O Brasil precisará ampliar os investimentos em mobilidade urbana nas próximas décadas. Segundo dados apresentados por Luciana Costa, diretora de Infraestrutura do BNDES, durante a Lat.Bus 2026, o setor recebeu, em média, R$ 6 bilhões por ano na última década, enquanto a necessidade estimada pelo banco chega a R$ 50 bilhões anuais.
Na mesma agenda, o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), desenvolvido pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades, identificou 187 projetos de transporte público coletivo de média e alta capacidade nas 21 maiores regiões metropolitanas brasileiras. Os projetos somam investimentos estimados em aproximadamente R$ 430 bilhões até 2054.
O levantamento prevê ainda a expansão de aproximadamente 2.500 quilômetros de redes de transporte coletivo nas regiões analisadas, que atualmente possuem 2.007 quilômetros. Do crescimento projetado, cerca de 1.930 quilômetros correspondem a novos trechos de BRT, VLT ou monotrilho, enquanto outros 157 quilômetros estão relacionados a corredores exclusivos de ônibus.
Eletrificação amplia demanda por infraestrutura
A expansão dos investimentos em transporte coletivo ocorre simultaneamente ao avanço da eletrificação das frotas. Nesse cenário, a aquisição dos veículos representa apenas uma parte do processo. Autonomia, baterias, estratégia de recarga, disponibilidade da frota, capacidade da rede elétrica e características dos corredores passam a integrar o planejamento dos sistemas.
Segundo o BNDES, a autonomia influencia o peso e o volume das baterias, a capacidade de passageiros e o tamanho necessário da frota. A tensão elétrica disponível também pode afetar os custos e o cronograma de implantação da infraestrutura de recarga.
A questão ganha importância em corredores de alta frequência e sistemas BRT, nos quais os ônibus precisam cumprir jornadas extensas e manter regularidade operacional. A definição do modelo de recarga, portanto, pode interferir no dimensionamento da frota e na organização dos terminais, garagens e demais estruturas do sistema.
Financiamento acompanha renovação das frotas
Os investimentos em eletrificação já contam com linhas de financiamento específicas. Em junho de 2026, o BNDES havia aprovado R$ 10 bilhões no programa BNDES Mais Mobilidade, que possui dotação de até R$ 21 bilhões para renovação de veículos pesados e modernização do transporte rodoviário e urbano de cargas e passageiros.
No segmento de ônibus elétricos, o banco informou que, desde 2023, havia aprovado R$ 4,5 bilhões em crédito para projetos envolvendo aproximadamente 2 mil veículos. Segundo dados divulgados pelo BNDES, os financiamentos correspondem a cerca de R$ 6 bilhões em investimentos e possuem potencial estimado de reduzir 122 mil toneladas de CO₂ por ano.
Em São Paulo, uma operação de R$ 2,5 bilhões foi estruturada para apoiar a aquisição de até 1,3 mil ônibus elétricos. Em junho de 2026, R$ 1,9 bilhão havia sido liberado e 930 veículos entregues, segundo informações do BNDES. O Fundo Clima também contempla projetos de eletrificação de frotas e a implantação e aquisição de infraestrutura destinada à recarga de baterias de tração.
Recarga passa a integrar o planejamento operacional
Com a expansão das frotas elétricas, a definição de onde, quando e como os ônibus serão recarregados passa a fazer parte do planejamento da operação. Entre as possibilidades estão a recarga concentrada em garagens, o carregamento em terminais e pontos de parada e sistemas distribuídos ao longo das rotas.
A escolha depende de fatores como autonomia dos veículos, duração das viagens, tempo disponível para recarga, espaço físico e capacidade da rede elétrica. A infraestrutura precisa ser dimensionada de acordo com as características de cada sistema, sobretudo em operações de alta demanda.
