Uma semana após o colapso de uma geleira no Himalaia, uma das maiores operações de busca e resgate do Nepal continua concentrada na localização de centenas de trabalhadores possivelmente soterrados em túneis de usinas hidrelétricas. As autoridades nepalesas informaram nesta quarta-feira (02/09/2026) que 1.114 corpos foram recuperados e 3.916 pessoas permanecem desaparecidas. No Tibete, autoridades chinesas registram outros 16 mortos e 546 desaparecidos.
Considerados os números oficiais dos dois países, o desastre já soma 1.130 mortos e 4.462 desaparecidos. Entre as pessoas cujo paradeiro permanece desconhecido estão mais de 800 estrangeiros de mais de 30 países. A tragédia ocorreu em 26 de agosto de 2026, quando o colapso de uma geleira na região do Himalaia, próxima à fronteira entre Nepal e China, desencadeou uma onda de água, lama, rochas e outros detritos.
No Nepal, pelo menos 639 trabalhadores de projetos hidrelétricos continuam desaparecidos. As equipes de emergência concentram esforços em túneis de diferentes centrais de geração, onde o acesso é dificultado pela quantidade de sedimentos e rochas acumulados. Ao menos 279 pessoas foram retiradas dos escombros de instalações do setor energético, enquanto corpos já foram encontrados em pelo menos dois túneis.
Equipes enfrentam dificuldade para acessar túneis
As operações contam com equipes especializadas do Nepal, Índia, China e Estados Unidos. Em alguns pontos, os socorristas conseguiram avançar algumas centenas de metros pelos túneis, mas o deslocamento foi interrompido pelo volume de detritos. O governo nepalês havia estimado inicialmente que mais de cem trabalhadores poderiam estar vivos dentro das estruturas, mas, após uma semana sem contato, as autoridades reconhecem que as possibilidades de sobrevivência diminuem a cada dia.
Bhim Gautam, diretor-geral da Associação de Produtores Independentes de Energia do Nepal (IPPAN), afirmou à RFI que algumas instalações estão soterradas por 13 a 14 metros de poeira e pedras. Segundo ele, a ausência de contato e a possibilidade de falta de alimento, água e oxigênio reduzem as perspectivas de encontrar sobreviventes.
Gautam também defendeu mudanças nos projetos de infraestrutura hidrelétrica do país. Para ele, a experiência deve levar à revisão da localização e da construção dos túneis e das barragens, além do reforço das estruturas para enfrentar eventos extremos.
Enquanto as buscas continuam, algumas famílias começaram a realizar cerimônias funerárias simbólicas para parentes desaparecidos. Em comunidades hindus, bonecos de palha são queimados como representação dos mortos, seguindo uma tradição destinada a simbolizar a passagem e o descanso das almas.
Destruição afeta geração de energia e infraestrutura
O setor energético está entre os mais atingidos pela catástrofe. Onze usinas hidrelétricas e uma usina solar, com capacidade combinada de 431,1 megawatts, deixaram de operar. O volume corresponde a aproximadamente 10% da capacidade instalada de geração de eletricidade do Nepal. Outros 15 projetos hidrelétricos em construção, que juntos acrescentariam 470 megawatts ao sistema, também sofreram danos.
A extensão da destruição colocou a reconstrução entre as principais prioridades do governo. Uma estimativa preliminar do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) aponta para pelo menos 2,2 milhões de toneladas de detritos, incluindo edifícios destruídos, rochas e sedimentos. A quantidade representa um volume equivalente, em estimativa comparativa, a cerca de seis edifícios Empire State.
O primeiro-ministro Balendra Shah declarou que o governo começou a deslocar parte do foco das operações emergenciais para a reabilitação e reconstrução, sem interromper as buscas e as ações de proteção à população. O custo dos danos é estimado pelo governo em bilhões de dólares, em um país cuja economia depende significativamente do turismo e das remessas de trabalhadores no exterior.
A crise também representa um teste para o governo de Shah, de 36 anos, que assumiu o cargo há seis meses. Conhecido como “Balen”, ele foi prefeito de Katmandu e chegou ao posto de primeiro-ministro em meio à insatisfação popular com a corrupção e o sistema político tradicional.
Governo enfrenta pressão por resposta à tragédia
A atuação de Shah é acompanhada diante da experiência do terremoto de 2015, quando a presença do Estado nas áreas afetadas foi considerada insuficiente por analistas. Desta vez, o primeiro-ministro esteve em regiões atingidas desde os primeiros dias da catástrofe, enquanto a resposta governamental passou a ser observada também sob o ponto de vista da capacidade de coordenar o resgate e a futura reconstrução.
