O Fórum “Às tuas portas – Within Your Gates: The Forum for the Universal Vocation of Jerusalem” foi apresentado publicamente em 7 de setembro, com a proposta de reunir estudiosos e representantes de diferentes tradições religiosas para refletir sobre a vocação universal de Jerusalém. A iniciativa é promovida e presidida pelo cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, em colaboração com o centro acadêmico da Universidade de Notre Dame.
A plataforma interdisciplinar resulta de quase três anos de relações, diálogos e discussões entre estudiosos e representantes de Israel e da Palestina. O processo ganhou forma após 7 de outubro de 2023, data que marcou uma nova escalada do conflito na Terra Santa.
O objetivo declarado não é formular propostas políticas, mas criar espaços de escuta, reflexão e diálogo capazes de aproximar diferentes interpretações sobre Jerusalém. A iniciativa parte do entendimento de que a cidade possui significados históricos e religiosos distintos para cristãos, judeus e muçulmanos.
Linguagem é o primeiro eixo de diálogo
Entre os participantes estão Karma Ben-Johanan, historiadora das religiões e da teologia moderna e professora da Universidade Judaica de Jerusalém, e Sari Nusseibeh, intelectual e filósofo palestino e ex-reitor da Universidade de Al Quds. Ambos integram a plataforma e participaram das discussões sobre a relação entre as diferentes comunidades.
O diretor da Notre Dame Jerusalem e do Comitê Consultivo de “Às tuas portas”, Daniel Schwake, explicou que a iniciativa nasceu da necessidade de ouvir os diferentes lados com profundidade e sem uma posição de superioridade moral. Segundo ele, a plataforma pretende oferecer ferramentas de aprofundamento e reflexão, sem buscar ocupar novos espaços institucionais.
Schwake também afirmou que o grupo não pretende falar com uma única voz nem apresentar soluções políticas. A proposta é buscar uma compreensão da realidade baseada na história e nas experiências das diferentes partes envolvidas no conflito.
A escolha da linguagem como primeiro tema de trabalho está relacionada ao papel que as palavras podem desempenhar na construção ou no agravamento das divisões. Para os organizadores, compreender os significados históricos e religiosos atribuídos aos mesmos lugares é uma etapa necessária para estabelecer novas formas de diálogo.
Diferentes tradições compartilham espaços e significados
Jerusalém concentra locais que possuem importância religiosa e histórica para diferentes comunidades. Nesse contexto, o fórum parte da necessidade de compreender não apenas os espaços físicos, mas também os significados de fé e de memória associados a eles.
Sari Nusseibeh descreveu sua relação com Jerusalém como marcada por dúvidas e contradições. Para o filósofo, a cidade que deseja para o futuro não corresponde necessariamente àquela que recebeu como herança histórica.
Nusseibeh defendeu a construção conjunta de uma Jerusalém voltada ao futuro e afirmou que as diferentes comunidades podem possuir visões distintas e, ao mesmo tempo, interesses espirituais comuns. As discussões e oficinas realizadas pelo fórum, segundo ele, contribuíram para essa reflexão.
A proposta dialoga com a ideia de “purificação da memória” defendida por Pizzaballa em sua Carta Pastoral e em sua intervenção durante o lançamento. O conceito envolve o reconhecimento das experiências e memórias das diferentes comunidades como parte de um processo de aproximação.
Pizzaballa defende presença voltada ao diálogo
O cardeal Pierbattista Pizzaballa reconheceu que o processo de transformação social é limitado e não ocorre de forma imediata. A proposta do fórum é contribuir para a criação de contextos de diálogo mais serenos, nos quais diferentes posições possam ser apresentadas e confrontadas sem eliminar suas particularidades.
Segundo o Patriarca Latino de Jerusalém, é necessário ouvir as diferentes partes e permanecer diante da realidade do conflito, reconhecendo também as possibilidades de construção que podem surgir desse cenário.
Pizzaballa afirmou que a iniciativa não pretende mudar toda a sociedade, mas oferecer uma contribuição por meio de uma presença discreta e clara, inclusive capaz de questionar posições estabelecidas quando necessário. Entre as mensagens defendidas está a ideia de que a terra deve ser reconhecida como pertencente a todos.
A declaração estabelece um dos princípios centrais do fórum: preservar as diferenças religiosas e históricas sem transformá-las em obstáculos permanentes ao diálogo.
Comitê reúne representantes israelenses e palestinos
O Comitê Diretor e Consultivo de “Às tuas portas” reúne participantes com diferentes trajetórias religiosas, acadêmicas e políticas. Antes do evento aberto ao público, os integrantes realizaram uma reunião a portas fechadas em Jerusalém.
Entre os participantes está Ninive Sandouka, ativista palestina de Jerusalém Oriental que coordena a Aliança pela Paz no Oriente Médio, rede de organizações formada por israelenses e palestinos que atuam conjuntamente.
Também integra o grupo Margaret Karram, nascida em Haifa e com trajetória de vida em Jerusalém, atualmente presidente do Movimento dos Focolares. Outra integrante é Sarah Stroumsa, especialista israelense em islamismo e arabismo e ex-reitora da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Stroumsa avaliou que a plataforma pode contribuir para desenvolver novas formas de abordar o debate público sobre Jerusalém. Na avaliação apresentada por ela, a repetição das mesmas fórmulas ao longo dos últimos anos limita a possibilidade de reflexão sobre o conflito e suas consequências.
Projeto prevê participação internacional
“Às tuas portas – Within Your Gates” permanece em fase de desenvolvimento e não estabelece prazos rígidos para sua expansão. A proposta é incorporar outros estudiosos, educadores, historiadores e filósofos às próximas etapas.
O projeto já conta com iniciativas internacionais em desenvolvimento na Itália e nos Estados Unidos, ampliando a possibilidade de participação acadêmica e interdisciplinar em torno do tema de Jerusalém.
A plataforma procura, dessa forma, construir uma rede de reflexão que ultrapasse os limites de uma única instituição ou tradição religiosa. O foco permanece na escuta mútua, na compreensão histórica e religiosa e na criação de uma narrativa compartilhada sobre a cidade.
Jerusalém como cidade de diferentes tradições
O fórum parte da compreensão de que Jerusalém possui uma dimensão que ultrapassa os interesses de uma única comunidade. Cristãos, judeus e muçulmanos atribuem à cidade diferentes significados religiosos, históricos e culturais, frequentemente associados às mesmas localidades.
A iniciativa liderada por Pizzaballa busca criar condições para que essas diferenças sejam discutidas em ambientes acadêmicos e interdisciplinares, sem a pretensão de substituir negociações políticas ou apresentar soluções para o conflito.
Ao reunir pesquisadores, religiosos, educadores e representantes de Israel e da Palestina, o projeto coloca o diálogo como instrumento para compreender a complexidade de Jerusalém. A proposta é desenvolver, gradualmente, uma narrativa que reconheça as diferentes experiências e mantenha abertas as portas para a convivência.
*Com informações da Vatican News.








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