Filarmônicas de Feira de Santana: 25 de Março, Vitória e Euterpe Feirense preservam patrimônio musical e revelam processos distintos de recuperação institucional | Por Carlos Augusto

O resgate histórico realizado por Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia, evidencia a relevância das sociedades filarmônicas 25 de Março, Vitória e Euterpe Feirense na formação musical, cívica, social e urbana de Feira de Santana. A análise mostra que essas instituições não apenas contribuíram para a educação artística e para a vida comunitária do município, mas também atravessaram processos distintos de preservação e recuperação institucional. A Sociedade Filarmônica 25 de Março retomou suas atividades por meio da escola de música, da recomposição da banda e de projetos voltados à restauração patrimonial. A Sociedade Filarmônica Vitória, fundada em 1873, teve seu casarão histórico desapropriado pela Prefeitura em 26 de junho de 2026, com a finalidade de abrigar o futuro Palácio das Academias. Já a Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense, fundada em 1921, preservou-se como entidade associativa, clube social e patrimônio cultural em funcionamento, mantendo viva uma tradição decisiva para a memória cultural feirense.

Filarmônicas estruturaram a vida pública de Feira de Santana

As filarmônicas de Feira de Santana não foram apenas bandas musicais. Durante décadas, funcionaram como instituições de sociabilidade, formação artística, educação musical e afirmação da identidade urbana. Antes da centralidade do rádio, da televisão e das novas formas de entretenimento, essas corporações musicais animavam festas religiosas, atos cívicos, eventos políticos, bailes, casamentos, formaturas, inaugurações, procissões, solenidades públicas e manifestações populares.

A Sociedade Filarmônica 25 de Março, a Filarmônica Vitória e a Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense formaram um conjunto institucional raro no interior baiano. Cada uma, a seu modo, organizou músicos, preservou repertórios, formou instrumentistas, ocupou espaços urbanos estratégicos e marcou a vida cultural da Princesa do Sertão.

A presença dessas entidades nas retretas, nos coretos, nos festejos de Sant’Ana, nas micaretas e nas cerimônias oficiais dava à música papel de mediação pública. A cidade não apenas ouvia as filarmônicas; organizava parte de sua vida social em torno delas. A música era rito, encontro, disputa, celebração e memória.

Um patrimônio cultural com trajetórias diferentes

Embora componham o mesmo universo histórico, as três filarmônicas chegaram ao século XXI em condições distintas. A 25 de Março passou por declínio, inatividade parcial e posterior revitalização. A Vitória preservou forte valor simbólico e patrimonial, agora recolocado em evidência com a desapropriação de seu casarão. A Euterpe Feirense manteve trajetória própria ao articular filarmônica, clube social, patrimônio associativo e sede de campo.

Essa diferença é essencial para compreender o tema sem simplificações. Não se trata de uma história uniforme de decadência, nem de uma celebração nostálgica sem base concreta. Feira de Santana abriga três experiências institucionais marcadas por fundação, rivalidade, sociabilidade, crise, adaptação e recuperação em níveis variados.

O caso das filarmônicas revela também uma questão pública mais ampla: a preservação cultural não depende apenas de memória afetiva. Exige gestão, documentação, regularização jurídica, restauração de imóveis, formação de novos músicos, manutenção de acervos, financiamento e uso social contínuo dos espaços históricos.

Sociedade Filarmônica 25 de Março: pioneirismo e identidade musical

Fundada em 25 de março de 1868, a Sociedade Filarmônica 25 de Março é a mais antiga das três instituições e uma das mais relevantes expressões da cultura musical feirense. Sua criação ocorreu por iniciativa de moradores comprometidos com o desenvolvimento cultural da cidade, entre eles João Manoel Laranjeira Dantas, Eduardo Franco, Afonso Nolasco, Antônio Joaquim da Costa, José Pinto dos Santos, Joaquim Sampaio, Francisco Costa, Galdino Dantas, Juvêncio Erudilho, José Nicolau dos Santos, Alexandre Ribeiro, Joviniano Cerqueira, Pedro Nolasco Néu e Tibério Constâncio Pereira.