A administração deverá ser avaliada principalmente pela eficácia das operações de busca, pela assistência às comunidades afetadas e pela gestão dos recursos destinados à reconstrução. A dimensão dos danos também pode atrasar reformas anunciadas pelo governo nas áreas de economia e emprego.
A destruição da infraestrutura energética ocorre em um momento em que o Nepal vinha ampliando sua capacidade de geração hidrelétrica e suas exportações de eletricidade. A inundação também destruiu a principal estrada que conecta o país à China, uma via estratégica para o comércio bilateral.
Mais de 4,4 mil pessoas continuam desaparecidas
Na terça-feira (01/09/2026), as autoridades nepalesas já haviam informado que mais de mil pessoas haviam morrido e que o número de desaparecidos ultrapassava 4.400. A destruição de pontes e estradas, somada às chuvas, vem dificultando o deslocamento de equipes de emergência e a distribuição de assistência.
O jornalista nepalês Deepak Koirala, que estava em Katmandu no dia do desastre, retornou ao distrito de Dhading no dia seguinte e relatou à RFI a situação de sua comunidade. Segundo ele, 29 moradores que viajavam para Gosaikunda, importante local de peregrinação, desapareceram durante a enchente.
Koirala passou a atuar simultaneamente na produção de reportagens sobre a tragédia e nos esforços de busca e assistência. Segundo seu relato, ele trabalha com policiais e autoridades para localizar corpos e também participa da distribuição de alimentos, roupas, equipamentos e outros suprimentos.
Cerca de 20 pontes foram destruídas e quase 40 quilômetros de estradas desapareceram. A perda dessas estruturas deixou comunidades isoladas ou com acesso limitado, aumentando o tempo necessário para a chegada de equipes de resgate, alimentos, água e medicamentos.
Comunidades enfrentam falta de alimentos, água e medicamentos
Em Trishuli, famílias permanecem abrigadas em escolas e relatam dificuldades para receber assistência. A cidade mantém conexão com outras regiões por poucas estradas estreitas e cobertas de lama, nas quais até veículos com tração nas quatro rodas enfrentam dificuldades para circular.
Em alguns trechos, deslocamentos de poucas dezenas de quilômetros podem levar até quatro horas. A precariedade dos acessos compromete tanto a retirada de vítimas quanto o abastecimento das comunidades.
A resposta governamental também passou a sofrer pressão da população. Parte dos moradores questiona a capacidade logística do Exército e critica o deslocamento de ministros em helicópteros enquanto localidades atingidas permanecem com dificuldades de acesso. Segundo a imprensa local, duas aeronaves estariam em manutenção na Índia.
Países vizinhos, como China e Paquistão, possuem helicópteros de grande porte que poderiam ser utilizados em operações de transporte. O Exército indiano opera 15 helicópteros Chinook, de fabricação norte-americana, com capacidade para transportar até 11 toneladas de suprimentos.
Apesar das necessidades nas áreas afetadas, o Nepal teria recusado algumas ofertas de ajuda internacional. Ao mesmo tempo, moradores enfrentam escassez de medicamentos, água potável e alimentos, enquanto as equipes tentam restabelecer as vias de acesso destruídas pela inundação e pelos deslizamentos.
Mudanças climáticas ampliam debate sobre segurança no Himalaia
A dimensão do desastre também recolocou no centro do debate os efeitos do aquecimento global sobre as geleiras do Himalaia. Cientistas alertam que o aumento das temperaturas acelera o derretimento do gelo e pode elevar os riscos associados ao colapso de lagos glaciais e massas de gelo.
O primeiro-ministro Balendra Shah classificou o episódio como um sinal do aumento dos riscos climáticos na região e defendeu uma resposta internacional. O Nepal contribui relativamente pouco para as emissões globais de gases de efeito estufa, mas está entre os países mais expostos aos impactos associados ao aquecimento do planeta.
Para especialistas, a catástrofe pode ampliar a compreensão da mudança climática como uma questão de segurança nacional no Nepal. O argumento considera os efeitos potenciais sobre geração de energia, infraestrutura, comércio, abastecimento e segurança da população.
Enquanto as equipes continuam a procurar desaparecidos, o país já inicia uma etapa que deverá se estender por meses ou anos: remover milhões de toneladas de detritos, recuperar estradas e pontes, reconstruir instalações energéticas e reassentar comunidades atingidas. A dimensão dos danos transforma a resposta à emergência em um desafio simultâneo de infraestrutura, assistência humanitária, energia, economia e adaptação aos riscos climáticos.








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