrada pelo Info Semiárido 2026. Segundo a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia, 287 dos 417 municípios estão nos limites oficiais do Semiárido, área que ocupa 85,6% do território estadual e reúne 7,8 milhões de habitantes, equivalentes a 52,9% da população baiana.

Miranda citou as bacias dos rios São Francisco, Paraguaçu, Grande, de Contas e Jacuípe, além dos aquíferos Tucano e Urucuia, como bases para uma política de aproveitamento sustentável da água. O dirigente propôs a construção de barragens, o uso planejado das reservas subterrâneas, a recuperação de pastagens, a produção de silagem e a ampliação da irrigação de pequena escala.

“Não é concebível que, a cada seca, continuemos utilizando carros-pipa, perdendo animais e culturas e vendo as pessoas deixarem os distritos e povoados.”

A proposta da FAEB inclui pequenas áreas irrigadas, com cerca de dois hectares, destinadas a viabilizar produção de alimentos, ocupação e renda nas comunidades rurais. Miranda afirmou que a Bahia dispõe de conhecimento técnico e recursos naturais suficientes, mas carece de planejamento integrado para abastecimento humano e produção agropecuária.

O debate ocorre em meio à previsão de fortalecimento do El Niño. A Organização Meteorológica Mundial informou que um evento forte estava em desenvolvimento e poderia ganhar intensidade entre agosto e outubro de 2026, com aumento do risco de seca em algumas regiões. Os efeitos, contudo, variam conforme a área geográfica e dependem de monitoramento meteorológico regionalizado. Organização Meteorológica Mundial

Rastreabilidade deve incluir pequenos e médios criadores

A identificação individual dos bovinos e búfalos foi tratada como instrumento de segurança sanitária, controle produtivo e acesso aos mercados. O tema ganhou relevância após a Bahia receber, em 2025, o reconhecimento internacional como zona livre de febre aftosa sem vacinação, concedido pela Organização Mundial de Saúde Animal. Governo da Bahia

Miranda diferenciou a rastreabilidade sanitária do georreferenciamento dos imóveis rurais. Segundo ele, o cadastro e a identificação da propriedade são fundamentais para a segurança jurídica da atividade, enquanto a rastreabilidade acompanha a origem, a movimentação, os procedimentos sanitários e a destinação dos animais.

O Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos prevê a integração dos sistemas estaduais, a criação de uma base nacional e a implantação gradual da identificação até 2032. A política busca permitir o acompanhamento dos animais desde o nascimento até o abate, fortalecendo a resposta a emergências sanitárias e a transparência da cadeia de carne e leite. Ministério da Agricultura e Pecuária

O presidente da FAEB defendeu que pequenos e médios produtores recebam apoio público para adquirir identificadores, equipamentos e sistemas de gestão. Sem financiamento e assistência técnica, advertiu, a exigência pode restringir o acesso aos mercados em vez de funcionar como instrumento de modernização.

Miranda também relacionou a rastreabilidade ao enfrentamento do abate clandestino. Conforme declarou, a circulação de carne sem origem sanitária conhecida representa risco à saúde pública. Para reduzir o problema, sustentou que os pequenos criadores precisam ter acesso a estabelecimentos de abate regularizados e a estruturas capazes de receber os animais em condições economicamente viáveis.

Assistência técnica e segurança permanecem como problemas

Ao comparar a situação atual com as dificuldades mencionadas por ele em 2018, Miranda reconheceu que problemas relacionados ao seguro rural, ao crédito, à logística, à insegurança no campo e aos conflitos fundiários ainda não foram solucionados.

O dirigente citou a segurança pessoal e patrimonial nas áreas rurais e a segurança jurídica das propriedades como questões que exigem atuação das autoridades estaduais e federais. Também defendeu projetos de desenvolvimento regional que integrem infraestrutura hídrica, crédito, assistência técnica, tecnologia e organização produtiva.

Segundo Miranda, a Bahia reúne mais de 700 mil pequenos produtores, muitos dos quais não contam com acompanhamento contínuo de agrônomos, médicos-veterinários e técnicos agrícolas. O número foi apresentado pelo entrevistado sem indicação, durante a conversa, da base estatística utilizada.