A instituição consolidou-se na antiga Rua Direita, atual Rua Conselheiro Franco, onde se tornou referência musical, social e patrimonial. Sua denominação remete, segundo interpretação registrada por pesquisadores da entidade, à data da outorga da Constituição Imperial de 1824, embora o registro definitivo dessa motivação ainda dependa de documentação histórica específica.

Ao longo do tempo, a 25 de Março se firmou como espaço de música, encontro social e participação cívica. Suas apresentações em festas religiosas, retretas, procissões, solenidades oficiais, eventos comunitários e micaretas ajudaram a fixar a imagem da filarmônica como uma das marcas culturais mais antigas de Feira de Santana.

Salões da 25 de Março marcaram eventos sociais e políticos

A 25 de Março não se limitou à atuação musical. Em 1941, seus salões receberam a fundação do primeiro Rotary Club de Feira de Santana, com apresentação de dobrados e presença de lideranças locais. O episódio demonstra que a entidade funcionava como espaço de articulação social e institucional, reunindo segmentos empresariais e comunitários.

Em 1944, durante o contexto da Segunda Guerra Mundial, a Micareta de Feira de Santana esteve ameaçada de não ocorrer. A diretoria da filarmônica decidiu abrir seus salões, devidamente decorados e iluminados, para preservar a continuidade da festa. Entre 15 e 17 de abril, a cidade viveu três bailes noturnos na sede da instituição, em iniciativa que ajudou a manter a marcha histórica da festa momesca.

Outro momento de projeção ocorreu na década de 1970, quando a Filarmônica 25 de Março representou a Bahia em competição nacional de bandas promovida pelo MEC e pela Funarte, com transmissão televisiva. A entidade alcançou o terceiro lugar, recebeu premiação em instrumental e participou de registro fonográfico ligado ao evento. A conquista consolidou a filarmônica como referência musical para além do território feirense.

Declínio, crise e início da recuperação da 25 de Março

A partir dos anos 1970, a 25 de Março enfrentou um processo de enfraquecimento institucional. A urbanização acelerada, a mudança dos hábitos de lazer, a perda de centralidade das retretas, a redução do corpo musical, pendências jurídicas, dificuldades administrativas e a degradação da sede contribuíram para a crise da entidade.

O corpo musical chegou a ser reduzido a poucos integrantes, muitos deles de idade avançada, e a instituição permaneceu por período prolongado com baixa atividade. A sede histórica da Rua Conselheiro Franco, reconhecida como bem de interesse patrimonial, passou a exigir restauração estrutural.

A recuperação começou a ganhar forma em 7 de agosto de 2014, com a aula inaugural da Escola de Música Maestro Estevam Moura. O projeto teve como objetivo formar novos músicos, recompor o corpo artístico da associação e preservar o legado de mestres ligados à história da entidade.

Escola de música, retorno da banda e preservação do acervo

A criação da Escola de Música Maestro Estevam Moura foi decisiva para a revitalização da 25 de Março. A iniciativa mobilizou a comunidade feirense para aquisição de instrumentos e contou com colaboração voluntária de regentes e apoiadores. Jovens passaram a receber formação musical regular, com aulas e preparação voltadas à recomposição da banda.

Em 2015, a banda voltou a se apresentar publicamente. A retomada permitiu a reaproximação da instituição com escolas, procissões, coretos, solenidades cívicas e eventos culturais. A filarmônica voltou a ocupar espaços de onde havia se afastado, recuperando parte de sua função pública.

O acervo da 25 de Março, estimado em cerca de 600 obras, reúne partituras de compositores e mestres de banda vinculados à tradição local, entre eles Estevam Moura, Tertuliano Santos, Amando Nobre, João Manoel Dantas e João Camelier. A preservação desse repertório é um dos pilares da recuperação institucional, pois protege não apenas a memória da entidade, mas a própria história musical de Feira de Santana.

