Os atentados de 11 de setembro de 2001 completam 25 anos nesta sexta-feira (11/09/2026) e permanecem como um dos principais marcos da política internacional contemporânea. Os ataques coordenados pela Al-Qaeda contra os Estados Unidos provocaram 2.977 mortes e cerca de 6 mil feridos, além de desencadearem uma mudança na política externa e de segurança de Washington.
Na manhã daquele dia, dois aviões comerciais atingiram as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Uma terceira aeronave atingiu o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, enquanto uma quarta caiu em uma área rural da Pensilvânia. A aeronave que caiu no estado americano provavelmente tinha como destino o Capitólio, em Washington.
A resposta do governo do então presidente George W. Bush estabeleceu a chamada “Guerra ao Terror” como eixo da política externa americana. A estratégia combinou operações militares, medidas de segurança interna, ampliação de mecanismos de vigilância e intervenções em países considerados relacionados à ameaça terrorista.
Afeganistão foi o primeiro conflito após os atentados
Em outubro de 2001, os Estados Unidos iniciaram uma operação militar no Afeganistão contra o Talibã, regime que controlava o país e onde estava Osama bin Laden, líder da Al-Qaeda. O conflito se prolongou por aproximadamente 20 anos, até a retirada das tropas americanas e de seus aliados ocidentais em 2021.
A guerra afegã passou a integrar uma estratégia mais ampla de combate ao terrorismo internacional. Durante o governo Bush, Washington também formulou a ideia de “guerra preventiva” e classificou Iraque, Irã e Coreia do Norte como integrantes do chamado “eixo do mal”.
Em 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A intervenção foi justificada pela alegação de que o governo de Saddam Hussein mantinha armas de destruição em massa, posteriormente não encontradas. O conflito contribuiu para a desestruturação do Estado iraquiano e para a intensificação das disputas políticas e sectárias na região.
Iraque, Síria e o avanço de novos grupos armados
A guerra no Iraque alterou o equilíbrio de forças no Oriente Médio. A instalação de um governo de maioria xiita em Bagdá contribuiu para o aumento da influência regional do Irã, ao mesmo tempo em que o país enfrentou confrontos internos e o crescimento de grupos armados.
Nesse contexto, organizações extremistas ganharam espaço. Entre elas estava o Estado Islâmico, que posteriormente passou a controlar áreas do Iraque e da Síria e se tornou uma das principais ameaças transnacionais enfrentadas pelos Estados Unidos e seus aliados.
Um levantamento do Costs of War Project, da Universidade Brown, citado no texto, estimou em 2023 que mais de 930 mil pessoas morreram diretamente pela violência relacionada às guerras posteriores ao 11 de Setembro no Iraque, Afeganistão, Síria, Iêmen e Paquistão entre 2001 e 2023. Desse total, aproximadamente 432 mil eram civis.
O mesmo estudo estimou ainda entre 3,6 milhões e 3,8 milhões de mortes indiretas relacionadas às condições decorrentes dos conflitos. Somadas as mortes diretas e indiretas, a estimativa alcança pelo menos 4,5 milhões a 4,7 milhões de pessoas.
Segurança interna e restrições a direitos
A reação americana aos atentados também produziu mudanças dentro dos Estados Unidos. Em outubro de 2001, o Congresso aprovou o Patriot Act, legislação que ampliou os instrumentos disponíveis às autoridades para investigação, vigilância e combate ao terrorismo.
Entre as medidas estavam alterações nos mecanismos de investigação, ampliação de determinadas formas de monitoramento e mudanças nas regras relacionadas à imigração e à detenção de estrangeiros. A política antiterrorista também foi acompanhada por operações da CIA que posteriormente provocaram críticas de organizações de direitos humanos.
A prisão de Guantánamo, instalada na base naval americana em Cuba, tornou-se um dos principais símbolos das controvérsias envolvendo a política de combate ao terrorismo. Organizações internacionais denunciaram detenções sem julgamento, enquanto práticas de interrogatório utilizadas pela CIA também foram alvo de questionamentos jurídicos.
Julgamento de Khalid Sheikh Mohammed permanece como questão jurídica
Outro aspecto ainda associado aos desdobramentos do 11 de Setembro é o processo contra Khalid Sheikh Mohammed, apontado pelas autoridades americanas como um dos principais responsáveis pelo planejamento dos atentados.
