Nesta quarta-feira (30/09/2026), novos elementos extraídos pela Polícia Federal (PF) do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ampliam o escrutínio sobre a relação mantida com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Segundo material obtido pela CNN Brasil, os dois registraram 202 chamadas telefônicas entre março de 2024 e outubro de 2025 — 100 concluídas e 102 não atendidas — e combinaram ao menos 19 encontros presenciais. As mensagens incluem referências ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), à disputa pela presidência da Câmara, pedidos de transporte em aeronaves e ingressos para o Carnaval, além de conversas anteriormente reveladas sobre um financiamento de pelo menos R$ 22 milhões concedido pelo Master a uma empresa ligada à cunhada do parlamentar e referências a um possível “formato em sociedade”. Motta afirma que os diálogos divulgados não registram ilícitos ou favorecimento e diz confiar nos órgãos responsáveis pelas investigações.
Registros mostram 100 ligações concluídas, 102 não atendidas e 19 encontros
A dimensão quantitativa dos contatos tornou-se conhecida em 29/09/2026, quando a CNN Brasil publicou a análise de mensagens e registros telefônicos que integram o material apreendido e extraído pela PF do aparelho de Vorcaro.
Entre março de 2024 e outubro de 2025, foram identificadas 100 chamadas concluídas entre Motta e Vorcaro. Outras 102 tentativas de ligação não foram completadas, totalizando 202 registros telefônicos. As conversas escritas indicam ainda a marcação de pelo menos 19 encontros presenciais.
A frequência e a natureza dos contatos demonstram uma relação pessoal e profissional continuada entre os dois naquele período. As mensagens, porém, não constituem, por si sós, prova de crime, favorecimento ou contrapartida. A relevância investigativa depende da associação entre conversas, decisões públicas, negócios privados, fluxos financeiros e outros elementos documentais.
Os interlocutores empregaram repetidamente tratamento informal. Segundo a CNN, a palavra “irmão” aparece cerca de 150 vezes nos diálogos examinados.
Conversas alcançam disputa pela presidência da Câmara
Parte das mensagens coincide com a fase em que Motta articulava apoio político para assumir o comando da Câmara dos Deputados.
Em uma conversa registrada em 6 de novembro, Motta explicou a Vorcaro que, concluída a negociação com os partidos, passaria à interlocução individual com parlamentares, observando que ainda restavam três meses até a eleição. A mensagem foi enviada depois de o então banqueiro sugerir que aquele seria o momento de reduzir a exposição e atuar nos bastidores.
A eleição ocorreu em 01/02/2025. Dados oficiais da Câmara mostram que Hugo Motta foi eleito presidente da Casa no primeiro escrutínio, com 444 votos, diante de 31 votos para Marcel van Hattem (Novo-RS), 22 para Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) e dois votos em branco, em universo de 499 votantes. O parlamentar foi empossado para o biênio 2025-2027.
O bloco que sustentou sua candidatura reunia 17 partidos e 494 deputados, abrangendo legendas de diferentes posições no espectro político, segundo a Agência Câmara.
Os registros divulgados até o momento mostram que Vorcaro conversava com Motta no período da articulação eleitoral interna, mas as reportagens consultadas não demonstram, de forma independente, que o banqueiro tenha controlado votos, oferecido recursos em troca de apoio ou praticado algum ato ilícito relacionado à eleição da Mesa Diretora.
Réveillon registra mensagem sobre seguir “cada vez mais juntos”
No réveillon de 2024 para 2025, quando Motta ainda disputava apoio para a presidência da Câmara, o parlamentar enviou um áudio a Vorcaro desejando saúde para que pudessem continuar “cada vez mais juntos”.
Vorcaro respondeu dizendo ter orgulho de participar da trajetória ao lado do então candidato.
O diálogo reforça a existência de proximidade entre ambos naquele momento. Seu significado jurídico ou eventual relação com interesses empresariais, contudo, depende de outros elementos probatórios e não pode ser estabelecido apenas pela linguagem utilizada numa comunicação privada.
Hugo Motta discutiu assunto relacionado ao FGC com Vorcaro
Outra frente das mensagens envolve o Fundo Garantidor de Créditos, entidade privada mantida pelas instituições financeiras associadas para proteger determinados depósitos e investimentos dentro dos limites previstos em seu regulamento.
Em 23 de março de 2025, já na Presidência da Câmara, Motta pediu a Vorcaro um estudo relacionado ao FGC e sugeriu nova conversa em Brasília para avaliar onde o assunto poderia ser tratado. Vorcaro respondeu que estava conduzindo o tema, enquanto o deputado classificou a movimentação como importante para alterar aquela realidade.