Restauração da sede histórica da 25 de Março

Outro eixo da recuperação da 25 de Março é a restauração da sede na Rua Conselheiro Franco. O imóvel representa um dos símbolos arquitetônicos da presença filarmônica no Centro de Feira de Santana e permanece associado a uma fase em que música, sociabilidade e vida cívica se encontravam no mesmo espaço urbano.

A proposta de recuperação do prédio envolve etapas estruturais, como restauração do telhado, e a busca por recursos por meio de programas de incentivo e apoio institucional. A requalificação do imóvel é fundamental para devolver à cidade um espaço de memória, formação e apresentação musical.

A retomada da 25 de Março mostra que a tradição pode sobreviver quando há liderança, mobilização comunitária, regularização administrativa, formação de novos quadros e reinserção pública. Sua recuperação não é apenas musical; é pedagógica, patrimonial, institucional e simbólica.

Filarmônica Vitória: instituição do século XIX volta ao centro do debate público

A Filarmônica Vitória, também registrada historicamente como Victória, foi fundada em 1873, cinco anos depois da 25 de Março. Sua origem está associada ao padre Ovídio Alves de São Boaventura, então vigário da Freguesia de Santana e personagem de forte presença social em Feira de Santana.

A tradição histórica registra ainda a versão de que a Vitória teria surgido a partir de desentendimentos internos na 25 de Março. Dissidentes teriam se reunido em torno do sacerdote para criar uma nova sociedade musical, inaugurando uma rivalidade que marcaria a vida pública da cidade durante décadas.

A Vitória nasceu em contexto de crescimento urbano, expansão comercial e consolidação institucional de Feira de Santana. Naquele período, as filarmônicas cumpriam papel cultural, cívico e pedagógico. Organizavam músicos, formavam jovens instrumentistas, marcavam a solenidade dos atos públicos e ajudavam a estabelecer uma cultura urbana baseada em ritos, celebrações e símbolos coletivos.

Maestros e formação musical na Vitória

Entre os nomes vinculados à trajetória inicial da Vitória estão Manoel Tranquilino Bastos, apontado como primeiro maestro da corporação, e Tertuliano Santos, lembrado como uma das figuras de maior destaque em seu comando. Esses mestres reforçam a importância das filarmônicas como escolas musicais em uma época na qual o acesso à educação artística formal era limitado.

A história da Vitória também se relaciona à trajetória do maestro Antônio Aurélio da Silva, nascido em 31 de julho de 1887, em Feira de Santana. Compositor, instrumentista e formador de músicos, Antônio Aurélio dominou instrumentos de cordas, sopro e percussão, compôs dobrados e marchas, e atuou como maestro da corporação.

Sua morte prematura, em 19 de março de 1920, durante uma epidemia de varíola, interrompeu uma trajetória relevante para a cultura local. O esquecimento parcial de seu nome revela um problema recorrente da memória urbana: a dificuldade de preservar, documentar e difundir a contribuição de artistas que ajudaram a construir a identidade cultural da cidade.

Rivalidade entre Vitória e 25 de Março marcou a cidade

A rivalidade entre a Filarmônica Vitória e a 25 de Março mobilizou admiradores, associados, músicos e lideranças políticas. As apresentações em festas religiosas, retretas, eventos cívicos e solenidades públicas geravam expectativa popular e comentários prolongados. Em alguns períodos, as preferências por uma ou outra entidade assumiam dimensão social e política.

Essa rivalidade não deve ser lida apenas como conflito. Ela estimulava a excelência musical, ampliava a presença pública das corporações e fortalecia o vínculo da população com as filarmônicas. A disputa também ajudava a manter as bandas em atividade, com repertórios preparados, regentes valorizados e plateias atentas.

A Vitória desempenhou papel próprio nesse ambiente. Ao lado da 25 de Março, ajudou a formar músicos, organizar repertórios, produzir eventos e construir uma linguagem cultural que unia música, festa, religiosidade, civismo e política local.

