Mais de 200 mil pessoas foram deslocadas recentemente na região de Cordofão, no Sudão, em consequência do agravamento dos confrontos registrados desde o final de 2025. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) alertou para ataques com drones contra infraestrutura essencial de água e eletricidade em El-Obeid, cidade que concentra uma parcela crescente da população deslocada.
O número de pessoas deslocadas em Cordofão aumentou 25% nos últimos oito meses, segundo os dados apresentados pela OIM. Ataques atribuídos às Forças de Apoio Rápido (RSF) atingiram a principal subestação elétrica de El-Obeid, afetando serviços essenciais.
A interrupção do fornecimento de energia comprometeu o bombeamento de água, o funcionamento de hospitais e as redes de comunicação. O impacto ocorre em meio a um dos períodos mais prolongados de cerco registrados durante a guerra iniciada em 2023.
El-Obeid concentra milhares de deslocados
El-Obeid, maior cidade da região de Sheikan, passou de uma população de aproximadamente 750 mil habitantes para cerca de 3,4 milhões de pessoas, segundo as informações apresentadas no contexto da crise de deslocamento.
A concentração populacional é resultado do fluxo de pessoas que deixaram áreas afetadas pelos combates. Estimativas humanitárias indicam que 39 mil crianças chegaram à cidade somente no primeiro semestre deste ano, ampliando a demanda por água, alimentação, abrigo, saúde e outros serviços.
A situação é acompanhada por organizações humanitárias diante da combinação entre conflito armado, destruição de infraestrutura e deslocamento populacional. A interrupção de serviços básicos aumenta as necessidades das famílias que permanecem na região.
Rota de suprimentos é reaberta
Apesar das restrições, uma rota de suprimentos foi reaberta, permitindo que a OIM realizasse uma operação de distribuição de ajuda. Nesta semana, a organização entregou 1.750 toneladas de assistência, incluindo 17.750 kits de higiene e 850 tendas.
A operação beneficiou aproximadamente 110.750 pessoas afetadas pelo conflito e pelo deslocamento. A comunidade humanitária pretende ampliar a resposta e alcançar mais de 400 mil pessoas nos próximos dias.
A continuidade das ações, no entanto, enfrenta limitações decorrentes da redução do financiamento humanitário. A falta de recursos pode comprometer a capacidade das organizações de manter operações de assistência e ampliar a distribuição para áreas com maior necessidade.
Inundações ampliam deslocamentos
Além dos confrontos, inundações sazonais aumentaram a pressão sobre comunidades afetadas pela guerra. No estado de Darfur do Norte, chuvas intensas danificaram 1.350 casas e provocaram o deslocamento de mais de mil famílias em Tawila.
Novos deslocamentos também foram registrados no estado do Nilo Azul e em Darfur Ocidental. Somente em agosto, mais de 86 mil pessoas foram deslocadas em diferentes áreas do Sudão.
A sobreposição entre eventos climáticos e conflito dificulta a capacidade de resposta das comunidades e das organizações de assistência. Famílias deslocadas enfrentam necessidades simultâneas de abrigo, alimentação, água potável, cuidados médicos e proteção.
OIM alerta para dimensão da crise
A diretora-geral da OIM, Amy Pope, classificou o Sudão como cenário de uma das maiores crises de deslocamento do mundo. Segundo a organização, a combinação entre violência, danos à infraestrutura e inundações tem levado milhares de famílias a situações de extrema vulnerabilidade.
Desde o início da guerra, em 2023, o conflito deixou pelo menos 59 mil mortos e 14 milhões de deslocados, conforme as estimativas apresentadas. Entre as pessoas deslocadas, 8,6 milhões permanecem em outras regiões do Sudão, enquanto 4,2 milhões buscaram refúgio em países vizinhos.
Os números evidenciam a dimensão nacional do deslocamento provocado pelo conflito entre as forças militares em disputa. A crise ultrapassa as áreas diretamente atingidas pelos combates e afeta também regiões que recebem grandes contingentes de pessoas deslocadas.
Milhões precisam de assistência humanitária
Atualmente, cerca de 33,7 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária urgente no Sudão, segundo os dados citados pela OIM.
A situação envolve diferentes necessidades, desde proteção e abrigo até acesso a água, alimentos, saúde e saneamento. Os danos provocados aos sistemas de energia e abastecimento dificultam a manutenção de serviços essenciais justamente nas áreas que concentram maior número de deslocados.
A continuidade dos confrontos em Cordofão, associada às inundações sazonais e à insuficiência de financiamento, mantém a pressão sobre a resposta humanitária. A ampliação das operações dependerá da disponibilidade de recursos e das condições de acesso às populações afetadas.
Conflito mantém deslocamento em larga escala
A escalada da violência em Cordofão representa mais uma frente da crise iniciada no Sudão em 2023. Os ataques contra infraestrutura essencial em El-Obeid acrescentam novos obstáculos ao atendimento de uma população que cresceu rapidamente em razão dos deslocamentos.
Enquanto organizações humanitárias tentam ampliar a distribuição de assistência, novos deslocamentos continuam sendo registrados em diferentes estados, incluindo Darfur do Norte, Darfur Ocidental e Nilo Azul.
O cenário combina conflito armado, deslocamento, danos à infraestrutura, inundações e restrições financeiras à ajuda humanitária, mantendo milhões de sudaneses dependentes de assistência para acesso a necessidades básicas.
*Com informações da ONU News.








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