O conteúdo divulgado não esclarece qual alteração concreta era pretendida, que estudo seria produzido, qual dispositivo regulatório ou legislativo estava em discussão nem se alguma providência institucional efetivamente resultou da conversa.
Essa lacuna é particularmente relevante porque o FGC viria a assumir papel central na crise do conglomerado Master meses depois.
FGC prestou assistência ao conglomerado antes da liquidação
Documentos oficiais mostram que, em maio de 2025, o FGC estruturou uma operação de assistência financeira ao conglomerado Master enquanto uma possível aquisição pelo Banco de Brasília (BRB) era analisada pelo Banco Central.
Segundo o relatório anual do Fundo, a assistência foi destinada ao pagamento de passivos elegíveis à garantia e envolveu emissões de letras financeiras. Ao final de 2025, o saldo dessas operações alcançava R$ 5,7 bilhões. A operação também impôs restrição à remuneração de novos produtos cobertos pelo FGC, limitada a 100% do CDI.
O Banco Central posteriormente rejeitou a operação envolvendo o BRB e, em 18/11/2025, decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, Banco Master de Investimento, Letsbank e Master Corretora. A autoridade monetária apontou grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Esses acontecimentos são posteriores à mensagem de Motta sobre o FGC em março. Não há, nas fontes consultadas, demonstração de que o deputado conhecesse naquele momento as irregularidades que posteriormente seriam investigadas ou de que sua conversa tenha determinado as decisões adotadas pelo Fundo.
Caso Master levou FGC a provisionar R$ 40,6 bilhões
A dimensão financeira da quebra exige uma distinção entre o impacto específico do conglomerado Master e despesas posteriores relacionadas a outras instituições.
Quando iniciou os pagamentos, em 17/01/2026, o FGC informou que aproximadamente 800 mil credores dos bancos Master, Master de Investimento e Letsbank poderiam receber garantias, em montante total de R$ 40,6 bilhões. O limite ordinário de cobertura é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição ou conglomerado, observadas as demais regras do Fundo.
Em 05/03/2026, já haviam sido desembolsados R$ 38,4 bilhões, correspondentes a aproximadamente 94% do valor previsto, para cerca de 675 mil credores.
Posteriormente, considerando também as liquidações da Will Financeira e do Banco Pleno, o FGC calculou em aproximadamente R$ 51,7 bilhões o total estimado de garantias e em cerca de R$ 57,4 bilhões o impacto combinado das liquidações e operações de assistência sobre suas reservas.
Assim, cifras superiores a R$ 50 bilhões não correspondem exclusivamente às garantias do núcleo original do Banco Master. O valor oficial referente a Master, Master de Investimento e Letsbank foi de R$ 40,6 bilhões.
Empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões antecedeu a eleição da Câmara
A relação entre Motta e Vorcaro também aparece em negócio privado realizado em 2024, antes de o deputado assumir a presidência da Câmara.
Segundo conversas extraídas pela PF e reportagens da Folha de S.Paulo e da CNN, uma empresa vinculada a Bianca Medeiros, cunhada de Motta, recebeu do Banco Master um financiamento de pelo menos R$ 22 milhões. A apuração jornalística atribui ao parlamentar uma intervenção direta junto a Vorcaro para viabilizar a operação.
As conversas começam em 09/03/2024. Em mensagem divulgada pela Folha, Motta fez referência a um “formato de sociedade” relacionado à operação envolvendo a aquisição de uma área em João Pessoa. Dias depois, agradeceu a Vorcaro pela confiança e parceria, enquanto o então banqueiro respondeu fazendo referência ao início de uma parceria duradoura.
O crédito foi utilizado na aquisição, em abril daquele ano, de um terreno de mais de 400 hectares pertencente a uma antiga fábrica de cimento na capital paraibana. Segundo documentos imobiliários consultados pela Folha, a propriedade foi negociada por R$ 45 milhões e possuía valor fiscal de R$ 101 milhões. O projeto previa o loteamento da área para implantação de um novo bairro.
As informações publicadas não permitem concluir, apenas com base nas mensagens, qual estrutura societária chegou efetivamente a ser constituída, quem seriam todos os beneficiários econômicos do empreendimento ou se Motta passou a deter participação formal ou indireta.
Conversas também mencionam projeto de carbono
Os diálogos examinados pela imprensa alcançam ainda assuntos legislativos.