A Vitória nos grandes acontecimentos de Feira de Santana

A Filarmônica Vitória esteve presente em momentos decisivos da memória feirense. Em 1897, homenageou combatentes que retornaram da Guerra de Canudos, episódio de forte impacto na Bahia e no Brasil. A presença da corporação nesse ato mostra como as filarmônicas eram chamadas a conferir solenidade a acontecimentos de dimensão cívica e simbólica.

Em janeiro de 1900, a posse do intendente José Freire de Lima, na Câmara Municipal, foi encerrada com a execução do Hino de Feira pela Philarmônica Victória, sob composição do maestro Bastos. O episódio expressa a centralidade das bandas na ritualização dos atos oficiais da cidade.

Em 1924, a Vitória integrou a programação da inauguração do palacete do coronel Agostinho Fróes da Motta. Em 1927, ao lado da 25 de Março, abriu o desfile estudantil que antecedeu a inauguração da Escola Normal de Feira de Santana, marco da história educacional do município.

Salões, serestas e Baile dos Artistas

Ao longo do século XX, a sede da Vitória funcionou também como espaço de sociabilidade. Seus salões receberam eventos, encontros, bailes e serestas. A primeira grande reforma ocorreu em 1979, durante a gestão do presidente Celso Ribeiro Daltro, com apoio do então prefeito Colbert Martins.

Após essa reforma, o clube passou a sediar serestas bastante frequentadas, em iniciativa associada à atuação de Antônio Caribé, conhecido como Tuíta. Essa fase revela a capacidade da entidade de se adaptar aos hábitos culturais de seu tempo, mantendo presença social mesmo quando as antigas retretas já perdiam força.

Em 1973, durante as comemorações do centenário de emancipação política de Feira de Santana, os salões da Filarmônica Vitória receberam o Baile dos Artistas, promovido por agentes dos movimentos culturais e responsável por abrir oficialmente a tradicional Micareta de Feira de Santana. O episódio demonstra a articulação entre tradição musical, festa popular e vida associativa.

Casarão da Vitória será restaurado para abrigar o Palácio das Academias

A recuperação institucional da Filarmônica Vitória ganhou novo capítulo em 26 de junho de 2026, quando o prefeito José Ronaldo anunciou a desapropriação do prédio histórico da entidade, localizado na Rua Conselheiro Franco, antiga Rua Direita. O imóvel será restaurado para abrigar o futuro Palácio das Academias.

O espaço deverá reunir entidades literárias, históricas, educacionais, artísticas e culturais de Feira de Santana. A iniciativa recoloca a Vitória no centro da política de preservação patrimonial e requalificação urbana, ao mesmo tempo em que abre possibilidade de novo uso público para um prédio carregado de significado histórico.

A medida também impõe responsabilidade institucional. O casarão não pode ser tratado apenas como imóvel adequado para instalação de sedes administrativas. Sua restauração deve preservar a memória da própria Filarmônica Vitória, seus maestros, músicos, eventos, acervos, registros e contribuição para a vida cívica da cidade.

Palácio das Academias e novo uso do patrimônio

A criação do Palácio das Academias pode transformar o antigo casarão da Vitória em espaço de encontro entre literatura, história, música, educação, artes e memória urbana. Para isso, será necessário que o projeto vá além da ocupação física do prédio por entidades culturais.

O futuro equipamento deve prever programação permanente, exposições, acervo documental, ações educativas, visitas guiadas, seminários, publicações, registros audiovisuais e atividades voltadas à comunidade. A preservação só se completa quando o bem histórico retorna ao uso público e passa a produzir conhecimento, pertencimento e circulação social.

Um ponto indispensável é a criação de um memorial da Filarmônica Vitória dentro do próprio espaço. A restauração deve reservar lugar visível para sua história, com linha do tempo, fotografias, partituras, biografias de maestros, documentos, registros de eventos e informações sobre sua relação com a 25 de Março e a Euterpe Feirense.

Presenças na solenidade de anúncio

Participaram da solenidade no Paço Maria Quitéria o presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana, Marcos Lima; os secretários municipais Carlos Brito, do Planejamento; Joilton Freitas, da Comunicação; e Neto Bahia, do Governo; o arcebispo emérito Dom Itamar Vian; e o procurador-geral do Município, Guga Leal.