Outra alternativa é a recarga sem fio por indução magnética, que permite transferir energia entre equipamentos instalados na infraestrutura e receptores instalados nos veículos sem conexão física por cabos. Dependendo da configuração, o carregamento pode ocorrer com o ônibus estacionado, durante paradas ou enquanto o veículo se desloca.
Electreon desenvolve modelos de recarga sem fio
A Electreon trabalha com diferentes configurações de carregamento sem fio. Segundo a empresa, a solução DOT é destinada ao carregamento estacionário; a DASH, ao carregamento durante paradas e deslocamentos lentos; e a LINE, ao carregamento dinâmico durante o movimento.
Para o transporte coletivo, a utilização de diferentes pontos de recarga permite distribuir a reposição de energia ao longo da jornada. A estratégia busca reduzir a dependência de uma única janela de carregamento em garagem e adaptar a infraestrutura às características de cada rota.
“Quando falamos em eletrificação do transporte coletivo, não estamos falando apenas sobre substituir o motor a diesel por um sistema elétrico. É necessário pensar em como a energia será disponibilizada ao veículo durante toda a sua operação”, afirma Ronen Avraham, diretor da Electreon para a América Latina.
Tecnologia é testada em sistemas de transporte
A Electreon informa que sua tecnologia já foi utilizada ou testada em projetos internacionais de transporte público. Em Trondheim, na Noruega, um ônibus elétrico equipado com o sistema realiza carregamento sem fio durante o trajeto e nas paradas.
A empresa também desenvolve uma solução voltada a sistemas BRT, combinando carregamento em movimento, nas paradas e em garagens. O modelo procura adequar os pontos de fornecimento de energia às características da operação.
A lógica do carregamento distribuído pode alterar a relação tradicional entre quantidade de veículos e infraestrutura. Ao utilizar diferentes momentos da jornada para reposição de energia, o dimensionamento dos carregadores passa a considerar a dinâmica da operação, e não apenas a permanência dos veículos nas garagens.
Mobilidade exige integração entre transporte e energia
A expansão projetada pelo ENMU coloca em perspectiva um planejamento de longo prazo que envolve corredores, terminais, frota, energia, financiamento, regulação e operação. Os investimentos previstos até 2054 exigem decisões que ultrapassam a aquisição de veículos.
Para o BNDES, a ampliação dos investimentos em mobilidade depende da criação de condições regulatórias, jurídicas e financeiras capazes de viabilizar os projetos. A eletrificação acrescenta uma dimensão energética a esse processo, tornando a infraestrutura de recarga parte da própria estrutura dos sistemas de transporte.
Para operadores e gestores públicos, a questão central passa a ser identificar qual combinação de infraestrutura permite que os ônibus elétricos cumpram suas jornadas com disponibilidade operacional. A resposta pode variar conforme a cidade, a rota, o corredor, o modelo de operação e as condições da rede elétrica.
A tendência é que diferentes modalidades de recarga sejam utilizadas de maneira combinada, incluindo sistemas convencionais, carregamento de oportunidade e tecnologias sem fio. Para Ronen Avraham, o planejamento dessa infraestrutura deve ocorrer antes da definição completa dos sistemas, considerando as características dos corredores e da rede elétrica.
O avanço da mobilidade elétrica, portanto, desloca parte do debate da simples substituição de veículos para a integração entre ônibus, infraestrutura de recarga, rede elétrica e planejamento operacional. À medida que os projetos de transporte coletivo avançam, essa integração deverá ser considerada no dimensionamento dos sistemas e nos investimentos necessários para sua implantação.
Sobre a Electreon
A Electreon atua no desenvolvimento de infraestrutura inteligente de recarga sem fio para veículos elétricos. Segundo informações da empresa, sua plataforma integra infraestrutura viária, veículos, rede elétrica e software, com configurações destinadas a diferentes necessidades operacionais.
A empresa informa possuir mais de 20 projetos globais, mais de 400 patentes concedidas ou em processo de aprovação, mais de 25 parceiros automotivos e uma equipe superior a 120 profissionais.








Deixe um comentário