Em novembro de 2024, segundo a Folha, Vorcaro procurou Motta em relação a um projeto ligado ao mercado de carbono. Em 19 de novembro, o parlamentar informou que estava obtendo o texto para encaminhá-lo ao banqueiro depois de receber informações referentes à versão aprovada no Senado.
A existência dessa conversa mostra acesso direto entre o empresário e o parlamentar sobre matéria legislativa, mas as informações disponíveis não demonstram que uma alteração específica no texto tenha sido feita por determinação de Vorcaro.
Para caracterizar eventual favorecimento seria necessário estabelecer, documentalmente, qual interesse econômico estava em jogo, que alteração foi solicitada, se houve atuação parlamentar correspondente e se existiu alguma contrapartida.
Aviões, helicóptero, Carnaval e encontros privados aparecem nas mensagens
A documentação também contém pedidos e ofertas envolvendo deslocamentos privados.
Segundo a CNN, Motta solicitou duas caronas de avião e uma viagem de helicóptero a Vorcaro. Em outra ocasião, os dois conversaram sobre retorno ao Brasil após um casamento no exterior.
Em 27/04/2024, mensagens analisadas pela Folha indicam que Vorcaro colocou uma aeronave à disposição do parlamentar para o trecho entre Guarulhos e Brasília.
Já em março de 2025, quando Motta exercia a presidência da Câmara, houve pedido de cinco ingressos para um camarote do Carnaval do Rio de Janeiro, segundo a CNN.
Os registros também mostram conversas sobre encontros privados. Em 08/05/2025, Motta perguntou ao banqueiro sobre o formato de uma reunião de caráter social. Em outro diálogo, mencionou ter participado de uma reunião identificada apenas como realizada na “Fazenda” e disse que posteriormente relataria o conteúdo por telefone.
Até o momento, a divulgação desses diálogos não veio acompanhada de documentação suficiente para estabelecer, em cada viagem, encontro ou benefício, valores, pagamento, natureza jurídica, eventual reembolso ou conexão com atos oficiais praticados pelo deputado.
Casa de Vorcaro em Brasília também teria sido utilizada por Motta
Outra reportagem publicada em 29/09/2026 pelo UOL informa que Motta utilizou em pelo menos seis ocasiões, entre junho e novembro de 2025, uma residência de Vorcaro no Lago Sul, em Brasília, quando o banqueiro estava ausente.
As visitas teriam ocorrido com conhecimento e autorização do proprietário. A reportagem não identificou, porém, os assuntos discutidos em eventuais encontros realizados no imóvel ou todas as pessoas que estavam presentes.
O uso da residência acrescenta um elemento à reconstrução da proximidade entre os dois, mas não constitui isoladamente evidência de conduta criminosa.
Grupo de mensagens reunia Vorcaro, Motta, Ciro Nogueira e Fábio Faria
Nesta quarta-feira (30/09/2026), nova reportagem do UOL acrescentou outro elemento: um grupo de WhatsApp criado em abril de 2024 pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) reunia Vorcaro, Hugo Motta e o ex-ministro Fábio Faria.
Segundo a publicação, o grupo era empregado para organizar encontros e viagens e permaneceu entre os materiais extraídos do telefone de Vorcaro examinados pela Polícia Federal.
A existência do grupo ajuda a reconstruir a rede de relações políticas e empresariais do ex-banqueiro, mas qualquer responsabilização depende da individualização das condutas, dos assuntos tratados e de sua eventual conexão com decisões públicas ou vantagens indevidas.
Polícia Federal examina acervo de milhares de comunicações
A dimensão das informações encontradas no celular de Daniel Vorcaro ajuda a explicar por que novas revelações vêm surgindo progressivamente.
Documentos já examinados no Caso Banco Master indicam que o aparelho reúne aproximadamente 10,8 mil chats, 17 mil arquivos de áudio e 53 mil registros de chamadas, material que vem sendo analisado pela Polícia Federal e produzindo distintas linhas de apuração.
Esse volume exige cautela metodológica: mensagens precisam ser interpretadas considerando data, interlocutores, contexto, documentos correlatos e eventual execução dos atos discutidos. Conversas isoladas podem revelar proximidade ou intenção, mas a atribuição de responsabilidade penal, administrativa ou política requer provas adicionais e individualizadas.
A investigação do caso Master já passou a abranger temas relacionados ao mercado financeiro, órgãos reguladores, agentes políticos e integrantes de diferentes instituições públicas, com sucessivos desdobramentos no STF, PF, PGR, Banco Central e CVM.
Banco Central liquidou Master por crise financeira e violações regulatórias
O marco institucional da crise ocorreu em 18/11/2025, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras empresas do conglomerado.