Também estiveram presentes representantes das academias e instituições culturais feirenses, entre eles Dázio Brasileiro, José Raimundo Pereira de Azevedo, Lélia Vitor Fernandes, Cláudia Gomes e João Batista de Cerqueira. A agenda contou ainda com Luiz Mercês Júnior, Alpiniano Reis de Oliveira Filho, Renê Beker, Genildo Melo, representante da Associação Comercial, e outras lideranças de segmentos organizados da sociedade civil.

A composição da solenidade indica que o projeto possui alcance superior a uma medida administrativa do Executivo. A iniciativa envolve memória urbana, entidades culturais, sociedade civil, preservação patrimonial e política pública de requalificação do Centro.

Euterpe Feirense surgiu como terceira via entre antigas rivalidades

A Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense foi fundada em 1921 como terceira associação filarmônica de Feira de Santana. O material histórico registra duas datas relacionadas à fundação — 13 de dezembro e 17 de dezembro de 1921 —, divergência que deve ser tratada com cautela até confirmação documental definitiva.

A entidade surgiu como alternativa aos grupos que não se alinhavam às disputas entre a 25 de Março e a Vitória. Seu nome remete a Euterpe, musa grega da música e da poesia lírica, escolha simbólica coerente com sua vocação cultural.

Entre os fundadores citados estão Leolindo Ramos Júnior, Mário Pereira Ramos, Augusto Fróes da Motta, Bernardino Lima, Manuel Porto, Porcínio Rodrigues, Augusto Ribeiro Soares e outros colaboradores. A primeira diretoria teve participação de lideranças locais vinculadas ao comércio, à política e à vida cultural feirense.

Primeira sede e construção do prédio moderno

Nos primeiros anos, a Euterpe funcionou em imóvel localizado em frente à Igreja Senhor dos Passos, prédio que também abrigou a Prefeitura Municipal, a Câmara de Vereadores e a Biblioteca Municipal. A utilização desse espaço ocorreu após articulação de Eduardo Fróes da Motta, no contexto da transferência do Paço Municipal para o atual prédio da Prefeitura, em 1926.

A sede própria da Euterpe foi inaugurada em 13 de abril de 1952, na Rua Conselheiro Franco, em terreno doado por Hermínio Francisco dos Santos Arsênio Oliveira. O edifício representou marco de modernidade para Feira de Santana por reunir andar térreo, dois pavimentos e elevador, elemento incomum nos prédios da cidade naquele período.

No térreo funcionava o clube social; nos pavimentos superiores, o Hotel Euterpe. A combinação entre filarmônica, clube e hotel mostra que a entidade ampliou sua função para além da banda musical, participando da vida urbana, do lazer, da hospedagem e da convivência associativa.

Euterpe como clube social e centro de sociabilidade

A Euterpe Feirense consolidou-se também como clube social. Seus salões receberam matinês, boates, concursos de beleza, festas dançantes, eventos comemorativos e apresentações com artistas populares. Durante a micareta, o espaço reunia grande público e mantinha intensa participação na vida festiva da cidade.

Ao contrário da 25 de Março e da Vitória, a Euterpe não se esvaziou completamente com o surgimento de outros clubes sociais, como o Feira Tênis Clube, na década de 1940, e o Clube de Campo Cajueiro, na década de 1960. A instituição conseguiu preservar vida associativa e adaptar-se às mudanças do lazer urbano.

A banda musical da Euterpe contou com regência de maestros como Onório Rios, Álvaro Lima, Armando Nobre, Aloísio Pimenta, Antônio Menezes e Nilo Pereira Souza. A entidade também participou de festivais e gravou um LP com marchas, dobrados e o Hino à Feira, preservando parte de seu repertório.

Recuperação administrativa e patrimonial da Euterpe

A recuperação institucional da Euterpe ocorreu por caminho próprio. Enquanto a 25 de Março concentrou esforços na recomposição da banda e na escola de música, a Euterpe preservou-se como entidade associativa, clube social e patrimônio em funcionamento.

