Rachel Reis: biografia, discografia e trajetória da cantora feirense indicada duas vezes ao Grammy Latino

Neste sábado (15/08/2026), aos 29 anos, a cantora e compositora feirense Rachel Reis atravessa uma fase de consolidação nacional, sustentada por dois álbuns de estúdio, projetos audiovisuais, circulação em festivais, presença em trilhas de novelas e séries e duas indicações ao Grammy Latino. Nascida em Feira de Santana, formada musicalmente no ambiente familiar e nos bares da cidade, a artista estreou em disco em 2020, alcançou projeção com “Maresia”, ampliou sua assinatura autoral em “Meu Esquema” e “Divina Casca” e chegou a 2026 com o lançamento de “Ao Vivo da Sereiona”, registro que reúne diferentes momentos de sua trajetória.

Origem familiar e formação musical em Feira de Santana

Rachel Reis de Cerqueira nasceu em 04/02/1997, em Feira de Santana. É filha da cantora Maura Reis e do radialista e advogado Henrique Cerqueira. Sua irmã, Sara Reis, também seguiu a atividade musical. Os dados biográficos são registrados pelo Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Maura Reis atuou como cantora de seresta e forró em Feira de Santana antes de direcionar o trabalho para a música religiosa. Rachel cresceu acompanhando ensaios, músicos e materiais relacionados às apresentações da mãe. Apesar desse ambiente, demorou a se reconhecer como possível profissional da música.

Em entrevista ao jornal Correio, a artista contou que inicialmente escolheu o curso de Direito, mas abandonou a graduação após um semestre e migrou para Publicidade e Propaganda. Segundo a própria cantora, foi em 2016 que decidiu começar a cantar profissionalmente.

Direito, Publicidade e trabalhos anteriores à carreira artística

Rachel cursou um semestre de Direito antes de mudar para Publicidade e Propaganda. Em outubro de 2022, informou à revista Noize que estava no último semestre do curso, realizado a distância. Não há, nas fontes consultadas, confirmação sobre a instituição de ensino ou a posterior conclusão formal da graduação.

Antes de viver exclusivamente da música, trabalhou como recepcionista em um posto de saúde, estagiou como designer, atuou em um brechó e exerceu a função de redatora em uma agência de publicidade. As experiências com comunicação ajudaram na gestão inicial da própria carreira.

Sem gravadora e equipe estruturada, a cantora redigia materiais de divulgação, procurava veículos de imprensa e acompanhava pessoalmente o planejamento dos lançamentos. Em entrevista à Forbes, resumiu esse processo: “Aprendi trocando o pneu com o carro andando”.

O acúmulo entre trabalho, faculdade, reuniões, ensaios e apresentações tornou-se insustentável à medida que a agenda artística cresceu. Rachel relatou que foi nesse período que passou a se reconhecer efetivamente como cantora e decidiu dedicar-se integralmente à música.

Dos bares aos primeiros trabalhos autorais

A trajetória profissional começou em bares e eventos de Feira de Santana, entre 2016 e 2018, com repertório formado principalmente por versões de músicas de outros intérpretes. O circuito proporcionou experiência de palco, mas também produziu desgaste, remuneração reduzida e episódios de assédio, segundo relato da artista à Forbes Brasil.

Em 19/01/2019, Rachel apresentou-se no projeto Dança e Música na Praça, no Mercado de Arte Popular de Feira de Santana. Acompanhada por músicos locais, interpretou repertório que transitava por MPB, reggae e samba. A apresentação foi registrada pelo Jornal Grande Bahia.

A mudança decisiva ocorreu depois da morte violenta de um colega do posto de saúde onde trabalhava. Rachel afirmou que o episódio a levou a reconsiderar suas prioridades. Ela deixou o emprego, viajou de ônibus para Recife e começou a gravar material próprio com o cantor e produtor pernambucano Barro, que posteriormente a apresentou ao produtor Guilherme Assis.

Desse processo surgiram “Ventilador”, primeira composição da cantora, escrita em 2018, e “Sossego”. “Ventilador” foi disponibilizada em 10/01/2020, marcando sua estreia fonográfica autoral.

“Encosta” e a projeção alcançada por “Maresia”

O primeiro trabalho de maior extensão foi o EP “Encosta”, lançado em 30/04/2021 em parceria com Zamba e Cuper. O projeto reúne quatro músicas — “20h”, “Chanel”, “Saudade” e “Desatei” — em dez minutos de duração, conforme o catálogo da Apple Music.