Em nota oficial, a autoridade monetária afirmou que a medida decorreu de grave crise de liquidez, comprometimento significativo da condição econômico-financeira e graves violações às normas que regulam o Sistema Financeiro Nacional. À época, o conglomerado correspondia a 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do sistema bancário brasileiro.
O BC também tornou indisponíveis os bens de controladores e ex-administradores das instituições submetidas aos regimes especiais e informou que continuaria apurando responsabilidades administrativas e comunicando possíveis ilícitos às autoridades competentes.
A crise posterior do Master confere relevância pública retrospectiva aos contatos políticos mantidos por Vorcaro, mas não autoriza presumir que todos os interlocutores do banqueiro tenham participado ou tido conhecimento das irregularidades identificadas posteriormente.
Hugo Motta nega favorecimento e afirma não haver ilícito nos diálogos
Após a publicação das mensagens, Hugo Motta afirmou, por meio de sua assessoria, que ao longo do mandato manteve diálogo com diferentes segmentos empresariais e representantes da sociedade.
O presidente da Câmara declarou que “não há nenhum ilícito retratado nos diálogos publicados” e rejeitou a interpretação de que conversas apresentadas fora do contexto comprovariam favorecimento ou interesses impróprios.
Sobre o empréstimo ligado à empresa de sua cunhada, Motta sustentou que a contratação ocorreu entre entidades privadas em período anterior ao conhecimento público dos fatos que posteriormente motivaram investigações sobre o Banco Master e Daniel Vorcaro.
O deputado acrescentou que confia nos órgãos responsáveis pelas investigações. A CNN informou que procurou a defesa de Vorcaro para a reportagem de 29/09/2026, mas não havia recebido resposta até sua atualização.
O que está comprovado e o que ainda depende de investigação
Os documentos divulgados permitem separar diferentes níveis de informação.
Entre os fatos documentalmente registrados estão as comunicações extraídas pela PF, as 100 ligações concluídas, 102 não concluídas, os 19 encontros combinados, as conversas sobre FGC e eleição da Câmara, os pedidos de transporte e ingressos, além da existência do empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões relacionado à empresa da cunhada de Motta, conforme as reportagens que tiveram acesso aos elementos da investigação.
Também são fatos públicos independentes das mensagens a eleição de Motta para a presidência da Câmara em 01/02/2025, com 444 votos, e a liquidação do Banco Master pelo Banco Central em 18/11/2025.
O que permanece dependente de esclarecimento documental é a eventual existência e estrutura final de sociedade entre Motta ou pessoas ligadas a ele e Vorcaro; o conteúdo completo do estudo relativo ao FGC; eventual consequência legislativa ou regulatória das conversas; a natureza financeira das viagens e benefícios mencionados; e se houve correlação entre interesses privados do antigo controlador do Master e atos praticados por autoridades públicas.
Também não há, nas fontes analisadas, base suficiente para afirmar que a frequência dos contatos, por si só, represente participação de Motta nas irregularidades que posteriormente levaram à liquidação do banco.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 09/03/2024 — Começam, segundo material divulgado pela Folha, as conversas sobre operação empresarial envolvendo área em João Pessoa e referência a um possível “formato em sociedade” entre interlocutores ligados a Motta e Vorcaro.
- Março de 2024 — Empresa vinculada à cunhada de Hugo Motta obtém financiamento de pelo menos R$ 22 milhões junto ao Banco Master, segundo conversas analisadas pela PF e reportagens posteriores.
- 15/03/2024 — Motta agradece a Vorcaro pela confiança e parceria após o avanço da operação empresarial; ambos trocam manifestações de proximidade.
- Abril de 2024 — Terreno com mais de 400 hectares, em João Pessoa, é adquirido por R$ 45 milhões para projeto imobiliário.
- Abril de 2024 — Grupo de WhatsApp reúne Daniel Vorcaro, Hugo Motta, Ciro Nogueira e Fábio Faria, segundo reportagem publicada posteriormente pelo UOL.
- 27/04/2024 — Mensagens indicam disponibilização de aeronave de Vorcaro para deslocamento de Motta entre Guarulhos e Brasília.
- Novembro de 2024 — Conversas registram articulações de Motta para a eleição da Câmara e contato com Vorcaro sobre projeto relacionado ao mercado de carbono.
- Réveillon de 2024 para 2025 — Motta e Vorcaro trocam mensagens sobre permanecer “cada vez mais juntos” durante a fase de articulação para a presidência da Câmara.
- 01/02/2025 — Hugo Motta é eleito presidente da Câmara com 444 votos, para o biênio 2025-2027.