O advogado José Falcão da Silva idealizou a criação de uma sede de campo, inicialmente às margens da BR-324 e, depois, transferida para o Anel de Contorno. Na sequência, Rubens Carvalho promoveu o deslocamento da sede da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense para o novo espaço e reativou a escola de música da entidade, que estava sem funcionar.

O professor José Raimundo de Azevedo teve papel relevante na regularização da situação do clube na Justiça do Trabalho e na Justiça Federal, além de concluir as obras do parque aquático. Essas medidas indicam recuperação administrativa, saneamento jurídico, fortalecimento patrimonial e manutenção da vida associativa.

Duas sedes e permanência institucional

A Euterpe Feirense é apresentada no material histórico como a única das filarmônicas que se mantém como entidade jurídica em funcionamento pleno, proprietária de duas sedes sociais. Uma delas está situada às margens da Lagoa Grande, área impactada por obras de revitalização do Governo do Estado.

O chamado Clube de Campo possui parque aquático, piscinas, equipamentos de recreação, área livre, estacionamento e espaços destinados a festas e atividades dos associados. Essa estrutura demonstra a capacidade da Euterpe de adaptar-se às transformações urbanas e sociais sem romper inteiramente com sua origem musical.

A entidade chegou aos 104 anos ainda em atividade, sob presidência do comerciante Antônio Carlos Cerqueira, segundo registro de 2025. Sua permanência mostra que a recuperação institucional pode ocorrer não apenas pela retomada plena da banda, mas também pela preservação jurídica, patrimonial e associativa.

Rua Conselheiro Franco como eixo da memória musical

A antiga Rua Direita, atual Rua Conselheiro Franco, concentra parte decisiva da memória musical de Feira de Santana. Ali se encontravam sedes de filarmônicas, salões sociais, comércio, edifícios históricos e espaços de convivência pública.

A presença da 25 de Março, da Vitória e da Euterpe nesse eixo urbano confirma que as filarmônicas estavam integradas ao coração da cidade. Não eram entidades periféricas, mas instituições diretamente vinculadas ao Centro, às festas, à política, à religião, ao comércio e à vida cotidiana.

A recuperação de imóveis históricos nessa área precisa considerar a totalidade desse patrimônio. Restaurar um prédio isoladamente é relevante, mas insuficiente. O desafio maior é recompor a leitura histórica do Centro, preservando sua paisagem cultural, seus usos públicos e a memória das instituições que lhe deram significado.

Processos distintos de recuperação institucional

As três filarmônicas revelam caminhos diferentes de preservação e recuperação. A 25 de Março expressa a retomada musical e pedagógica, com escola de música, formação de jovens, recomposição da banda, preservação de acervo e projetos de restauração de sua sede histórica.

A Vitória passa por recuperação patrimonial e simbólica a partir da desapropriação do casarão e da proposta de criação do Palácio das Academias. Sua trajetória recente exige que o novo uso do imóvel inclua memorial, documentação e reconhecimento público da instituição que deu identidade ao prédio.

A Euterpe Feirense representa a permanência associativa, administrativa e patrimonial. Sua continuidade como clube social, a regularização jurídica, a manutenção de sedes e a adaptação de suas atividades demonstram outro modelo de sobrevivência institucional.

Preservação exige acervo, formação e uso público

A preservação das filarmônicas de Feira de Santana depende de três frentes complementares. A primeira é a proteção patrimonial, com restauração de sedes, manutenção predial, respeito às características arquitetônicas e destinação pública compatível com a história dos imóveis.

A segunda é a preservação documental e musical, com levantamento de partituras, fotografias, atas, programas, instrumentos, registros sonoros, depoimentos de antigos músicos e publicações. Sem acervo organizado, a memória permanece fragmentada e vulnerável ao esquecimento.

A terceira é a formação de novas gerações. Escolas de música, oficinas, apresentações em coretos, concertos didáticos, projetos em escolas públicas e parcerias com universidades podem garantir que as filarmônicas não sejam apenas objeto de homenagem, mas instrumentos vivos de educação cultural.