Produzido durante a pandemia de Covid-19, o EP combinou guitarra de inspiração caribenha, programação eletrônica, referências afro-baianas e letras relacionadas ao amor, à saudade, ao desejo e ao rompimento de relações prejudiciais.

Em 19/07/2021, a cantora lançou “Maresia”, com participação de Fredinho O Louco. A música foi concebida como faixa complementar de “Encosta” e aproximou a sonoridade do projeto do arrocha. Segundo o relato publicado pelo JGB, Fredinho foi convidado depois de ser ouvido cantando enquanto circulava de bicicleta em Boipeba.

Rachel afirmou que compôs a canção em poucos minutos, com a intenção de produzir uma música leve e dançante. A faixa tornou-se o maior êxito comercial de sua primeira fase. Em julho de 2025, a Forbes registrava mais de 31 milhões de reproduções de “Maresia” e cerca de 590 mil ouvintes mensais da artista no Spotify. Os números correspondem ao período da publicação e não devem ser interpretados como métricas atuais.

A música também foi incluída na trilha de “Fuzuê”, novela da TV Globo, ampliando o alcance da cantora para além das plataformas digitais. Em dezembro de 2021, Rachel lançou ainda “Me Veja”, parceria com a cantora baiana Illy.

“Meu Esquema” estabelece identidade autoral e chega ao Grammy Latino

O primeiro álbum de estúdio, “Meu Esquema”, foi lançado em 27/09/2022, com 12 faixas e 32 minutos de duração. O trabalho saiu pelos selos Alá e Zelo, com distribuição da Altafonte, e teve produção compartilhada por Barro, Guilherme Assis, Zamba e Cuper.

O repertório inclui canções como “Lovezinho”, “Motinha”, “Pelo”, “Bota Pagodão Ponto Net”, “Consolação”, “Não Venha Pela Metade”, “Flerte”, “Serenidade”, “Amor sem Barreira” e “Brasa”, esta última gravada com Céu. Todas as faixas receberam produções audiovisuais dirigidas por Lu Villaça, transformando o disco em um álbum visual.

Musicalmente, “Meu Esquema” articula afrobeat, MPB, ijexá, arrocha, pagodão baiano, pop e programação eletrônica. A percussão, conduzida em parte por Ícaro Sá, músico ligado ao BaianaSystem, funciona como elemento de unidade entre gêneros distintos.

O álbum levou Rachel à sua primeira indicação ao Grammy Latino, em 2023, na categoria Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa. O prêmio foi concedido a “Jardineiros”, do Planet Hemp, mas a nomeação colocou a cantora feirense entre artistas como Lô Borges, Tulipa Ruiz e Titãs, conforme a relação da Academia Latina da Gravação.

Nesse ciclo, Rachel também foi indicada como revelação nos prêmios Multishow e Women’s Music Event. Em fevereiro de 2023, recebeu o troféu de Artista Revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte — APCA, referente à produção musical de 2022. No mesmo ano, passou a integrar a lista Forbes Under 30, na categoria Música e Literatura.

Festivais, audiovisual e ampliação da circulação nacional

Após o lançamento de “Meu Esquema”, Rachel passou a circular por festivais como Coala, MITA, Rock The Mountain, Meca Inhotim, GRLS! e Sarará. Em 2024, realizou sua primeira turnê europeia e ampliou a presença em palcos nacionais.

O alcance também cresceu por meio das trilhas audiovisuais. Além de “Maresia” em “Fuzuê”, “Bateu”, colaboração com Gilsons e Mulú, entrou na trilha da novela “Renascer”. “Caju” foi produzida para a série “Cangaço Novo”, do Prime Video, enquanto “Melaço”, parceria com Lucy Alves, foi utilizada em “No Rancho Fundo”.

A canção “Pelo”, pertencente a “Meu Esquema”, integrou posteriormente o filme “Perrengue Fashion”. A inserção em novelas, séries e cinema ampliou a exposição do repertório e aproximou as músicas de públicos não necessariamente vinculados ao circuito de festivais ou à cena independente.

Em dezembro de 2023, a artista lançou “Macaco Sessions: Rachel Reis”, registro ao vivo produzido com a Macaco Gordo. O projeto contém 22 faixas e pouco mais de uma hora de duração.

“Divina Casca” aprofunda repertório e rende segunda indicação ao Grammy

O segundo álbum de estúdio, “Divina Casca”, chegou às plataformas em 15/04/2025, com 15 faixas e 47 minutos. O trabalho manteve Barro e Guilherme Assis entre os produtores e incorporou contribuições de Iuri Rio Branco, RDD, SekoBass, Marcelo de Lamare, Filipe Pampuri, Tomaz Loureiro e Diogo Strausz.