A falta de assistência técnica afeta especialmente produtores de maior idade, que precisam adaptar as propriedades a novas exigências sanitárias, ambientais, tecnológicas e comerciais. Para o presidente da Federação, esse atendimento deve deixar de ser pontual e passar a integrar uma política permanente de desenvolvimento rural.

FAEB prioriza organização, mas não apresenta metas numéricas

Questionado sobre três metas mensuráveis para o mandato 2026–2030, Humberto Miranda definiu como prioridade a mobilização dos produtores por meio de mais de 100 sindicatos rurais, associações e cooperativas existentes na Bahia.

O objetivo declarado é ampliar a participação dos produtores nas entidades, fortalecer a representação política e organizar pautas relacionadas à segurança hídrica, crédito, assistência técnica, desenvolvimento regional, segurança no campo e rastreabilidade. O dirigente não especificou, entretanto, o número de novos associados pretendido, os municípios a serem alcançados, o orçamento necessário ou os prazos intermediários para avaliar os resultados.

“A prioridade número um é organizar o produtor para organizar a produção.”

Na avaliação de Miranda, produtores isolados têm menor capacidade de participar das decisões tomadas por prefeituras, Governo do Estado, Congresso Nacional e instituições financeiras. A organização coletiva permitiria formular propostas, negociar políticas públicas e acompanhar leis com impacto sobre as atividades rurais.

Miranda defende alternância e renovação das entidades

O presidente da FAEB também fez uma autocrítica sobre a permanência prolongada de dirigentes em sindicatos, cooperativas e associações. Segundo ele, existem entidades dos setores agropecuário, industrial e comercial comandadas pelas mesmas pessoas há duas ou três décadas.

“A alternância de poder é fundamental. Não é correto que uma pessoa permaneça 20 ou 30 anos em uma entidade.”

Miranda ponderou que a falta de renovação também decorre da baixa participação dos associados e da ausência de pessoas dispostas a assumir responsabilidades administrativas. Para modificar esse quadro, defendeu a formação de lideranças e a aproximação de jovens produtores das instituições representativas.

O dirigente informou que o programa FAEB/Senar Jovem desenvolve atividades de formação em 25 municípios baianos, incluindo Feira de Santana. A intenção é preparar novas lideranças para sindicatos, associações, cooperativas e para a própria Federação.

A declaração ocorre menos de dois meses depois de Miranda ser reeleito, com 98% dos votos válidos, para o mandato 2026–2030. Ao comentar a própria permanência, o presidente afirmou que outras pessoas podem reunir condições para dirigir a instituição e que cabe ao sistema sindical criar oportunidades para o surgimento dessas lideranças. Jornal Grande Bahia

Linha do tempo

  • 2018 — Humberto Miranda assume a FAEB: o médico-veterinário e produtor rural chega à presidência da Federação após exercer outras funções no Sistema FAEB/Senar.
  • Setembro de 2022 — Novo mandato: Miranda é empossado para o quadriênio 2022–2026.
  • Dezembro de 2024 — Aprovação do PNIB: o Ministério da Agricultura aprova o plano de identificação individual de bovinos e búfalos, com implantação progressiva até 2032.
  • Maio de 2025 — Certificação sanitária: Bahia e demais unidades federativas obtêm reconhecimento internacional como zonas livres de febre aftosa sem vacinação.
  • Outubro de 2025 — Direção da CNA: Miranda é eleito primeiro vice-presidente de Finanças da Confederação para o mandato 2025–2029.
  • 15 de junho de 2026 — Reeleição na FAEB: a chapa liderada por Humberto Miranda recebe 98% dos votos válidos para o quadriênio 2026–2030.
  • Julho de 2026 — Novo Plano Safra: o Governo Federal anuncia R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões para operações do Pronaf.
  • 20 de julho de 2026 — Debate sobre rastreabilidade: o Café com o Produtor reúne pecuaristas e técnicos para discutir identificação individual, gestão do rebanho e cronograma do PNIB.
  • 10 de agosto de 2026 — Entrevista na Cooperfeira: Miranda apresenta seu diagnóstico sobre custos, crédito, água, assistência técnica, rastreabilidade, organização coletiva e renovação sindical.

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