O fenômeno climático El Niño está se intensificando e deve influenciar os padrões meteorológicos globais entre agosto e outubro de 2026, com possibilidade de permanecer ativo até o início de 2027, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM). A alteração das temperaturas do Oceano Pacífico Equatorial provoca mudanças no regime de chuvas em diversas regiões do planeta, afetando diretamente a agricultura, a segurança alimentar, a disponibilidade de água, a saúde pública e milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade.
No leste e no sul da África, os impactos já são registrados por comunidades que enfrentam secas prolongadas, enchentes, perdas agrícolas, aumento da fome e disseminação de doenças. Em resposta, agências das Nações Unidas ampliam investimentos em ações antecipatórias, sistemas de alerta e assistência humanitária para reduzir os efeitos dos eventos climáticos extremos.
Especialistas destacam que o El Niño é um fenômeno natural, caracterizado pelo aquecimento periódico das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora não seja provocado pelas mudanças climáticas, o aquecimento global pode potencializar seus efeitos, tornando eventos extremos mais intensos em diferentes regiões do mundo.
O que é o El Niño e como ele influencia o clima global
O El Niño consiste no aquecimento acima da média da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central e Oriental. O fenômeno ocorre, em média, entre dois e sete anos, costuma durar de nove a doze meses e normalmente começa a se desenvolver entre março e junho, alcançando maior intensidade entre novembro e fevereiro.
Durante sua atuação, os padrões atmosféricos são alterados em escala global, provocando mudanças significativas na distribuição das chuvas e nas temperaturas em diversos continentes.
Segundo a OMM, as projeções indicam que o evento atual deverá apresentar intensidade forte, favorecendo temperaturas acima da média em grande parte do planeta e modificando os regimes de precipitação em diferentes regiões.
Leste e sul da África enfrentam impactos distintos com o mesmo resultado
O comportamento do El Niño varia conforme a região. No leste da África, abrangendo países como Somália e Tanzânia, o fenômeno costuma provocar chuvas intensas, enchentes, deslizamentos de terra, transbordamento de rios e interrupção do acesso a serviços essenciais, como hospitais e escolas.
Já no sul da África, incluindo Zâmbia, África do Sul, Namíbia e Moçambique, predominam períodos prolongados de estiagem, comprometendo plantações, reduzindo a disponibilidade de água e afetando áreas de pastagem utilizadas na criação de animais.
Embora os efeitos climáticos sejam diferentes, o resultado converge para o aumento da insegurança alimentar, da vulnerabilidade econômica e da perda dos meios de subsistência de milhões de pessoas.
Perda de colheitas amplia insegurança alimentar
Na Zâmbia, agricultores relatam perdas sucessivas na produção de milho em razão da seca registrada em 2024. Esnart Chongani afirmou que sua família não conseguiu colher nenhuma produção de milho, situação que afetou também comunidades vizinhas.
No Malauí, Martha Kalumbi relatou que a perda da safra levou seu bebê à hospitalização por desnutrição, evidenciando o impacto da redução da produção agrícola sobre a segurança alimentar das famílias.
A escassez de alimentos também reduz a capacidade de apoio entre comunidades rurais, agravando o cenário social em regiões já afetadas por dificuldades econômicas.
Enchentes favorecem disseminação de doenças
Além dos prejuízos agrícolas, as enchentes contaminam fontes de abastecimento de água, elevando o risco de surtos de cólera e de outras doenças transmitidas pela água contaminada.
O acúmulo de água também cria condições favoráveis para a reprodução de mosquitos transmissores da malária, ampliando os desafios enfrentados pelos sistemas de saúde pública.
Na Somália, Asha Mohamed, mãe de nove filhos, relatou que precisou abandonar sua residência após as enchentes de 2023 e enfrentou dificuldades para obter medicamentos e atendimento médico para os filhos.
ONU amplia ações antecipatórias para reduzir impactos
Como o El Niño pode ser previsto com meses de antecedência, agências das Nações Unidas vêm reforçando estratégias voltadas à preparação das comunidades antes da ocorrência dos desastres.
Entre 2023 e 2025, programas de ação antecipatória atenderam mais de três milhões de pessoas no sul da África e cerca de 5,5 milhões no leste africano, com distribuição antecipada de recursos financeiros, assistência humanitária e apoio à produção agrícola.
Em Madagascar, famílias que receberam previamente transferências de renda e sementes resistentes à seca apresentaram melhores condições alimentares em comparação às comunidades que não receberam esse suporte.
Investimentos incluem alerta precoce e apoio agrícola
Na Zâmbia, governos e parceiros internacionais ampliam investimentos em sistemas de monitoramento meteorológico para fortalecer os mecanismos de alerta precoce.
Ao mesmo tempo, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (WFP) lançaram uma iniciativa para atender 8,8 milhões de pessoas em 22 países considerados de alto risco, oferecendo assistência financeira, fortalecimento da produção agrícola, medidas para aumentar a resiliência diante de secas e enchentes e proteção aos rebanhos.
Segundo o coordenador de Ajuda Humanitária de Emergência da ONU, Tom Fletcher, investir em preparação pode reduzir significativamente os impactos sociais e econômicos provocados pelos desastres climáticos.
OMM prevê temperaturas acima da média em diversas regiões
A Organização Meteorológica Mundial informou que o El Niño deverá dominar os padrões climáticos globais entre agosto e outubro de 2026, elevando a probabilidade de temperaturas acima da média em extensas áreas continentais.
Entre as regiões com maior probabilidade de calor acima da média estão África, sul da Europa, Península Arábica, subcontinente indiano, leste da Ásia, América Central, Caribe, África Austral, grande parte da América do Sul e Nova Zelândia.
Quanto às chuvas, a previsão indica precipitações acima da média no Grande Chifre da África, partes da Ásia Central, sul da Europa, oeste da América do Norte e sudeste da América do Sul. Em contrapartida, são esperadas condições mais secas no subcontinente indiano, sul e leste da Austrália, sul da América Central, partes do Caribe, noroeste da América do Sul e norte da Europa.
Dipolo Positivo do Oceano Índico pode ampliar eventos extremos
Além do fortalecimento do El Niño, meteorologistas monitoram o desenvolvimento de um Dipolo Positivo do Oceano Índico, fenômeno caracterizado pelo aquecimento das águas na porção oeste do oceano e resfriamento relativo no setor leste.
A combinação entre os dois padrões oceânicos poderá intensificar secas, enchentes e incêndios florestais, principalmente nas áreas localizadas ao redor da bacia do Oceano Índico.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que previsões climáticas, isoladamente, não evitam desastres, destacando a importância da utilização dessas informações para orientar decisões e ampliar medidas de prevenção.
*Com informações da ONU News.








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