Tradição filarmônica exige política permanente de memória

A história das filarmônicas de Feira de Santana demonstra que a cidade construiu instituições culturais sólidas antes mesmo de contar com políticas públicas modernas para a área. 25 de Março, Vitória e Euterpe Feirense não foram acessórios festivos; estruturaram sociabilidade, educação musical, civismo e identidade urbana. A tradição, nesse caso, não é ornamento nostálgico: é documento vivo da formação social feirense.

A 25 de Março retomou atividade musical por meio de escola, banda e reaproximação comunitária. A Euterpe preservou-se por adaptação institucional, saneamento jurídico e continuidade associativa. A Vitória, agora, tem a oportunidade de renascer como referência patrimonial com a restauração de seu casarão para abrigar o Palácio das Academias.

Fontes bibliográficas

A reportagem utilizou como fontes bibliográficas e memorialísticas SIMAS, Adilson. Lembranças das nossas filarmônicas I, II e III. Feira de Santana, 7 de outubro de 2015, série histórica dedicada às sociedades filarmônicas 25 de Março, Vitória e Euterpe Feirense, com registros sobre fundação, músicos, dirigentes, rivalidades, acontecimentos cívicos, atividades sociais e participação dessas instituições na formação cultural de Feira de Santana; e SIMAS, Adilson. Feira em História: Filarmônica 25 de Março — uma joia da Princesa do Sertão. 2 de janeiro de 2018, trabalho que incorpora registros históricos e informações fornecidas por Carlos Alberto Oliveira Brito sobre a fundação, documentação, estatutos, conquistas musicais, acervo e processo de revitalização da Sociedade Filarmônica 25 de Março. A série de Simas recupera ainda testemunho do jornalista Martiniano Carneiro, datado de 1952, sobre os beneméritos e a importância histórica das filarmônicas 25 de Março, Vitória e Euterpe Feirense.
Também integra o conjunto de referências GALVÃO, Renato de Andrade, Monsenhor. Biografia de Padre Ovídio Alves de São Boaventura, obra utilizada para reconstituir a trajetória do sacerdote Ovídio Alves de São Boaventura, sua atuação religiosa, educacional, assistencial e cultural e sua participação na criação da Sociedade Filarmônica Vitória.

A biografia reúne, por sua vez, referências históricas e memorialísticas de Cristóvão Barreto, Arnold Silva, Filinto Justiniano Bastos, Afrânio Peixoto, Manoel Vitorino Pereira, Godofredo Filho e Aníbal Amorim, além de registros da Câmara Municipal, documentação paroquial e referências da imprensa baiana do século XIX, como o Diário da Bahia e o Jornal de Notícias.

Foram igualmente utilizados registros institucionais da Sociedade Filarmônica 25 de Março, especialmente sua documentação histórica sobre fundação em 25 de março de 1868, estatuto registrado em 30 de novembro de 1921, participação em festivais nacionais, formação do acervo musical, criação da Escola de Música Maestro Estevam Moura e processo contemporâneo de recuperação da entidade; matérias e registros do Jornal Grande Bahia (JGB) sobre as filarmônicas e seus projetos culturais; e a reportagem institucional “Feira 191 anos: Filarmônicas — um passado ainda presente na cidade princesa”, publicada em 27 de setembro de 2024 pela Secretaria de Comunicação Social de Feira de Santana, que recupera a rivalidade histórica entre 25 de Março e Vitória, a criação da Euterpe Feirense e a permanência dessas instituições na memória cultural do município.

Para a história específica da Euterpe Feirense, foram considerados ainda os registros reunidos em Euterpe Feirense — Mais de um século na vida da Cidade Princesa, de 27 de fevereiro de 2025, com informações sobre sua fundação, sedes, dirigentes, maestros, escola de música, clube social e continuidade administrativa; bem como materiais históricos. Essas fontes registram, inclusive, a divergência documental entre 13 e 17 de dezembro de 1921 como data de fundação da instituição, questão preservada na reportagem por exigir cotejamento definitivo das atas e registros originais.

*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.


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