As participações foram organizadas de acordo com afinidades musicais. BaianaSystem aparece em “Alvoroço”; Don L, Nêssa e Rincon Sapiência participam de “Tabuleiro”; e o Psirico, comandado por Márcio Victor, integra “Apavoro”. O disco inclui ainda uma releitura de “Sexy Yemanjá”, composição de Pepeu Gomes e Tavinho Paes gravada pelos Novos Baianos.

Rachel definiu o álbum pelas ideias de tempo, construção e identidade. O título utiliza a casca como metáfora das experiências acumuladas ao longo da vida e também como referência direta ao corpo e à pele. Em comparação com o trabalho anterior, as letras preservam o amor como tema, mas adotam uma abordagem menos idealizada e mais relacionada ao amadurecimento.

A produção expande a paleta rítmica com samba, jazz, swing carioca, reggae, arrocha e elementos eletrônicos. Em “Jorge Ben”, a cantora presta homenagem à escrita, ao violão e à maneira como Jorge Ben Jor combina romantismo, balanço e narrativa cotidiana.

“Divina Casca” recebeu, em 2025, indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira/Música Afro-Portuguesa Brasileira. O vencedor foi “Um Mar Pra Cada Um”, de Luedji Luna. A segunda nomeação, entretanto, confirmou a continuidade do reconhecimento institucional iniciado com “Meu Esquema”. A lista oficial de indicados está disponível no site do Grammy Latino.

No mesmo período, Rachel apresentou a turnê do disco, participou do The Town e retornou a Feira de Santana para abrir a programação musical da Micareta de 2025 na Praça da Matriz. A apresentação incluiu o encontro com o também feirense Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem, em “Alvoroço”.

“No Seu Radinho” e a atualização da tradição musical baiana

Em 04/11/2025, poucos meses após “Divina Casca”, a cantora lançou “No Seu Radinho”, projeto de verão com sete faixas e 21 minutos. O repertório reúne “No Seu Radinho”, “Coisa Rara”, “Menino Fatal”, “40 Graus”, “Melô do Verão”, “Desfruta” e “Outras Cores”.

As participações de Carlinhos Brown, Jau, Afrocidade e ÀTTØØXXÁ aproximam diferentes gerações e vertentes da música produzida na Bahia. A proposta recupera a memória das músicas ouvidas pela artista no rádio durante a infância, atualizadas por arranjos de pop eletrônico, samba, reggae, axé e R&B.

O projeto também reforçou a identidade da “Sereiona”, apelido criado quando Rachel ainda cantava em bares. A denominação nasceu de sua ligação com o mar, com a Bahia e com a série televisiva “O Canto da Sereia”. Posteriormente, passou a ser adotada pelos fãs e incorporada à comunicação visual dos discos e shows.

“Ao Vivo da Sereiona” reúne fases distintas da discografia

O capítulo fonográfico mais recente é “Ao Vivo da Sereiona”, lançado em 16/06/2026 em parceria com a Macaco Gordo. O álbum tem 21 faixas, uma hora e dois minutos de duração e foi gravado em Salvador, com vista para o Elevador Lacerda e o Mercado Modelo.

O repertório percorre “Encosta”, “Meu Esquema”, “Divina Casca” e “No Seu Radinho”. Participam do audiovisual Márcio Victor, ÀTTØØXXÁ, Sarah Reis, Afrocidade e Fernanda Maia. A produção também incorporou integrantes do fã-clube da cantora, denominado Central da Sereiona.

Rachel afirmou que o objetivo era reafirmar o repertório e registrar a relação desenvolvida com o público. O projeto reúne versões reformuladas para o palco e documenta a passagem de apresentações menores para espetáculos estruturados em torno de uma identidade cênica própria. Os detalhes do lançamento foram publicados pela Billboard Brasil.

Influências musicais, processo criativo e estilo

Rachel Reis evita definir o próprio trabalho por um gênero único. “Não quero perder essa naturalidade, essa suavidade, esse frescor”, declarou ao Correio ao explicar sua resistência a enquadramentos fixos.

Entre as referências citadas diretamente pela cantora estão Mayra Andrade, Céu, Milton Nascimento e Jorge Ben Jor. Um perfil publicado pelo JGB acrescenta Sade, BaianaSystem, Gilberto Gil e Amy Winehouse ao conjunto de influências.