- 23/03/2025 — Motta solicita a Vorcaro estudo relacionado ao FGC e sugere nova conversa em Brasília sobre o tema.
- Março de 2025 — O presidente da Câmara pede cinco ingressos para camarote do Carnaval do Rio de Janeiro, segundo registros divulgados pela CNN.
- Maio de 2025 — O FGC estrutura operação de assistência financeira ao conglomerado Master enquanto o Banco Central examinava potencial operação com o BRB.
- 08/05/2025 — Mensagens registram preparação de outro encontro entre Motta e Vorcaro.
- Junho a novembro de 2025 — Reportagem do UOL registra pelo menos seis utilizações, por Motta, de uma casa pertencente a Vorcaro em Brasília.
- Outubro de 2025 — Termina o intervalo em que a CNN identificou os 202 registros telefônicos entre Motta e Vorcaro.
- 18/11/2025 — Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado por crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações regulatórias.
- 17/01/2026 — FGC inicia pagamento das garantias de Master, Master de Investimento e Letsbank, estimadas em R$ 40,6 bilhões.
- 05/03/2026 — FGC informa pagamento de R$ 38,4 bilhões, cerca de 94% das garantias então previstas para o conglomerado original.
- 28/09/2026 — São divulgadas novas mensagens sobre possível sociedade e operação ligada ao terreno adquirido na Paraíba.
- 29/09/2026 — CNN revela 100 ligações concluídas, 102 não concluídas e ao menos 19 encontros, além de diálogos sobre FGC, eleição da Câmara e deslocamentos privados.
- 30/09/2026 — Nova reportagem revela grupo de WhatsApp formado em 2024 por Vorcaro, Motta, Ciro Nogueira e Fábio Faria, acrescentando elementos à reconstrução da rede de contatos do antigo controlador do Master.
O aspecto de maior interesse público dos novos documentos não está simplesmente na quantidade de telefonemas ou no grau de informalidade existente entre Hugo Motta e Daniel Vorcaro. Relações entre políticos e empresários são parte ordinária da atividade pública e, isoladamente, não configuram irregularidade. A questão institucional surge quando a mesma relação abrange simultaneamente negócios privados, benefícios pessoais, temas legislativos, interesses regulatórios e articulações relativas ao comando de uma das Casas do Congresso. É essa sobreposição que justifica aprofundamento documental e escrutínio público, sem antecipação de culpa.
O tema do FGC merece atenção particular. Em março de 2025, Motta e Vorcaro discutiam um estudo ligado ao Fundo; dois meses depois, o próprio FGC iniciou assistência financeira ao conglomerado Master e, após a liquidação decretada pelo Banco Central, passou a responder por R$ 40,6 bilhões em garantias relacionadas a Master, Master de Investimento e Letsbank. A coincidência temporal não prova relação causal. Para esclarecer sua relevância será necessário identificar o conteúdo do estudo citado nas mensagens, quem o elaborou, quais mudanças eram pretendidas, quais interlocutores públicos foram procurados e se houve algum resultado regulatório ou legislativo decorrente dessas tratativas.
A mesma cautela é necessária em relação ao financiamento de R$ 22 milhões, às referências a uma possível sociedade, aos deslocamentos em aeronaves e ao uso de imóvel pertencente ao banqueiro. Os registros demonstram proximidade e justificam investigação de eventuais conflitos de interesses, mas a caracterização de irregularidade exige esclarecer quem arcou com os custos, quais contratos foram celebrados, quem detinha participação econômica nos empreendimentos e se alguma vantagem esteve ligada a atos de ofício. A versão de Motta é de que não houve favorecimento nem conduta ilícita e deve integrar o contraditório enquanto não houver conclusão das autoridades competentes.
O núcleo factual, portanto, é que Motta e Vorcaro mantiveram uma relação frequente e multifacetada antes e depois da eleição do deputado para a Presidência da Câmara, enquanto o Banco Master atravessava período que mais tarde terminaria em liquidação e investigação de larga escala. A relevância pública dos novos documentos está na necessidade de determinar onde terminavam relações pessoais e empresariais legítimas e se, em algum momento, elas alcançaram decisões públicas, interesses regulatórios ou vantagens incompatíveis com o exercício do mandato. Caberá à Polícia Federal, Ministério Público, Supremo Tribunal Federal e demais órgãos competentes, dentro de suas atribuições, confrontar mensagens com documentos bancários, societários, legislativos e financeiros antes que qualquer responsabilidade possa ser definitivamente estabelecida.








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