O caso permaneceu durante anos submetido a disputas judiciais e questões relacionadas às provas obtidas durante interrogatórios conduzidos pela CIA. Entre os pontos questionados está a utilização de informações obtidas mediante práticas consideradas tortura.
A discussão adquiriu relevância porque, conforme argumentam organizações de direitos humanos e especialistas em direito internacional, confissões obtidas por meio de tortura não devem ser utilizadas como prova válida. O prolongamento do processo tornou-se parte das controvérsias sobre os métodos empregados pelos Estados Unidos após os atentados.
Multilateralismo perdeu espaço na política externa
O 11 de Setembro também modificou a relação dos Estados Unidos com organismos internacionais e aliados. A prioridade concedida às operações militares e à segurança nacional fortaleceu uma orientação considerada mais unilateral na condução da política externa americana.
A invasão do Iraque tornou-se um dos principais exemplos dessa mudança. A decisão de iniciar a guerra sem autorização do Conselho de Segurança da ONU provocou divergências entre Washington e países aliados e afetou a percepção internacional sobre a atuação americana.
Para analistas citados no texto, as guerras prolongadas também produziram custos econômicos, militares e políticos para os Estados Unidos. A combinação desses fatores contribuiu para debates sobre os limites do poder americano e sobre a capacidade de Washington de impor mudanças políticas por meio da força militar.
Da “Guerra ao Terror” ao “America First”
A política externa americana passou por novas mudanças nos governos posteriores a George W. Bush. Barack Obama procurou redefinir alguns aspectos da atuação internacional dos Estados Unidos, enquanto Donald Trump, especialmente entre 2017 e 2021, adotou a orientação política sintetizada pelo lema “America First”.
A mudança representou uma redução da ênfase na promoção internacional da democracia e uma maior concentração nos interesses considerados prioritários para os Estados Unidos. O movimento também se relacionou ao crescimento de tendências isolacionistas dentro da política americana.
Para a especialista em política externa americana Maud Quessard, citada no texto, as guerras iniciadas após o 11 de Setembro contribuíram para enfraquecer a posição americana em determinados aspectos. Na avaliação apresentada, o período também revelou limites na tentativa de promover mudanças de regime e modelos políticos por meio da força militar.
China amplia influência enquanto EUA concentram atenção no Oriente Médio
Outro resultado geopolítico apontado pela análise é a expansão do poder da China durante as décadas em que os Estados Unidos concentraram parte significativa de seus recursos políticos e militares no Oriente Médio.
A ascensão chinesa modificou o equilíbrio internacional e transformou Pequim no principal rival estratégico de Washington. O cenário passou a ser marcado por uma disputa que envolve poder militar, economia, comércio, tecnologia e influência diplomática.
O processo contribuiu para o debate sobre o chamado “fim do século americano”, expressão utilizada por alguns analistas para descrever a redução relativa da predominância dos Estados Unidos no sistema internacional. Quessard, entretanto, estabelece outra referência temporal para essa possível transição, associando-a principalmente ao período político iniciado com Donald Trump e, sobretudo, ao seu segundo mandato.
25 anos depois, legado permanece em disputa
A passagem de 25 anos desde os atentados de 11 de Setembro permite avaliar um período marcado por guerras, mudanças legislativas, transformações na política externa e alterações na distribuição do poder internacional.
Os Estados Unidos permaneceram entre as principais potências econômica, comercial e militar no período posterior aos ataques. Ao mesmo tempo, as intervenções no Afeganistão e no Iraque, o impacto humanitário dos conflitos e as controvérsias relacionadas às medidas de segurança interna passaram a integrar a avaliação histórica sobre os resultados da chamada Guerra ao Terror.
O legado dos atentados, portanto, não se restringe ao episódio ocorrido em 11/09/2001. Seus efeitos alcançaram a política externa americana, as relações com aliados, a atuação no Oriente Médio, as políticas de segurança e o equilíbrio entre grandes potências. Um quarto de século depois, o 11 de Setembro continua sendo uma referência para compreender as transformações da ordem internacional no século XXI.
*Com informações da RFI.








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