Essas referências aparecem menos como reprodução de modelos e mais como pontos de contato. De Jorge Ben Jor vêm o balanço do violão e a possibilidade de tratar o amor sem abandonar o ritmo. De Céu e Sade, percebe-se a aproximação entre voz contida, pop e sofisticação harmônica. BaianaSystem representa a conexão entre percussão afro-baiana, música urbana e experimentação eletrônica.

O processo de composição descrito pela artista geralmente começa pela melodia, seguida pela letra. Rachel afirma observar conversas, filmes, relações e histórias de outras pessoas. Amor, desejo, separação, autonomia, memória, corpo e pertencimento aparecem de maneira recorrente, mas recebem tratamentos rítmicos diferentes em cada projeto.

A percussão ocupa posição estrutural. Mesmo nas faixas mais próximas do pop ou da MPB, elementos de ijexá, samba-reggae, pagodão, afrobeat e arrocha preservam a ligação com a Bahia. Essa combinação permite que o repertório circule entre a escuta intimista e a pista de dança sem romper a coerência artística.

Influência cultural e representação da música produzida na Bahia

A obra de Rachel também passou a ser examinada academicamente. Em artigo publicado em 2024 na Revista Vórtex, as pesquisadoras Nadja Vladi Gumes e Tatiana Rodrigues Lima, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, analisaram “Meu Esquema” a partir de conceitos como interseccionalidade, ancestralidade e decolonialidade.

As autoras situam o álbum visual em uma cena musical afro-latina e diaspórica vinculada a Salvador e a outras territorialidades marcadas pela formação histórica negra. Essa é uma interpretação acadêmica da obra, não uma definição adotada obrigatoriamente pela cantora. O artigo científico considera a performance, o corpo, a raça, o gênero e a sexualidade como componentes da linguagem artística do projeto.

A discussão ganha relevância porque Rachel relatou ter sido questionada, por ser uma mulher negra, sobre o direito de compor prioritariamente sobre amor. A experiência foi narrada pela própria artista à Noize. Sua permanência no repertório romântico, portanto, pode ser interpretada tanto como escolha estética quanto como afirmação da liberdade temática de uma compositora negra.

Ao levar arrocha, pagodão, ijexá, reggae e referências da música afro-baiana para festivais, trilhas audiovisuais e premiações internacionais, Rachel contribui para ampliar a percepção sobre a produção cultural originada fora do eixo Rio–São Paulo. Sua origem feirense permanece como elemento biográfico e simbólico dessa trajetória.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 04/02/1997 — Rachel Reis de Cerqueira nasce em Feira de Santana, em família ligada à música e à comunicação.
  • 2016 — Decide iniciar a carreira e passa a cantar em bares, festas e eventos da região de Feira de Santana.
  • 2016 a 2018 — Atua principalmente como intérprete de músicas de outros artistas e acumula experiência de palco.
  • 19/01/2019 — Apresenta-se no Mercado de Arte Popular de Feira de Santana, pelo projeto Dança e Música na Praça.
  • 2019 — Deixa o trabalho de recepcionista e viaja para Recife para iniciar a gravação das primeiras composições.
  • 10/01/2020 — Lança “Ventilador”, primeira gravação autoral disponibilizada comercialmente.
  • 30/04/2021 — Publica o EP “Encosta”, com quatro músicas, em parceria com Zamba e Cuper.
  • 19/07/2021 — Lança “Maresia”, com Fredinho O Louco; a faixa torna-se o principal êxito comercial da primeira fase.
  • 10/12/2021 — Apresenta “Me Veja”, parceria com Illy.
  • 27/09/2022 — Lança “Meu Esquema”, primeiro álbum de estúdio, com 12 faixas autorais.
  • 2023 — Recebe o troféu de Artista Revelação da APCA, integra a Forbes Under 30 e conquista a primeira indicação ao Grammy Latino.
  • 09/12/2023 — Lança “Macaco Sessions: Rachel Reis”, primeiro registro extenso ao vivo.
  • 2024 — Realiza a primeira turnê europeia e amplia a presença do repertório em novelas, séries e festivais.
  • 15/04/2025 — Lança “Divina Casca”, segundo álbum de estúdio, com 15 faixas.
  • 2025 — “Divina Casca” recebe indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira/Música Afro-Portuguesa Brasileira.
  • 01/05/2025 — Abre a programação musical da Micareta de Feira de Santana e divide o palco com Russo Passapusso.
  • 04/11/2025 — Lança o projeto de verão “No Seu Radinho”, com sete músicas e participações de artistas baianos.
  • 16/06/2026 — Disponibiliza “Ao Vivo da Sereiona”, álbum audiovisual com 21 faixas gravado em Salvador.

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